A África do Sul

Vinhedo da Nederburg em Paarl

Vinhedo da Nederburg em Paarl

Para muitos, a África do Sul remete aos problemas sociais decorrente do Apartheid, ou ainda, mais recentemente, como o último país sede da Copa do Mundo. Para quem gosta de vinhos, no entanto, este país é visto como mais um dos integrantes do time do “Novo Mundo”, diretamente associado a sua variedade de uva mais emblemática, a Pinotage. A verdade é que nós brasileiros sabemos muito pouco da África do Sul, da sua riquíssima história, da complexa questão da segregação racial e dos ótimos vinhos que vão muito além da Pinotage.

Casa Colonial - África do Sul

Típica casa colonial da região do Cabo

Em recente viagem a Cidade do Cabo pude aprender um pouco mais sobre sua história, contemplar os belíssimos vales cultivados e provar vinhos que dificilmente saem de lá. A África do Sul, como nação, começou em 6 de abril de 1652 pelas mãos de Jan van Riebeeck, importante membro da Companhia Holandesa das Índias Orientais (Vereenigde Oost-Indische Compagnie ou, simplesmente, VOC), que fortificou na atual Cidade do Cabo um porto de abastecimento para navios mercantes holandeses. Jan van Riebeeck percebeu de imediato o potencial da região, plantou vinhas e em 1659 já vinificava a primeira safra. Não demorou muito para a atividade vinícola prosperar. Em 1685 o então administrador da colônia, Simon van der Stel conseguiu driblar algumas normas da VOC, que proibiam que pessoas da companhia adquirissem terras, para comprar em seu nome 800 hectares na atual localidade de Contantia. Van der Stel foi um visionário, percebeu que o vale de Constantia possuía um clima especial, com influência oceânica e solos vermelhos profundos. Tratou de limpar a vegetação da área com a mão de obra escrava da VOC, plantou vinhas e construiu do nada uma vinícola modelo. Em 1692 os vinhos de Constantia já eram reconhecidos como os melhores do Cabo, ganhando fama na Europa, iniciando assim a história de uma das regiões vinícolas mais famosas do mundo.

Waterfront - Cidade do Cabo

Waterfront com a Table Mountain ao fundo - Cidade do Cabo

O auge do vinho sul africano veio um pouco depois, quando Hendrik Cloete comprou em 1778 uma das melhores fazendas do vale de Constantia. Cloete iniciou um manejo bastante radical, plantando apenas variedades brancas, colhendo as uvas tardiamente e muito maduras, produzindo um vinho alcoólico e naturalmente doce. Nascia assim o Constantia, talvez o mais famoso vinho do Novo Mundo, o único que ganhou o respeito e a preferência de boa parte da nobreza européia. A empreitada de sucesso da família Cloete projetou o vinho sul-africano mundo afora, atraiu novos investidores e propiciou o desenvolvimento de outras regiões além de Constantia.

Observatório de baleias em Walker Bay

Observatório de baleias em Walker Bay

Após um século de sucesso do vinho de Constantia, a África do Sul sofreu uma série de episódios que arruinaram com sua indústria vinícola. Primeiro a philoxera, responsável por dizimar os vinhedos, depois as guerras entre o Império Britânico e os colonos locais, por fim o regime do Apartheid (1948-1994). Esses acontecimentos históricos são fundamentais para entender o vinho sul-africano, embasado em tradições antigas, mas que desde o fim do apartheid tenta ganhar espaço frente a outros produtos do Novo Mundo.

Camps Bay

Camps Bay - Badalada praia da Cidade do Cabo

Atualmente a África do Sul busca uma afirmação do seu potencial produtivo, tentando agradar o consumidor oferecendo o que mais se procura no mercado. Vinhos frutados, acessíveis, com bom corpo e certa doçura natural. A conhecida estratégia do Novo Mundo, também se faz presente aqui. A prova disso foi a onda de replantio ocorrida nas últimas décadas, substituindo variedades de uva branca por tinta, buscando atender ao gosto do consumidor médio atual. É curioso observar esse fenônemo em um lugar que ficou famoso justamente por seu vinhos brancos, notoriamente o doce Vin de Constance. Não por acaso, pude comprovar a ótima qualidade dos brancos sul-africanos, que nem sempre é notada nos tintos. Mesmo que eu tenha preferido os brancos, provei alguns tintos de excelente qualidade que comprovam a diversidade de estilos que a África do Sul pode produzir. Clima e terroir para isso existem.

