O vinho fiasquento

Garrafas de vinho

Há alguns dias, um vendedor de uma loja de vinhos perguntou se eu gostava de vinho italiano. Obviamente, respondi que sim. Logo em seguida indagou sobre o meu conhecimento da uva Barbera. Sim, tenho certa intimidade com ela, afinal já fiquei hospedado em uma cantina em Barbaresco. O vendedor animou-se subitamente, fez um ligeiro suspense e, por fim, apresentou-me uma garrafa dizendo: “então você irá apreciar muito esse vinho…”

Era uma garrafa do Escorihuela Gascón Pequeñas Producciones Barbera 2002. Torci o nariz, disse a ele que já conhecia o vinho e que não valia grande coisa; pequena produção, grande fiasco!

O intrépido vendedor ficou surpreso, fez cara de desdém e, por fim, emendou que o vinho havia sido laureado com o status de “Excelente Compra”, segundo a Revista Gula.

Esse vinho não merecia uma avaliação, no entanto vejo fiascos como esse sendo empurrados para o consumidor, que sem ter como conhecer a qualidade do vinho, acaba levando para casa apenas uma bela e laureada garrafa. Fico surpreso ao observar a quantidade de vinhos que a “mídia especializada” degusta e, ainda mais surpreso com as avaliações, quando vejo que quase não existem críticas desfavoráveis. Não é estranho? Está certo, realmente é cada vez mais difícil encontrar vinho defeituoso – essencialmente ruins – pelo menos em uma faixa de preço acima dos R$30. As técnicas modernas de vinificação ajudam muito, se não garantem qualidade, ao menos conseguem evitar o pior.

O questão aqui é outra, é sobre aqueles vinhos que prometem muito: produtor que alardeia cuidados cirúrgicos na produção; garrafas pesadas que ostentam belos rótulos com sugestivos números de tiragem limitada; rolhas de primeiríssima linha; medalhas em concursos que ninguém conhece; comentários favoráveis na mídia, muito provavelmente, oriundos de um press release que se reproduziu como um câncer terminal.

Toda essa consistência convence até o mais incrédulo bebedor, mas se no momento do consumo você ficar com uma sensação que já bebeu coisa melhor por ¼ do valor, pode ter certeza, talvez você tenha sido vítima do vinho fiasquento.

Fiasquento é um adjetivo usado pelos boleiros, costuma designar um time que faz vexame, na realidade uma palavra derivada do termo fiasco. A semiótica da palavra italiana fiasco é muito interessante, chega a ser irônica quando analisada dentro do contexto do mundo do vinho. Sua significância é simples: frasco ou garrafa. Mas como uma garrafa se tornou símbolo de farsa e vexame? Existem várias lendas que tentam explicar a etimologia de fiasco, talvez a mais plausível, seja a dos vidraceiros venezianos. Tradicionalmente, os vidraceiros venezianos são considerados artistas, capazes de produzir peças de rara beleza. Acontece que o processo artesanal e rudimentar do sopro não é imune à falhas e, invariavelmente, algumas peças acabam sofrendo imperfeições. Nesse caso, o artista veneziano era obrigado a descartar sua criação e, como última alternativa, transformava sua pequena obra de arte em fiasco, isto é, numa simples garrafa! Segundo essa idéia, fare fiasco (fazer uma garrafa) é o resultado de um erro do artesão, ou melhor, um produto vulgar e indigno para um artista!

A verdade é que tem muito fiasco por aí, mesmo assim, isso não quer dizer que o vinho seja realmente ruim – na pior significância dessa palavra – geralmente o produto é ruim dentro de um contexto, por exemplo:

Um Borgonha de R$170 pode ser péssimo se você já tiver provado um Pinot Noir do novo mundo – mais frutado, concentrado e macio – pelo valor de R$70.

Esse caso é clássico, todos enaltecem as virtudes borgonhesas, poucos falam sobre os problemas, sobre as safras deficientes, sobre os produtores inescrupulosos que se aproveitam da reputação da região. Li certa vez, em um livro publicado na década de 90 por algum autor inglês (não lembro o nome), que para você levar para casa um bom Borgonha é preciso comprar uma caixa sortida (assim aumentam as chances de você acertar com uma garrafa). Essa anedota reforça a tendência fiasquenta do Borgonha sem muito sobrenome.

Existe um outro tipo de vinho que é forte candidato a fiasquento, é o chamado vinho de guarda. A história recente do Barolo e do Barbaresco serve de exemplo para ilustrar esse caso. “Vinho dos reis. Rei dos vinhos”. Um Barolo nunca deve ser bebido antes de 10 anos… Os produtores tradicionais do Piemonte sempre tentaram esconder os problemas do Barolo, atribuindo suas virtudes a mágica do tempo. Vinhos muito tânicos, pouca fruta, maturação inadequada em pipas de carvalho velho, tudo isso fez a fama de “mau” do Barolo.

Angelo Gaja fez tudo diferente e provou que o Barolo pode ser apreciado jovem e, mesmo assim, só melhorar com o tempo. Eu já provei ótimos Baroli com 4 anos e outros que, sem dúvida, não irão melhorar nem depois de 20 anos.

