Entre vinhos argentinos e chilenos

O vinho aproxima as pessoas. Máxima inquestionável entre apreciadores dessa bebida. O vinho também faz viajar e conhecer outras culturas, mesmo que apenas em sonhos e divagações. O vinho amplia nossos horizontes e aguça a nossa percepção. O vinho atiça a curiosidade. Foi pensando nisso que defini o tema desse primeiro post da série On the Road 2009. Primeiro preciso explicar o nome, que não foi escolhido a esmo, mas sim de um instinto natural de viajar. Na realidade o único jeito de conhecer as regiões vinícolas. Foi o que fizemos, caímos na estrada e conhecemos alguns dos mais emblemáticos vinhedos, provamos muitos vinhos, fizemos inúmeras anotações e chegamos a algumas conclusões:

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O Chile é um vasto repertório de micro regiões

Em linhas gerais é isso mesmo. Quase todas as vinícolas de prestígio estão investindo em pesquisas, principalmente para achar o melhor terreno para uma determinada variedade. O Chile possui uma vasta quantidade de micro climas e de micro terrenos, toda essa diversidade permite um leque muito amplo de possibilidades. Um Syrah do Vale de San Antonio (região bem fresca e próxima ao mar) é bem diferente de um Syrah de Colchagua (mais quente e com menos influência marítima). Parece que o Chile caminha para um firme autoconhecimento de suas zonas vinícolas. Maipo, Casablanca, San Antonio, Colchagua são nomes de regiões, porém já podem ser associados a um estilo de vinho. O melhor Carménère de Colchagua possui uma paleta aromática de frutas negras, chocolate e quase nada de herbáceo, por sua vez o Carménère no Vale de Maipo pode ter um toque mais verde.

A Sauvignon Blanc parece viver um profundo caso de amor com o Valle de Casablanca, porém San Antonio, que é ainda mais próxima ao mar, não fica nada atrás. Cabernet Sauvignon e Merlot tem para todos os gostos, afinal são plantadas em quase todas as regiões. Para a Syrah existem pelo menos duas vertentes bem interessantes, a voluptuosidade de Colchagua contra os especiados vinhos de Casablanca e San Antonio. O grande desafio parece ser a Carménère, uva difícil e exigente que precisa de muita maturação. Sem sombra de dúvidas, os melhores Carménère que provamos provinham de Colchagua.

Os vinhos chilenos, pelo menos aqueles de gama mais elevada, possuem cada vez mais uma personalidade bem definida. Hoje, percebemos que o chilenos possuem uma preocupação muito maior com a qualidade do seu produto. Essa distinção é o grande trunfo do Chile e as melhores vinícolas sabem disso.

O vinho argentino e seu alter ego, a Malbec

É difícil falar de vinho argentino sem falar em Malbec, embora outras variedades já figurem em papel de destaque. A questão é simples, a Malbec é tão bem adaptada aos terrenos argentinos que poucos investem em outras uvas. Segundo palavras de alguns chilenos “a Malbec parece que foi criada para a Argentina”. Falando em Malbec, vale dizer que essa uva tem sofrido um certo preconceito em rodas de connoiseurs. Considerada uva de apelo fácil, inadequada para produzir vinhos refinados, é facilmente subestimada. Isso pode ser verdade para os vinhos mais simples, mas não tem o menor traço de verdade quando analisamos os rótulos das linhas premium. Provamos verdadeiras preciosidades de Malbec, todos a partir de vinhas velhas com rendimentos baixíssimos. Nessas condições a Malbec apresenta uma profundidade incrível, cheia de caráter e com taninos inacreditáveis.

Mendoza não é só Malbec, provamos ótimos vinhos de Cabernet, Tempranillo e Bonarda. Chamou a nossa atenção a qualidade de muitos Torrontés, cada dia melhores e mais refinados.

Na Argentina, ao contrário do Chile, o clima e o terreno variam bem menos, sendo assim, um dos principais fatores de diferenciação é a altitude. A amplitude térmica de diferentes áreas produz vinhos com características diferentes. Em Lunlunta (zona mais baixa e de menor amplitude) um Malbec pode ter aromas de framboesa e notas florais intensas, já em La Consulta (zona mais alta e de maior amplitude) a mesma Malbec é mais sutil, com frutas negras e notas minerais. Essa diferença é a chave do terroir de Mendoza, bem aproveitada rende vinhos de grande personalidade e distinção.

Entre Chile e Argentina

É uma tarefa difícil dizer quem produz os melhores vinhos, até porque não vejo muito sentido nessa comparação. Em primeiro lugar é preciso estabelecer as diferenças, haja vista que as condições de produção (clima e terreno) são distintas. O Chile possui um clima mediterrâneo, com influência marítima e considerável variação de terreno em pequenas áreas. Por sua vez, a Argentina é um caso a parte, não possui influência do mar, o clima é quase desértico e não existem muitas variações em pequenas áreas. Mundos completamente diferentes e, obviamente, com vinhos de estilos variados. A grosso modo, considero os vinhos de elevado valor excelentes em ambos os países. Descendo um pouco de patamar, na faixa intermediária de preço, talvez o Chile consiga oferecer uma maior variedade de estilos, mesmo que não sejam melhores (nem piores) que os argentinos. Na faixa de preço mais baixa, os vinhos argentinos conseguem um padrão de qualidade ligeiramente superior. Na dúvida fique com o melhor dos dois países.

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Este post faz parte da série On the Road 2009. Clique aqui |+| para ler mais artigos sobre o Chile e a Argentina. Clique aqui |+| para ler sobre outras viagens dos editores.

  • CÍCERO ROMÃO DE ARAÚJO

    solicito saber se os vinhos Brasileiros conpete com o do chile e argentino. em sabor e qualidade.!

  • jarice

    Nossa como é lindo !!!!!!! ah! quero morar ai! amei! bjus a todos.