Ostras frescas

Ostras frescas são comuns na Cidade do Cabo

Tradicionalmente, a África do Sul é um país de uvas brancas, a Chenin Blanc ainda é a variedade mais cultivada, apesar da crescente expansão do plantio de uvas tintas. Sauvignon Blanc e Chardonnay também aparecem em destaque, com boa adaptação a região do Cabo, apresentando ótimos resultados. A Moscatel é um capítulo a parte, uma vez que dá origem a quatro especialidades sul africanas, o Vin de Constance, o Muscadel e o Jeripigo. Semillion, Gewurztraminer, Riesling e Viognier fecham o time das brancas. As variedades tintas são as mesmas encontradas em quase todo o Novo Mundo, com excessão da Pinotage, a híbrida de Pinot Noir e Cinsault que serve de estandarte para o vinho sul africano. Alguns dos melhores vinhos são produzidos nas regiões de Stellenbosch e Paarl, mas Walker Bay e o vale de Constantia também merecem atenção. O clima é marcado pela influência marítima, com dias quentes e ventos frios do oceano.

Tiger Praws

Tiger Praws, o camarão " tigrado" típico da costa leste da África

Além dos vinhos, a Cidade do Cabo oferece bons restaurantes e ótima infraestrutura para turismo. Vale a pena passar alguns dias na cidade, passear pelo Waterfront, comer frutos do mar a preços convidativos e, principalmente, visitar algumas vinícolas nas regiões de Stellenbosch, Paarl, Constantia e Walker Bay. A África do Sul encanta, e a Cidade do Cabo é um dos principais atrativos deste país cheio de contrastes.

* Aguardem pelo próximo post com o review dos vinhos provados.

  • http://www.qualvinho.com.br Raphael Malago

    Jomar,
    Lendo seu post vejo que o Brasil esta evoluindo para o maior descobrimento da África do Sul como um ótimo polo de produção de vinhos.
    Eu ja vivo aqui a 5 anos e acompanho a maior parte da evolução da indústria e digo que tenho me impressionado muito a crescente qualidade dos vinhos aqui produzidos.
    Em minha opinião hoje é um dos países com maior potencial de futuro e agoras que as vinhas estão se solidificando na terra temos a produção de frutas de excelente qualidade e vinificação liderada por competentes profissionais.
    Espero que tenha tido a oportunidade de degustar vinhos como Vilafonté(projeto de Zelma Long ex Opus One com a família Ratcliff, Mullineux Family Wines, Eben Sadie (Collumella, Sequillo, Cape Chame produzido junto com Dick Niepoort), Stony Brook, Eagles Nest.
    Infelizmente no Brasil hoje só existem vinhos importados das grandes vinícolas onde a qualidade nem sempre é a melhor e creio que há ainda uma errada visão da indústria justamente por falta de conhecimento.
    Espero com o tempo ver este cenário mudar e que o Brasil receba vinhos de ótima qualidade deste país!
    Abraço
    Raphael Malagó

  • http://www.cozinhadonaluiza.blogspot.com/ Antonio Gonçalves

    O Enoturismo tem vindo a crescer imensamente na ultima década e a África do Sul se tornou um destino exceccional.
    Não podemos, no entanto, esquecer, destinos que ainda não são muito explorados como é o caso de Portugal, e deixo aqui o meu conselho e o meu convitre para, por exemplo, umas férias na lindissima região do rio DOURO, com suas terras abençoadas que produzem não apenas o Vinho do Porto, mas também vinhos Brancos e Tintos da mais alta qualidade, verdadeiras joias que justificam a viagem , bem como a Gastronomia da região de Trás-os-Montes….