Manuel Louzada fala do seu trabalho como enólogo da Terrazas de los Andes

Apresentar aos nossos leitores o trabalho desenvolvido pelos produtores, sob a ótica dos profissionais que fazem o vinho. Essa será a temática da mais nova seção do QVinho, que inaugura hoje, dedicada especialmente a entrevistas. E, para dar início em grande estilo, publicamos uma entrevista exclusiva para o QVinho, com Manuel Louzada, diretor de enologia da Bodega Terrazas de Los Andes. Para explicar como se deu o ingresso de Louzada no mundo do vinho, basta dizer que sua paixão veio de berço. Natural de Portugal, Manuel vem de uma tradicional família de vitivinicultores de Portugal (Caves Messias). Mas, há sete anos Manuel fez de Mendoza sua residência, ao lado da esposa e filhos, e hoje é responsável pela produção dos vinhos de uma das mais prestigiadas bodegas de Mendoza.

Nessa entrevista Louzada conta um pouco mais sobre o terroir dos principais vinhedos e a filosofia de trabalho que dita o estilo dos vinhos da Terrazas. Quando perguntado sobre o potencial vitivinícola de Mendoza e a adaptação de outras varietais nessa região, Louzada é enfático: ilimitado. “As características que se reúnem naturalmente na Argentina e especialmente em Mendoza são excepcionais, permitindo alcançar uma perfeita maturação e a expressão de um grande número de variedades”. E lança o desafio, ao incluir no rol de variedades a emblemática Touriga Nacional. É o coração português batendo mais forte. Quanto a polêmica, terroir ou mão do homem, Louzada é defensor de uma intervenção limitada. Para ele, o vinho é a expressão de um bom solo e clima, daí a importância do trabalho nos vinhedos.

Manuel Louzada - Enólogo da bodega Terrazas de los Andes

QVinho – A Terrazas de los Andes foi uma das primeiras bodegas a trabalhar o conceito de terroir, mencionando em seus rótulos as diferentes altitudes dos vinhedos, associando a qualidade das diferentes uvas a essa adaptação ao terreno e ao clima. Os vinhos da linha Afincado representam com perfeição essa filosofia, ostentando orgulhosamente o nome do vinhedo de origem, assim como os Grand Crus de Bordeaux. Gostaria que o senhor explicasse as diferenças do terroir de Las Compuertas e Los Aromos.

Louzada – Dado que Mendoza é uma região sem influência marítima, tanto pela presença da Cordilheira dos Andes, que bloqueia qualquer influência proveniente do Oceano Pacífico, quanto pela grande distância do Oceano Atlântico, de mais de 1.200 Km, o fator que define a perfeita expressão das uvas é precisamente a altitude em que os vinhedos se encontram plantados. Esta altitude, que do ponto de vista climático afeta principalmente a temperatura diurna (a qual baixa perto de 0,65°C por cada 100 metros de altura) e a amplitude térmica (diferença entre a temperatura diurna e a noturna, extremamente importante para a formação de polifenóis) tem que ser a mais adequada para cada variedade, pois, caso contrario, não é possível alcançar o nível adequado de maturação, (se excessiva) ou pode ocorrer uma excessiva acumulação de açúcar sem chegar à maturação polifenólica (se insuficiente).

O vinhedo de Las Compuertas é onde se reúnem as condições perfeitas para o crescimento e maturação da variedade de uva Malbec. Este vinhedo, plantado em 1929, encontra-se situado a uma altura média de 1.067 metros, com um solo pouco fértil, pobre em matéria orgânica e de excelente drenagem. A amplitude térmica é de cerca de 16°C, o que permite uma lenta maturação, uma lenta acumulação de açúcares e, muito mais importante, a acumulação de todos os constituintes que afetam a sua profunda cor, seu complexo aroma e sua elegante estrutura.
No vinhedo de Los Aromos se reúnem as condições excepcionais para o Cabernet Sauvignon. Um vinhedo de mais de 15 anos, que se encontra a uma altura média de 980 metros, com um solo de características não muito diferentes do mencionado anteriormente. Neste caso, a amplitude térmica é de cerca de 14°C, fundamental para cobrir as necessidades da variedade Cabernet Sauvignon, a qual precisa naturalmente de um pouco mais de calor que a Malbec.

