Achaval Ferrer

Atualmente ninguém questiona o grande sucesso dos vinhos argentinos, que sem sombra de dúvidas, ainda é um fenômeno recente. Talvez por isso existam muitas incógnitas em relação a real qualidade desses vinhos, mais precisamente no que toca a diversidade de estilos, um fator derivado do terroir. A grosso modo todas as zonas vinícolas argentinas são parecidas, na sua regularidade desértica e sem influências oceânicas, uma característica que deixa todos os vinhos muito uniformes, independentemente de variedade de uva e produtor. Aqui entra a Achaval Ferrer, uma das primeiras bodegas a desafiar os connoisseurs, produzindo vinhos com uvas Malbec de um único vinhedo. Atualmente são três “Grand Crus”: o Finca Altamira, situado em La Consulta a 1.050m; o Finca Bella Vista, vinhedo em Perdriel a 980m que circunda a bodega; e o mais recente, o Finca Mirador, localizado em Medrano a 700m de altitude.

Finca Bella Vista onde está localizada a bodega.

Finca Bella Vista onde está localizada a bodega.

Não é exagero chamar de “Grand Cru”, afinal custam tanto quanto muitos Bordeaux de renome. Outro indício da ousadia da Achaval Ferrer, os rótulos desses vinhos ostentam os nomes dos vinhedos, assim como muitos vinhos europeus, e não das variedades de uva, como é comum no Novo Mundo. Parece que a Achaval Ferrer vem conseguindo sucesso na sua cruzada, provando que os vinhos Argentinos podem se beneficiar das sutilezas do terroir. Em nossa prova pudemos perceber que os vinhos das três Fincas são diferentes – obviamente apresentam as características comuns da Malbec – contudo conseguem manter uma identidade própria. Essa diferença só se explica pelo terroir, afinal eles são feitos da mesma maneira. Ponto para a Achaval Ferrer! A questão mais discutível ainda são os preços elevados desses rótulos. O Malbec de entrada chega ao Brasil custando R$97 e os vinhos das três Fincas passam de R$440!

Achaval Ferrer - Finca Bella Vista

Achaval Ferrer – Finca Bella Vista

Fundada em 1998, a Achaval Ferrer é uma bodega pequena, com pouco mais de dez sócios. Nessa operação cada um dos sócio contribui em alguma área da vinícola, porém, um nome se destaca: Roberto Cipresso, enólogo italiano, nascido em Bassano Del Grappa (Veneto), radicado na Toscana, onde produz Brunello di Montalcino na Fattoria La Fiorita e famoso pelo sucesso do seu trabalho na Argentina. Cipresso é um winemaker versátil, focado em extrair a melhor uva que um determinado terreno pode produzir. É conhecido pelo trabalho meticuloso de redução de produtividade, além de especificar barricas diretamente nas melhores tanoarias francesas.

Cubas de concreto-epoxi para a fermentação

Cubas de concreto-epoxi para a fermentação

Na degustação que realizamos na Bodega, além dos rótulos já conhecidos, pudemos provar um Malbec Dolce, mais um feliz “teste” de Cipresso, produzido (pelo menos por enquanto) para os sócios. O vinho contém aproximadamente 126g/ açúcar residual, e é muito similar ao passito da Itália; seu aroma lembra azeitonas pretas e ervas como tomilho. Na boca não é enjoado, seu final é frutado e levemente tostado. Excelente! Amante da boa mesa, Roberto Cipresso trazia azeite de oliva e uma boa pasta italiana quando vinha para a Argentina. Segundo a sua modesta opinião, os argentinos não produziam um azeite e uma massa com a qualidade que ele estava acostumado. Brincadeiras a parte, os azeites produzidos a partir de velhas oliveiras também são ótimos, e o melhor, são vendidos na bodega e em redes como a Winery. O azeite da variedade Arauco com seu toque picante é fantástico!

Os vinhos da Achaval Ferrer

Os vinhos da Achaval Ferrer

Quimera 2007 (R$148)

A busca pelo vinho ideal de Cipresso e seus sócios é representada pelo rótulo Quimera. Se eles chegaram ao vinho ideal eu não sei, mas que o Quimera é um baita de um vinho, isso é! Esse rótulo é o resultado de um corte – geralmente com percentuais variáveis a cada ano – de 38% Malbec (Medrano e Luján de Cuyo), 24% de Merlot (Tupungato), 24% de Cabernet Sauvignon de vinhas velhas (Medrano e Tupungato) e 14% de Cabernet Franc (Tupungato). Cada um dos vinhos é fermentado em tanques pequenos e somente depois, durante a fermentação malolática, eles são misturados e passam 12 meses em barricas de carvalho francês (40% novas e 60% com mais de um ano de uso). Aqui no QVinho já tivemos a oportunidade de degustar as safras 2003 e 2002, e pudemos constatar os bons resultados desse rótulo. O Quimera 2007 não é diferente, bouquet classudo, um pouco mais fechado que o 2008, mas com boa presença de frutas maduras; notas de uva passa, cerejas e aromas especiados. Ótima estrutura na boca, talvez evolua com mais 2 anos na garrafa.