Todo grande vinho pode melhorar com o tempo. Por que? Existem várias hipóteses, mas uma coisa é certa: não basta apenas ter estrutura. Por isso desconfie de vinhos que nada oferecem de imediato – principalmente se não for um grande de Bordeaux, Borgonha, Barolo, Brunello di Montalcino ou algo do gênero – mas prometem um oásis sensorial depois de alguns anos de repouso na adega, simplesmente por serem vinhos austeros e estruturados. O vinho fiasquento sempre oferece aquilo que não pode dar.

É importante lembrar que a maioria dos vinhos não nascem fiasquentos, geralmente são produtos da nossa expectativa frustrada, sendo assim, são vítimas da sua própria “embalagem”. Essa é a ironia por traz de todo fiasco.

  • Maurício

    Mesmo não sendo um vinho tão caro, tive uma decepção sem tamanho com um Valpolicella de R$30…

  • Pingback: Escorihuela Gascón Barbera Pequeñas Producciones 2002

  • http://cnosense.blogspot.com Cláudio

    Corrijindo, foi um Grenache Noir de Châteauneuf du Pape

  • http://cnosense.blogspot.com Cláudio

    Muito bom o post Jomar. Tirando um pequeno detalhe, pegar um inglês falando a respeito de vinho francês é semelhante a pegar um argentino e perguntar para ele se o Pelé foi um bom jogador de futebol.

    No mais, concordo em tudo com seu comentário. Uma vez fiz uma degustação às cegas com amigos e abri um Gran Tarapacá Carmenére e um Cabernet Suavignon de Châteauneuf du Pape. Adivinhem quem foi eleito o mais bem eleito?

  • Rafael

    Algo aqui me remete ao alarde publicitário dos vinhos medianos “Salton” e cia, enquanto há muitas outras sem mídia infinitamente superiores.

  • Noe Vaz

    Bem, como profissional de marketing, valem algumas explicações: geralmente esses produtos usam as chamadas estratégias de “marketing viral”. Já existe bastante coisa na internet sobre isso, mas a proposta é essa: você faz uma divulgação “aparentemente” sem usar os canais tradicionais de mídia, e deixa que o público (muitas vezes sem segundas intenções se encarregue de divulgar o produto…).Funciona na mesma proposta de um vírus ou worm de computador… ele se propaga através das pessoas, utilizando vídeos (como aparecem no YouTube) “aparentemente” sensacionais, diferentes, instigantes, etc. Nada contra essa estratégia, que por sinal é considerada pelos experts altamente eficiente…
    O problema, é que as pessoas “seguem” os formadores de opinião (seja Parker, ou aquele primo mais entendido ). Fazem isso porque simplesmente estão em um primeiro degrau de aprendizado, da experiência com o produto (isso também é MKT !) e consultam esses “formadores de opinião”… Numa fase posterior, passam a desenvolver seu próprio gosto e definem qual o seu mix de marcas predileto…
    É assim que funciona… para vinhos e uma grande gama de produtos !
    No caso da Borgonha, já passei por experiências opostas: provei excelentes vinhos “esculhambados” pela crítica, simplesmente porque segui a máxima maior para estes vinhos: foco no responsável pelo vinho, independente de ser um Gran Cru ou Premier Cru…

  • Thiago Oliveira

    No meu modo de ver as avaliações dadas por Parker e revistas como a Wine Spectator são até positivas. Na maioria das vezes os vinhos bem pontuados correspondem em qualidade, ainda que muito se discuta em relação a potência X delicadeza, ou pela tendência dada pelo gosto do avaliador. Mas, concordo com você Jomar,nossa midia especializada abusa e subestima a inteligência do consumidor. Já tomei vinhos péssimos simplesmente por acreditar nessas recomendações estúpidas. Hoje, posso dizer que formei uma opinião crítica sobre o assunto e seleciono muito mais o que leio.
    Alguns vinhos que você degustou eu já provei e acredito que os comentários que foram traçados apresentaram muita coerência. Continue assim! Abraço

  • http://www.enochatos.com.br Enochatos

    O problema está no chamado “marketing da vinícola”. O Marketing invadiu o mundo do Vinho de uma forma tão absoluta que muita gente toma Vinho baseado em avaliaçãoes de terceiros, como o “Parker”, e se o vinho foi bem falado, ele se enfia de cabeça.

    Assim se produzem vinhos caros, que não correspondem a seu contéudo. O pior é que os Enochatos não tem coragem de se contrapor e publicar as más experiências.

  • http://www.espressa-mente.blogspot.com espressa-mente!

    Vinhos fiasquentos hoje, são exaltados por vendedores fiasquentos que se valem de argumentos tirados de alguma revista ou avaliação duvidosa/fiasquenta. Qual editor(a) irá avaliar mal um vinho de um (possível) anunciante, que atire a primeira rolha!!!

  • anderson

    Fiasquento!?!?! É … acho que já peguei aguns desses pela frente. Talvez eu tivesse muita expectativa mesmo. Já paguei caro por garrafas pomposas, lindos rótulos contando histórias mirabolantes de produção, mas que no final o vinho não mostrou absolutamente nada! Por isso estou com um pé atras em relação a certas críticas.