QVinho – A maioria dos produtores do novo mundo costuma buscar inspiração nos grandes vinhos europeus. Nicolás Catena Zapata procura aproximar o seu Cabernet Sauvignon do estilo Medoc, já a O.Fournier tem os olhos voltados para suas raízes em Ribera Del Duero, por outro lado, Roberto Cipresso imprimiu um estilo “super toscano” aos vinhos da Achaval Ferrer. Como os proprietários da Terrazas de los Andes são franceses, é natural que pensemos num estilo “francês”, porém os vinhos da Terrazas demonstram uma personalidade bem definida, com as melhores características do novo mundo. Como é esse processo de definição de estilo dentro da Terrazas, vocês possuem a liberdade para moldar a personalidade dos vinhos? Quais as diretrizes impostas pelo grupo LVMH?

Louzada – Quando a Moët & Chandon decidiu se instalar na Argentina, trouxe uma filosofia de trabalho clara, precisa e sempre orientada à obtenção da mais alta qualidade, que se sustentava em dois pilares fundamentais: a procura do melhor terroir para a expressão de cada variedade e, uma vez alcançada a máxima expressão no vinhedo, traduzir toda esta qualidade ao vinho com uma filosofia de vinificação extremamente respeitosa. Estas seriam, de uma forma geral, as únicas diretrizes do grupo ao qual pertence a Terrazas de los Andes.
Como foi bem dito, os vinhos da Terrazas têm estilo e personalidade bem definidos, que procuram ressaltar as características excepcionais obtidas nos nossos vinhedos, com uma vinificação de marcada influência francesa que procura em todo momento adicionar, de forma equilibrada, elementos para alcançar o nível de complexidade procurado.

QVinho – A Argentina é muito conhecida pelos emblemáticos vinhos de Malbec, porém isso vem mudando, cada vez mais vinhos de variedades como a Tempranillo, Pinot Noir, Syrah, Petit Verdot, Bonarda, Torrontes e Viognier aparecem no mercado. Alguns produtores já fazem vinhos de elite com as duas primeiras, e as outras parecem ter entusiastas com boas razões para acreditar nelas. Atualmente a Terrazas de los Andes oferece vinhos das variedades mais tradicionais na Argentina, como a Cabernet Sauvignon a Chardonnay e a Malbec, mas existe algum projeto ou pretensão de trabalhar com outras variedades de uvas? Qual a opinião do senhor sobre o potencial de outras varietais além da Malbec, da Cabernet Sauvignon e da Chardonnay?

Louzada – Uma das grandes preocupações da equipe de Vinhedos e Enologia da Terrazas de los Andes é a permanente procura e experimentação de outras variedades de uva e sua combinação exata com a altitude na qual devem ser plantadas. Além das variedades mencionadas, gostaria de citar também variedades como a Sémillon (junto com a Malbec, as duas variedades de maior tradição em Mendoza), a Merlot, a Cabernet Franc, a Tannat, a Petit Manseng (para a elaboração de Colheitas Tardias) e, quem sabe, por que não um pouco de Touriga Nacional.
Do meu ponto de vista, as características que se reúnem naturalmente na Argentina e especialmente em Mendoza são excepcionais, permitindo alcançar uma perfeita maturação e a expressão de um grande número de variedades, razão pela qual a única palavra em que posso pensar sobre o potencial vitivinícola de Mendoza seria ilimitado.

QVinho – O intervencionismo exagerado do homem é um dos pontos mais controversos na produção de vinho atual. Técnicas como a microoxigenação, a osmose reversa e o spinning cone já são bastante empregadas, facilitando a criação de vinhos potentes e concentrados, porém macios e prontos para o consumo imediato. Qual a sua opinião sobre o chamado vinho high-tech?

Louzada – Como eu lhe dizia, a filosofia da Terrazas de los Andes está muito em linha com a que a Moët & Chandon nos trouxe há mais de 45 anos, baseada numa qualidade excepcional alcançada nos vinhedos e,depois, com técnicas de vinificação e de intervenção limitada que permitam traduzir esta qualidade aos vinhos. A nossa equipe está profundamente convencida de que um bom vinho nasce no vinhedo, razão pela qual grande parte do nosso esforço se concentra precisamente aí. Posteriormente, a definição do momento da colheita requer uma grande dedicação no seguimento da maturação e uma seleção precisa, de tal forma que no início da vinificação possamos contar com o máximo de qualidade. A vinificação deve, então, ser pensada em detalhes para somar em cada passo da elaboração do vinho para que chegue ao consumidor nas melhores condições.

