Os bastidores de uma cozinha: a hora da verdade

Forno-a-Lenha-Forneria-Copacabana-600-400São nove e meia da noite. A casa esta cheia. Mais um daqueles dias que não pára de entrar gente pela porta e meu sentimento é uma mistura de felicidade e desespero. Dois garçons, de uma equipe de 12, não apareceram, e um barman teve que sair antes para resolver um problema com a mulher – fato comum nos sábados à noite. Mas quem ficou, ficou, e agora é hora de segurar a onda e tentar ganhar o jogo com o time desfalcado. Estou feito uma barata tonta, pra lá e pra cá, rodando pelo salão. Atendo a porta, tiro um chope no bar, recolho pratos sujos de uma mesa, cobro algumas contas. Tudo anda no limite entre o ótimo e o desastre, e eu sei disso. De repente, entre as mesas, um garçom me segura pelo braço e suplica: “Seu Beto, já faz 45 minutos que tirei o pedido da 34 e nada”. Eu entendo a mensagem, corro pra dentro da cozinha, e grito feito um louco, sem direção: “Cadê a 34? Cadê a comanda da 34, porra?”. Ninguém entende muito bem, pois estão tão enlouquecidos quanto eu, mas sabem que o meu mar não ta pra peixe. O chef me passa a comanda, verifico o horário e vejo que a situação é ainda pior: 51 minutos se passaram desde que a mesa fez o pedido. “É a próxima”, me diz o chef ao mesmo tempo que berra com sua equipe: “Pessoal, manda a 34 já! Anda rápido, anda!”. Eu, descontrolado e encoberto pelas paredes que separam a cozinha do salão, descarrego meu nervosismo dando 2 chutes numa porta e 3 socos na bancada de aço inox. Espero, por ali mesmo, com a testa e o nariz encostados na parede, tentando me controlar. Dois minutos eternos se passam até que os pratos da mesa 34 começam a aparecer na bancada aquecida por fortes lâmpadas. Estão lindos, impecáveis, suculentos. Imediatamente, seguro um garçom pelo braço, como se eu fosse arrancar sua cabeça fora e digo: “Pare tudo e sirva a 34. Agora!”. Sigo seus passos e espero que ele coloque os pratos sobre a mesa. Acompanho, de longe, a reação dos clientes. Nesse momento meu mundo pára. Fico ali, disfarçado atrás de uma coluna, na expectativa da primeira garfada. É como se eu estivesse prestes a bater um pênalti dentro de um estádio lotado numa final de campeonato. É a hora da verdade. Acompanho a maneira com que cada um olha para seu prato. Observo, vidrado, a cerimônia sutil da primeira garfada, a primeira mordida, o movimento com a cabeça e o olhar de aprovação entre aqueles clientes. Tudo acontece em fração de segundos, mas para mim é um filme em câmera lenta de uma vida inteira de trabalho. Essa é a sensação. É ali, naquele momento, que sinto a recompensa dos nossos esforços do dia a dia. É ali, naquele gesto de satisfação, que sinto amor por minha profissão. “Pronto! Foi mais uma”, penso comigo. Desperto da minha transe de concentração extrema e sigo em frente. Não posso parar. Ainda faltam diversas mesas para serem servidas e outras tantas para sentar. Nossa noite esta longe do fim.

  • Luiz Mauricio Fontana

    É Exatamente deste jeito, Parabéns!!!

  • http://www.joaofrazao.com.br João Frazão

    Parabéns Beto!
    Sei o que é isso, essa sensação, já a vivi algumas vezes, mas vc foi perfeito na dissertação de como tudo acontece. Com esse feeling vc já é um empresario de sucesso e justiça seja feita teve a quem puxar.
    Abraço!