Degustação às cegas: Vinhos rosés

Aproveitando o assunto do momento iniciamos janeiro com uma interessante degustação de vinhos rosés. Tudo a ver com o nosso verão. Principalmente quando, descompromissadamente, pensamos em beber um vinho com os amigos; acompanhar pratos leves num almoço, ou servir apenas como um aperitivo. Os rosés são obtidos a partir de uma maceração atenuada de uvas tintas (Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, Tempranillo etc) de uma única cepa ou em assemblage. Cada produtor possui seus segredinhos para vinificar e alcançar os melhores resultados. De modo geral, os vinhos rosados não gozam de boa reputação, mas o cenário vem mudando, e não dá para negar a versatilidade desse estilo de vinho. Porém atenção, essa encantadora proposta de “oferecer o melhor dos dois mundos”, em inúmeros casos, acaba se transformando numa grande decepção. Na ânsia de conquistar uma pequena parcela desse promissor nicho de mercado, muitos produtores com pouca pesquisa e nenhum planejamento, simplesmente despejaram nas prateleiras vinhos rosés fracos e mal resolvidos. Resultado: passamos a conhecer o pior dos dois mundos. Rosados que parecem espectros diante da estrutura e da maciez de bons tintos; e distantes da refrescância e intensidade frutada que os brancos costumam oferecer. Em resumo, um grande engodo!

Contudo, verdade seja dita, a cor e as tonalidades desse vinho – rosa-pálido, salmão, cereja – exercem um enorme fascínio sobre as pessoas. Quem já estudou na teoria da comunicação a influência das cores sabe do que estou falando. Faça um teste, coloque diante de um consumidor, preferencialmente não iniciado no mundo dos vinhos, uma taça com um vinho branco e outra com um rosé, e veja qual será escolhida primeiro. Isso sem falar nas garrafas e rótulos que exploram com muita fineza e charme os tons rosados. Sucesso garantido. As mulheres que o digam.

Vinhos rosé

Procuramos selecionar para esse painel rosés secos de diferentes regiões como: França, África do Sul, Uruguai e Brasil. Esses vinhos encontram-se numa faixa de preços de R$50 a R$75, com exceção do uruguaio Castel Pujol (R$25). Quanto ao representante nacional, resolvemos incluir o lançamento da safra 2007, sendo os demais rosés 2006.

  • África do Sul, Stellenbosch: Fort Simon Rosé 2006;
  • França, Bordeaux: Château Reynon Rosé 2006;
  • Uruguai, Las Violetas: Castel Pujol Clássico Rosé 2006;
  • Brasil, São Joaquim: Villa Francioni Rosé 2007.

Os vinhos avaliados tiveram um bom desempenho, e revelaram-se muito saborosos e fáceis de beber, a exceção do Villa Francioni que ficou muito abaixo da média; fato que merece uma pequena ressalva. Os degustadores, por unanimidade, relacionaram como inferiores, tanto na avaliação olfativa quanto na gustativa, as amostras que continham o rosé 2007 da Francioni. Não cheguei a provar a safra 2006, que foi bem recomendada em algumas críticas. Pessoalmente, não acredito que essa garrafa tivesse algum problema, entretanto como não tínhamos uma segunda amostra, deixaremos a contraprova para outra ocasião.

Apesar de estarem numa mesma faixa de preços, o rosé do Reynon conseguiu se destacar dos demais, mostrando equilíbrio e elegância. Sem dúvida um delicioso bordeaux rosé. Seco, fresco e intensamente frutado. O Fort Simon se sobressaiu por sua paleta aromática delicada, mas ao mesmo tempo frutada; com um palato equilibrado, marcado por uma boa acidez e secura. Já o Castel Pujol agradou aqueles que apreciam vinhos um pouco mais “suaves”. Dos vinhos do painel, o Pujol apresentou a maior doçura residual. E, finalmente, no outro extremo, o Villa Francioni com um intenso e inconveniente bouquet vegetal. E, se o aroma não agradou, na boca o vinho não se saiu melhor. Ralo e desequilibrado, o Francioni foi uma decepção.

Fort Simon Rosé 2006

A vinícola sul-africana Fort Simon, do distrito de Stellenbosch, não é estreante aqui no blog. No mês de novembro realizamos um painel com Syrahs, e o rótulo da Fort Simon fez bonito em meio a outros competidores do novo mundo. Seus vinhedos ocupam uma área de 61ha, com destaque para as variedades de Sauvignon Blanc, Chenin Blanc, Shiraz e Merlot. Esse rosé utilizou 67% Pinotage e 33% Merlot, com a extração apenas do suco, sem qualquer contato com as cascas. Cor atraente; rosa pálido amagentado. Bouquet delicado, com aroma um pouco difuso no início, mas com o passar do tempo revelou seus encantos. Notas lembrando frutas vermelhas como morango e framboesa, leve sugestão de especiarias. Seco, boa acidez, com um fim de boca longo e frutado; o Fort Simon mostrou equilíbrio e harmonia. Só é uma pena que esse rosado não chega aqui no Brasil com um preço mais competitivo.