Pessoalmente, eu estou um convencido daquilo que acabo de mencionar e, portanto, sou mais partidário de uma intervenção limitada. No entanto, penso também que as diferentes técnicas de vinificação, como as que menciona, são ferramentas que estão à disposição dos enólogos para ajudá-los na elaboração de vinhos de boa qualidade. Gostaria unicamente de dizer algumas palavras sobre as técnicas que menciona: a microoxigenação me parece interessante, pois é inspirada na dissolução de O2 que se fazia durante as trasfegas e, em vez de propor dissoluções importantes que alcançavam níveis de saturação, propõe dissoluções adequadas às necessidades do vinho; quanto à osmose inversa e o spinning cone, é muito possível que se ouça falar cada vez mais destas técnicas, devido ao aumento do nível de açúcar e, portanto, de álcool potencial nas uvas pelo aquecimento global do planeta. Nesse caso, penso que é mais positivo o uso destas técnicas a ter um vinho com mais de 14% ou 15% de álcool.

QVinho – Qual o melhor vinho que você já fez? E qual o melhor que já provou?

Louzada – Sinceramente, são as duas perguntas mais difíceis que me poderiam fazer por ter que escolher um só vinho e deixar de fora uma enorme quantidade de vinhos pelos quais ainda hoje tenho um especial carinho. Por outro lado, sou extremamente perfeccionista e o meu objetivo a cada ano é fazer um vinho cada vez melhor. Como dizem os ingleses, “there is always room for improvement“. Por isso, gostaria de responder que o vinho que hoje em dia mais me satisfaz fazer é o Terrazas Reserva Malbec, pois penso que estamos num excelente caminho.

Quanto ao vinho que provei, vou ter que mencionar vários e tenho a certeza de que vou esquecer muitíssimos vinhos dos quais gosto:

  • Vinho Tintos: Cheval Blanc 2000, Cheval des Andes 2005 (ainda não está no mercado); Terrazas Gran Malbec e Gran Cabernet Sauvignon 1999, Afincado Malbec 2002, Rozès Touriga Nacional 1999, Cape Mantelle Cabernet Sauvignon 2003.
  • Vinhos Brancos: Cloudy Bay Te Koko 2003, Cloudy Bay Sauvignon Blanc 2006, Guiado Sémillon 2004 (da Chandon Argentina).
  • Champagnes: Krug 1988 (provei uma semana depois do nascimento do meu filho, Pedro, em Novembro do ano 2000 e jamais esquecerei este vinho), Dom Pérignon 1995 e La grande Dame Rosé 1995 (provei no nascimento da minha filha, Maria).
  • Vinhos Espumantes: Chandon Cuvée Réserve Pinot Noir, Baron B. Unique 1997.

Para mim, a recordação destes vinhos se dá pela combinação da sua excelente qualidade com momentos maravilhosos na minha vida.

  • Sandra Louzada

    Boa Noite.

    Por curiosidade estava procurando o significado do meu sobrenome “louzado” ,origem …E me deparei com um Louzada que trabalha com vinhos. Pode ser conhecidencia mas eu sou uma amante de vinhos minha bebida predileta,mas pode ser o sangue que correm em nós. Fiquei muito orgulhosa do seu trabalho .
    Tenha um ano de muitas graças.
    Omeu end esta ai se queseres entrar em contato comigo estou as ordens
    sandra louzada- bjs

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  • Louzalmo Louzada

    Sem mais comentários tudo que é feito pelos Louzada é muito bem feito.
    Louzalmo Louzada

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  • manuel louzada dos santos

    ola louzada, vc pertense a bairrada em portugal, tambem sou de lá, mas vivo no brasil, em são paulo. acho que conheço a tua aldeia..quem sabe

  • http://xalaq.blogs.sapo.pt Manuel Nuno Louzada

    É capaz de mais, o Manuel,meu filho…
    Mas enfim a Vida e a Sorte se o bafejarem.. tenho mais um motivo de orgulho,ainda mais se tal é possível….
    Que Deus o proteja, e a mim não me desampare…
    Quanto ao blog, continuem a publicar o que de bom há neste Mundo de Vinhos, não só na Argentina mas também no Brasil e em Portugal…onde o vinho é também tão primordial
    Manuel Nuno Louzada

  • Fernanda

    Adorei a entrevista com Manuel, vai de encontro com a proposta do blog de trazer um conteúdo sério e relevante para os amantes do vinho. Vamos aguardar pelas próximas. Sucesso!!!

  • Jorge Campos

    Excelente trabalho! O Terrazas Reserva Malbec é um dos meus vinhos preferidos, nunca decepciona. Tomara que eles continuem com esse padrão de qualidade.

  • Alexandre Loper

    Acredito que entrevistas e contatos com especialistas de renome é um ótimo caminho para excelentes posts. Parabéns! A matéria ficou ótima!