* A previsão é que o vinho chegue ao mercado brasileiro até novembro/09.

Quimera 2008 (R$148)

Na safra de 2008, pela primeira vez, o Quimera passou por uma fermentação a frio, com todas as uvas vinificadas juntas, e ganhou 3% de Petit Verdot no blend. Em comparação com o 2007, o Quimera 2008 estava com um bouquet mais intenso, e apesar de jovem, seus taninos já estavam acessíveis. O nariz remete a frutas negras maduras como ameixa, amora e cereja, tudo muito fresco, sem exageros de doçura. Carvalho bem dosado e um equilíbrio entre potência e classe. Na boca tem uma estrutura fantástica e taninos de excelente qualidade. Final frutado – algo que lembra ameixas – delicioso e prolongado.

Finca Mirador 2007

Localizada na região de Medrano, em La Consulta, a Finca Mirador está a 700m do nível do mar, numa área um pouco mais quente que outras de Mendoza. Essa pequena propriedade de aproximadamente 6 ha possui um único vinhedo de Malbec plantado em 1921. Com uma densidade de 6.500 plantas/ha e um redimento de 14 hectolitros/ha (algo como 3 plantas para produzir uma garrafa) dá para imaginar o resultado. O bouquet é uma explosão de frutuosidade. Ameixas maduras, um intenso floral (típico dos grandes Malbec), mesclado com algo cítrico que chega a lembrar um café Yergacheffe. Um trabalho impecável de amadurecimento no carvalho novo francês (15 meses), que em nenhum momento encobre a expressão da fruta. Encorpado e denso na boca, seus taninos ainda jovens arranham um pouco. Um vinho com potencial de guarda, o Mirador 2007 ficará ainda melhor daqui há uns 4 anos.

Finca Mirador 2008

Neste ano, devido ao excesso de chuvas no período da colheita, muitos produtores tiveram que recorrer à pesticidas e, em alguns casos, a queda na qualidade das uvas foi inevitável. Na Achaval a colheita aconteceu somente 12 dias depois da data prevista. E, o mais incrível, é que mesmo em um ano complicado como 2008, um vinho pode ser tão surpreendente e encantador. O Mirador 2008 revelou um aroma excepcional, com uma fruta ainda mais nítida e fresca que o 2007. Na boca as diferenças entre os dois ficam ainda maiores. Embora muito jovem, o 2008 mostrou-se surpreendentemente macio, com taninos muito finos e já aveludados. Um fim de boca rico e longo.

Finca Bella Vista 2008

Junto as instalações da bodega, em Perdriel, Luján de Cuyo, a uma altitude de 980m, está localizada a Finca Bella Vista. Os vinhedos que ocupam uma área de 5 ha tem quase 100 anos, e são bem adensados (6.500 plantas/ha). O Bella Vista 2008 ainda nem foi engarrafado – seu repouso deve ser de pelo menos 15 meses em barricas novas de carvalho francês – por isso fizemos uma prova direto da barrica. Naturalmente, ao primeiro contato, nota-se a presença da madeira. Aos poucos os aromas se revelam mostrando excelente complexidade; ainda que menos intenso que os vinhos anteriores. Em destaque notas de cacau, ameixas maduras e violetas. Na boca é um vinho de estrutura muscular com taninos de excelente qualidade. Certamente será um vinho com ótimo potencial de guarda.

Finca Altamira 2007

Outro grand cru mendocino, a Finca Altamira localizada em La Consulta (1.050m) é sinônimo de grandes vinhos. Esse vinhedo projetou mundialmente o nome da Achaval Ferrer graças aos 95 pontos obtidos pelo Finca Altamira em revistas especializadas com a Wine Spectator. Assim como as outras fincas essa área de 5 ha contém vinhedos de Malbec com mais de 80 anos. A pequena propriedade e o baixo rendimento das vinhas produzem apenas 8.736 garrafas, o que contribui para o preço ir para as alturas. Nariz elegante e fino, exprime notas complexas. Uma combinação ótima entre a frutas como mirtilo e amora (com excelente frescor) e notas minerais lembrando grafite. Na boca percebemos o equilíbrio entre a estrutura poderosa, acidez e álcool.

