Bodega O.Fournier

Ao falarmos de vinho argentino a primeira coisa que vem a cabeça é a uva Malbec. Não é exagero afirmar que está variedade ocupa com privilégio a preferência de muitos produtores, embora alguns dediquem especial atenção a outras uvas. Esse é o caso da O.Fournier, uma moderníssima bodega que nasceu com o propósito de elaborar o melhor Tempranillo da Argentina. José Manuel Ortega Fournier é o visionário por trás desse projeto, um ex-banqueiro espanhol que ficou fascinado ao encontrar um antigo vinhedo de Tempranillo na região de La Consulta. Não teve dúvidas, tratou logo de comprar aquelas terras e construiu ali uma nova bodega. Fica fácil entender as pretensões da O.Fournier quando analisamos as áreas plantadas: 50 ha de Tempranillo, 15 ha de Merlot, 14,8 ha de Cabernet Sauvignon, 14,4  ha de Malbec, 2,6 ha de Syrah e 1ha de Sauvignon Blanc. O sangue espanhol predomina nessa bodega, afinal dos 98 ha de área própria quase metade é de vinhedos de Tempranillo. Vale lembrar que a O.Fournier é um grupo vinícola, com operação na Espanha (Ribera del Duero), Chile (Maule/Leyda) e Argentina (Mendoza). Já falamos sobre isso em outro post.

Os vinhos da O.Fournier são modernos, com muita fruta, concentração e, obviamente, presença marcante da madeira. A degustação que fizemos na bodega foi fantástica, afinal tivemos a oportunidade de degustar (e comparar) toda a linha de vinhos, inclusive com o top espanhol Alfa Spiga e os exóticos Centauri do Chile. O estilo do produtor é marcante, independente da origem do vinho, embora a identidade do terroir fique sempre presente. A grande surpresa foram os chilenos; nos tintos uma presença considerável da uva Carignan (outra variedade bem difundida na Espanha) em cortes com Cabernet Sauvignon e Merlot; já o ótimo Centauri branco mostra a força da Sauvignon Blanc do Vale de San Antonio. A linha Urban, os vinhos de entrada da O.Fournier, são sempre muito bem feitos e agradáveis; possuem ótima relação qualidade/preço. As linhas intermediárias – BCrux, Centauri e Spiga – oferecem o melhor do estilo dessa bodega, porém por um preço muito competitivo. Os tops Alfa Crux e Alfa Spiga  são louváveis naquilo que se propõem, muita fruta e concentração, verdadeiros blockbusters do mundo do vinho. Curiosamente, o vinho mais caro da O.Fournier é um 100% Syrah produzido em La Consulta (chamado apenas de O.Fournier Syrah), de produção muito limitada, tão restrita que não pudemos degustá-lo.

O.Fournier é um dos mais impressionantes projetos vinícolas da atualidade, com pés firmes em três países e uma linha muito completa de vinhos. É bom ficar de olho, pois ainda vão crescer, principalmente no Chile. Aqui é preciso abrir um parêntese, afinal a operação no Chile está em franca expansão, mesmo assim já dá para ter uma noção do que poderemos esperar para os próximos anos.  A O.Fournier adquiriu uma área de 35ha na região de San Antonio onde cultiva Sauvignon Blanc e Pinot Noir;  arrendou mais de 140 ha no Vale do Maule, com grandes parcelas de vinhedos velhos (com mais de 80 anos) de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Carignan. A lógica da O.Fournier é fugir das áreas quentes, por isso a aposta em regiões frias como San Antonio e Maule, propicias para a elaboração de vinhos mais equilibrados e frescos. Durante nosso tour pela bodega tivemos a companhia da enóloga Julia Halupczok . Enquanto conversamos sobre a bodega e fazíamos a degustação – na bela sala cercada de vidro – acompanhamos o descarregamento das primeiras caixas de uvas tintas.

Urban Uco Tempranillo 2008 (R$38)

Já apresentamos aqui no QVinho outros rótulos da linha Urban, como o blend 2005; sempre vinhos confiáveis, de boa relação qualidade preço. O Urban Uco Tempranillo é gostoso, com boa concentração e fruta intensa. Na boca tem equilíbrio, com final agradável e de boa persistência.

