Nederburg mostra a força do vinho sul-africano

É curioso observar como certos acontecimentos podem rotular negativamente um país durante décadas. A África do Sul sabe muito bem o que é isso. A péssima imagem perante o mundo durante o Apartheid – regime de segregação racial que vigorou até 1990 – impediu que o país mostrasse suas virtudes. Tudo ficou soterrado no terreno das disputas raciais; uma minoria branca dominando e impondo restrições a uma maioria de negros. Já imaginou o tamanho do problema? Quem não ouviu falar de Nelson Mandela? Pois é, o Prêmio Nobel da Paz de 1993 conseguiu combater e expor ao mundo as injustiças e a vergonha que era o regime repressor do Apartheid. Mas deixando de lado as rusgas políticas e sociais, o legado britânico, francês e holandês também deixou coisas boas. O vinho foi uma delas. O setor vitivinícola renasceu na África do Sul pós Apartheid, e seus vinhos voltaram ao mercado internacional, depois de anos de sanções ao comércio com o país. Tudo bem que o vinho, assim como o Críquete e o Rugby, foram implantados para preservar os nobres hábitos da aristocracia e abastecer os mercados externos (principalmente o Reino Unido). Porém, não se enganem, ainda hoje o filé mignon está no ouro. E, em mais algumas minas de urânio, ferro, cobre, diamante…

O país que sediará a Copa do Mundo de 2010 está investindo pesado para ganhar projeção, e principalmente, conquistar novos mercados. Há algumas semanas estivemos num evento de promoção da vinícola Nederburg, pertencente a gigante companhia sul-africana Distell. Originada em 2000, a Distell nasceu a partir de uma fusão de duas tradicionais empresas, a Stellenbosch Farmers’ Winery (SFW) e da Distillers Corporation. Para resumir, basta dizer que a Distell é dona da marca do licor Amarula, aquele do rótulo do elefante, que para cada garrafa comercializada deve existir outras cinco imitações, inspirações, falsificações etc. Com uma tradição vitivinícola de mais de dois séculos, a Nederburg está localizada no distrito de Paarl (Pérola), a 60Km da Cidade do Cabo. Em comparação com outras regiões vitivinícolas da Península do Cabo como Stellenbosch, Constantia e Cape Point, Paarl é mais quente e está mais distante do mar. Porém, ainda assim sofre uma influência marítima, tanto do Atlântico quanto do Índico.

Razvan Macici - Enólogo da NederburgO enólogo responsável pelos vinhos da Nederburg, o romeno Razvan Macici, esteve no wine dinner realizado em Curitiba para falar sobre o seu trabalho. Razvan foi até a África do Sul para trabalhar temporariamente numa vinícola também pertencente ao grupo Distell; depois acabou recebendo o convite para cuidar dos vinhos da Nederburg. Daí foi uma passo para formar uma família e estabelecer suas raízes na África do Sul. Para atingir mercado globais, os vinhos sob a tutela de Macici possuem uma pegada típica do vinho moderno: concentração, potência e um carvalho mais evidente. Por outro lado, uma vantagem da Nederburg pertencer ao grupo Distell é que os vinhos conseguem chegar com preços bem competitivos no mercado brasileiro. De modo geral, sempre achei os vinhos sul-africanos muito caros, apesar de existirem excelentes rótulos. Exceções a parte, no que tange a relação qualidade/preço, a África do Sul ainda sai em desvantagem.

Vejam as fotos do evento (Flickr)

Nederburg Chadonnay 2006 – R$40

Para mim esse vinho segue a linha dos Chardonnay californianos: encorpados e com madeira presente. Na confecção desse Chardonnay, 50% da uvas fermentaram em tanques de aço inox e 50% realizou fermentação malolática em barricas de carvalho. Aroma de boa intensidade, ressaltando as aromas de baunilha e um tostado emprestado da madeira do carvalho. Algumas notas de damasco, mel e manteiga. Na boca é encorpado, cremoso, boa acidez e generosa untuosidade. Final de boca bem gostoso, prolongado e alcoólico.

Nederburg Cabernet Sauvignon-Shiraz 2006 – R$34,40

Esse corte surpreendeu apresentando um bom conjunto. Vinho honesto e equilibrado, com taninos de boa qualidade e nariz intenso.

Nederburg Private Bin Shiraz 2003 – R$75,90

A Shiraz tem apresentado excelentes resultados na África do Sul, por isso muitos produtores fazem vinho de produção limitada com essa uva, esse é o caso do Private Bin da Nederburg. Vinho de produção baixa, feito a partir de vinhas velhas sem condução (videiras antigas crescem como arbustos), com maturação de 12 meses em carvalho francês e americano. O vinho é potente, encorpado e surpreendentemente jovem. Aroma sedutor de frutas negras maduras, muita especiaria e um indefectível toque de borracha. Os taninos ainda incomodam um pouco, porém é uma excelente pedida para quem gosta de vinho bombado.