Finca Altamira 2008

Novamente minha impressão desse vinho é que foi ainda melhor que o 2007. Nariz mais intenso e persistente. Se a princípio ele pode parecer menos exuberante que os seus irmãos, logo se destaca pelo seu bouquet complexo, mesclando um toque mineral com uma fruta viva e madura. Ao longo da degustação mostrou-se incrivelmente sedutor exalando também aromas de couro, cacau e violeta. Delicioso na boca com um fruta levemente acidulada e um final prolongado.

Importação: Expand

Visitas:

A Achaval Ferrer fica na Calle Cobos, 2601, Pedriel, Lujan de Cuyo. Para chegar lá é fácil, veja o nosso mapa:

Localização da Achaval Ferrer

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Este post faz parte da série On the Road 2009. Clique aqui |+| para ler mais artigos sobre o Chile e a Argentina. Clique aqui |+| para ler sobre outras viagens dos editores.

  • paulo roberto vieira

    Caro Jackson, estou indo à Argentina em Agosto próximo e gostaria de sua opinião sobre o que trazer de bom na “bagagem” a um preço justo. Grato e um grande abraço!

  • Felipe

    Jackson,
    informaram-me na própria expand que eles pararam de importar vinhos do produtor Achaval Ferrer!!! A expand já perdeu a maioria dos gdes produtores de seu catálogo! Uma pena, pois sempre comprava vinhos deste produtor.
    Vc sabe se alguma outra importadora passará a importar o achaval ferrer?!?!
    Parabéns pelo blog, sempre muito elucidativo.
    Gde abraço.

  • Pingback: Bodega Catena Zapata

  • Leonardo

    Caro Jackson,
    Parabéns pela matéria! Sempre tive uma admiração muito grande pelos vinhos da Achaval Ferrer sou fã do Quimera, sem dúvidda o melhor na relação qualidade x preço da Bodega.
    Aliás essa Bodega ainda é pouco conhecida no mercado brasileiro.
    Pena que o marketing americano venha inflacionado os preços desses vinhos. Abraço,
    Leonardo

  • http://www.qvinho.com.br Jackson

    Olá Elmo, tudo bem? Curta bem esses vinhos, não é todo mundo que pode usufruir das vantagens dos preços US.

    Até mesmo nos Estados Unidos os vinhos da Achaval Ferrer são caros, os Finca Mirador, Altamira, Bella Vista custam por volta de US$115. Ou seja, eles estão na mesma faixa que excelentes Bordeaux, como você mesmo citou, o Leoville Las Cases.

    Certamente eles são excelentes vinhos, que recomendo você provar pelo menos uma vez (ou se você estiver com dinheiro sobrando até mais vezes), porém ao ultrapassar a cifra de R$440 já não existe mais nada que racionalmente justifique a compra. A verdade é que até R$250 encontramos Malbecs excepcionais (muitos deles que comentamos aqui no Qvinho). Acho que o Quimera apresenta uma proposta bacana, e já um vinho mais acessível (R$148).

    Em primeiro lugar cada um desses rótulos não chega a produzir 10 mil garrafas/safra; segundo, as avaliações da crítica sempre são superlativas (e de fato elas são merecidas); terceiro e último fator, existe um mercado consumidor sedento para comprar vinhos assim (US, China, Rússia, Índia etc). Sendo assim, é natural que esses vinhos ícones cheguem custando caro. Se pegarmos outras vinícolas sulamericanas veremos a mesma coisa (Clos Apalta, Almaviva e Seña).

    Kaiser Soze, obrigado pelas suas considerações sempre muito pertinentes direto da terra do Tio Sam. Por $30 o Quimera está excelente!

  • Kaiser Soze

    Obrigado ao Qvinho por nos colocar bem proximo a essas maravilhas mesmo que os precos no Brasil sejam proibitivos….Quimera na terra to Tio Sam = US$ 30

  • ELMO

    Jackson, ótimas fotos, especialmente. Nos encontramos no Tour Mistral, falamos do Leoville Las Cases, já me animei e comprei alguns Bordeaux mais sérios… de qualquer modo, pergunto: os Finca Mirador, Altamira, Bella Vista, valem os mais de R$ 400,00, mesmo se falarmos em preços no Brasil? Abraço