Muito Bom
Grad. Alcoólica: 13,5%
Preço: R$72
Importadora: Dom Quirino

Castel Pujol Clássico Rosé 2006

Produzido por uma das mais tradicionais vinícolas do Uruguai, a Bodegas Carrau, esse rosé integra a linha Castel Pujol Clássico. A Bodega possui propriedades na região de Las Violetas e Cerro Chapéu, e conta com vinhos produzidos de varietais que vão da Sauvignon Blanc, Merlot, Cabernet Sauvignon, até a grande estrela do Uruguai, a Tannat. Com esta última emblemática cepa, a Carrau possui excelentes rótulos, com destaque para o seu Tannat Amat, uma homenagem a um dos precursores da família, Don Francisco Carrau Amat. Esse Rosé é produzido a partir de uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat, de vinhedos com mais de 25 anos da Finca La Vasca, região de Las Violetas. Bela cor rosada, tendendo para o alaranjado, o Pujol apresentou um bouquet de boa intensidade e levemente adocicado; em destaque frutas maduras e notas defumadas. Na boca é saboroso, boa estrutura e maciez. Final não muito longo e com sensação de adocicado, embora o álcool fale um pouco alto.

Muito Bom
Grad. Alcoólica: 13%
Preço: R$25
Importadora: Impexco

Château Reynon Rosé 2006

Em outra ocasião (apresentação no Brasil dos vinhos Dubourdieu) já tivemos a oportunidade de provar um outro rosé, o Clos de Floridenè, também do Domaines Denis Dubourdieu. O Professor Dubourdieu é um dos maiores especialistas em vinhos brancos da atualidade, e não poderia deixar de fazer um belo representante rosado. Localizado na Appellation Premières Côtes de Bordeaux, o Château Reynon é uma das cinco propriedades da Denis Dubourdieu Domaines. Num solo privilegiado, ocupando uma superfície de 22ha estão plantadas as vinhas tintas (Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot), ao passo que os vinhedos de uvas brancas (Sauvignon Blanc e Sémillon) ocupam outros 16,5ha. Para confeccionar esse rosé foram utilizadas uvas Merlot e Cabernet Sauvignon, respectivamente na proporção, 60% e 40%. Esse classudo rosé apresentou cor levemente rosada tendendo para o alaranjado; aroma intenso e persistente, com muita fruta e frescor. Notas citrinas evocando maracujá, grapefruit e um delicioso toque floral. Corpo bem estruturado e macio, que enche a boca. Acidez na medida certa e um final longo, conferem ao Reynon muita harmonia e prazer em beber.

Excelente
Grad. Alcoólica: 13%
Preço: R$65
Importadora: Porto a Porto / Casa Flora

Villa Francioni Rosé 2007

Moderna e jovem a vinícola idealizada pelo empresário Dilor Freitas (fundador da Cerâmicas Cecrisa, falecido em 2004), está localizada na gélida região de São Joaquim, na Serra Catarinense. Integrante do rol dos chamados vinhos de altitude, a vinícola é hoje encabeçada por um dos filhos e possui um audacioso projeto na produção de vinhos finos. Toda a arquitetura e construção respeita o modelo gravitacional, que racionaliza e facilita o processo produtivo. A preocupação em valorizar o produto também está presente nas garrafas, rótulos e embalagens que contam com design diferenciado, como é o caso dos cortes retos da garrafa desse rosado. O Francioni Rosé 2007 foi produzido a partir de um interessante assemblage das uvas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec e Pinot Noir, provenientes de vinhedos próprios localizados em São Joaquim e Bom Retiro. A análise visual revelou um salmão bem pálido (mais clarinho de todos). Aroma intenso, porém muito distante do que poderia se esperar de um jovem rosado. Ausência de frutuosidade, com predominância de notas vegetais e de borracha queimada. Alguns degustadores mencionaram lona de freio queimada. Na boca pouca estrutura, acidez desagradável e um final curto, fecharam um pacote bem desarmônico.

Fraco
Grad. Alcoólica:13,4%
Preço: R$49

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4 Comentários para “Degustação às cegas: Vinhos rosés”


  1. 1 Ulisses Vieira

    Nossa, não fazia idéia de como vinhos rosés podem ser bem interessantes. Pensei que só existissem vinhos rosés fraquinhos! Boa sugestão

  2. 2 Nicole

    Eu comprei um Villa Francioni Rosé 2007 há algum tempo e achei a garrafa muito linda. Fiz até um vaso com ela depois de cortar a garrafa. O vinho não agradou muito o pessoal aqui em casa. Acharam meio sem gosto.
    Sucesso!!

  3. 3 espressa-mente!

    Boa ideia nicole! eu to com a garrafa aqui tambem vazia sem saber o que fazer! realmente foi uma surpresa negativa este vinho villa francioni. fui compra-lo motivado por belas criticas desta vinicola, achei o preço justo pelo que esperava…foi uma decepçao! agora, fica mais dificil ainda, investir 120,xx no tinto da mesma.

  4. 4 Luciano B. Filho

    Muito bons os comentários Jackson, mas só acho uma coisa ‘ralo e desequilibrado’? Voce foi light, o vinho dispensa comentários. Simplesmente péssimo resumiria bem esse rosé Francioni. Abs

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