Nederburg Private Bin Cabernet Sauvignon 2005 – R$75,90

Fiquei surpreso com o estilo desse Cabernet Sauvignon, sem dúvida conseguiu se destacar frente aos outros rótulos. É um ótimo Cabernet, com equilíbrio e taninos de qualidade superior. Amadureceu 24 meses em barricas de carvalho francês e romeno. O nariz tem boa intensidade e complexidade, lembrando cassis, tabaco e notas de eucalipto.

Nederburg Pinotage 2005 – R$34,40

Não poderia faltar o vinho com a cepa nacional da Africa do Sul, a Pinotage, um cruzamento desenvolvido no início do século XX a partir da Pinot Noir e da Cinsaut. A África do Sul criou até uma associação, a Pinotage Association, com o intuito de desenvolver pesquisas, estabelecer melhores práticas e promover a uva Pinotage. O Nederburg Pinotage mostrou-se bem acessível e fácil de beber. Nesse rótulo o amadurecimento de 12 meses em barricas de carvalho francês e americano não chega sobressair à fruta. Bouquet de boa intensidade lembrando frutas vermelhas frescas como morango e amoras, mesclado a um toque sutilmente adocicado e lácteo. Leve na boca, com taninos macios, e um final não muito longo.

Confira a cobertura online feita via Twitter

Os vinhos da Nederburg são importados pela Porto a Porto / Casa Flora

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  • Zezao

    Esta de parabens pelo site…..abesorvi muitos conhecimentos neste site….

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  • http://www.qvinho.com.br Jackson

    Ok, valeu a correção Marcelo.

  • Marcelo Maia

    Olá, apenas uma observação a respeito do Nederburg Private Bin Shiraz 2003, ele é maturado durante 24 meses em barricas de carvalho francês, americano e húngaro, e nao apenas 12 meses como mencionado.
    Infos extraídas do site da Nederburg e do própio rótulo da garrafa, a qual se encontra em minhas mãos neste momento.

    Att, Marcelo Maia.

  • jose carlos batista jr

    OI JACK! SE FOSSEMOS COMPARAR OS PREÇOS DESSES VINHOS SUL AFRICANOS, COM OS PRODUZIDOS EM CÔTE RÕTIE,SERIAM UMAS VERDADEIRAS BARGANHAS.

    UM ABRAÇO!

    CARLOS

  • http://www.qvinho.com.br Jackson

    Olá Thaís, muito obrigado pelos elogios e espero, sinceramente, que o meu artigo possa trazer alguns insights para o seu colega. Como você já percebeu o vinho também pode ser aliado no incremento do turismo. A Copa do Mundo de 2010 proporcionará uma exposição absurda para a África do Sul, e o setor vitivinícola vai ganhar com isso.

    José Carlos, a Nederburg realmente tem vinhos com uma ótima relação qualidade/preço, espero que continue assim. Essa fórmula de misturar uvas Syrah com Vignier, eles copiaram da França, mais especificamente dos Côte Rôtie.

  • jose carlos batista jr

    OI JACK,TUDO BEM?
    TENHO OBSERVADO EM ALGUMAS DEGUSTAÇÕES QUE FIZ DA AFRICA DO SUL, NO QUAL VENHO NOTANDO CADA VEZ MAIS A QUALIDADE DESSES VINHOS, ALÉM DE TEREM UMA ÓTIMA RELAÇÃO CUSTO X BENEFICIO.UMAS DESSAS RECEM DESCOBERTAS FOI OS VINHOS DA NEDERBURG.OUTRO FATO DIGNO DE NOSSA ATENÇÃO QUE TENHO OBSERVADO É O CRESCENTE NUMERO DE VINHOS DA AFRICA DO SUL, COM CORTES DE UVAS TINTAS E BRANCAS.UM DELES TAMBEM DA NEDERBURG É O SHIRAZ/VIOGNIER,ASSIM COMO O THE WOLFTRAP BLEND,SHIRAZ/CINSAULT/MOUVÈDRE/VIOGNIER(MISTRAL).SÃO VINHOS FACEIS DE BEBER E GOSTOSOS DE COMPRAR.NADA É CLARO COMPARADO AOS DEMAIS VINHOS DA VINICOLAS, MAS QUE CONSEGUEM AGRADAR. UM ABRAÇO !

  • Thaís de Oliveira

    Olá Jackson, tudo bem?
    Mais uma vez, parabéns pelo artigo.
    Os artigos do QVinho sempre trazem um pouco mais de conhecimento para mim e acredito que para todos que sempre o visitam, mas este artigo parece que foi escrito em um dia bastante propício para a ocasião. Hoje na faculdade tivemos apresentações de trabalhos que falavam sobre a globalização e tendências de países visitados com bastante freqüência e de interesse de grande parte dos turistas, e de países que começaram a se sobressair no mercado turístico oferecendo algo diferente, como Austrália com os film commisions, a Índia com lugares exóticos e não explorados, e a Africa que é o tema que um colega de classe irá falar amanhã. Eu indicarei o blog para ele, pois é interessante saber que um país que já passou por tudo que passou, tenha interesse em investir tanto com a vitivinicultura quanto com o turismo. Afinal ao sediar a Copa de 2010, seguramente antes e depois a repercussão fará com que este país faça parte da lista de destinos a ser conhecido pelos turistas.
    Um abraço.