Urban Ribera 2005 (R$71)

Linha básica produzida em Ribera del Duero (Espanha), que prima pelo acabamento fino. Produzido com 100% de tinta del pais (nome regional da tempranillo) com maturação de 4 meses em barricas francesas. Cor rubi com ligeira transparência. Nariz intenso, frutas vermelhas e agradáveis notas tostadas. Na boca é equilibrado, fácil de beber e com taninos macios. Não tem a mesma intensidade de fruta que o Urban Uco, embora seja mais fresco.

Urban Maule Blend 2008 (R$38)

A contrapartida chilena para os bem sucedidos Urban Uco e Urban Ribera. Um corte merlot (45%), carignan (25%), cabernet franc (20%) e cabernet sauvignon (10%), proveniente da região do Maule. Menos fruta madura que os outros, em compensação é mais sutil e estruturado. Aroma agradável, um pouco diferente da maioria dos chilenos na mesma faixa de preço, com notas de frutas negras, cacau e café torrado. Na boca mostra-se vigoroso, com taninos ainda jovens. Um ótimo complemento a linha Urban.

B Crux Sauvignon Blanc 2008 (R$80)

Na Argentina não é fácil fazer brancos realmente bons, por isso respeito aqueles que dedicam tempo e investimento nessa empreitada. Talvez esse seja o vinhos mais surpreendente da O.Fournier, afinal é um raro exemplo de vinho decente com essa uva. Enquanto a maioria das bodegas dedicam seu esforços a Chardonnay, esse Sauvignon Blanc prova que ainda é possível fazer brancos frescos e agradáveis em terras mendocinas. No nariz é frutado, com notas tropicais e minerais, porém sem os típicos traços herbáceos da casta. Ótimo na boca, equilibrado e longo. O B Crux não é tão intenso e volumoso quanto o Centauri, mas tem o seu charme. Foge da mesmice de muitos brancos argentinos, agora por R$80, ou menos, existem brancos melhores no mercado.

Centauri Sauvignon Blanc 2008 (R$70)

Se o B Crux se diferencia de outros brancos de Mendoza, o Centauri por sua vez é o melhor estilo da Sauvignon Blanc no Chile. Esse vinho não nega a pátria, o ótimo terroir de San Antonio confere intensidade de aromas e corpo generoso. Abundância de frutas cítricas combinadas com notas de ervas e minerais compõem a paleta aromática. Encorpado e volumoso, mesmo assim com ótimo frescor. Final de boca longo e agradável.

Spiga 2004 (R$144)

O espanhol Spiga é um belo exemplar de tempranillo, feliz no seu casamento com a madeira. Fermentado em tanques de aço inóx, com posterior maturação de 12 meses em barricas (80% de carvalho francês e 20% americano) e engarrafado sem filtragem. Frutas negras dominam no nariz, reforçadas por especiarias, couro e tabaco. Bem estruturado, apesar de ser mais leve que o B Crux e o Alfa Crux, exibiu ótimos taninos e certa acidez. Delicioso agora, mas ainda pode evoluir bem na garrafa por mais alguns anos.

Centauri Blend 2007

O Centauri é atualmente o tinto mais bem elaborado pela O.Fournier no Chile, um corte de Cabernet Sauvignon (40%), Carignan (30%) e Merlot (30%) que passou 12 meses em barricas de carvalho francês. Um vinho intenso e com boa complexidade, tipicamente chileno, embora a Carignan consiga imprimir um resultado ligeiramente diferente. Bom aroma, com certa complexidade, lembrando frutas negras maduras, especiarias e mineral. Na boca é encorpado, com taninos ainda firmes, certamente precisa de mais tempo na garrafa. Um tinto jovem e vigoroso, merece um lugar na adega.

BCrux Blend 2005 (R$80)

A safra 2005 do BCrux possui um corte ligeiramente diferente do BCrux 2003 que já havíamos degustados, com mais Malbec e menos Syrah. O resultado não poderia ser outro: mais fruta madura no pacote de especiarias e chocolate que os vinhos da O.Fournier costumam oferecer. O BCrux 2005 é feito de Tempranillo (60%), Malbec (35%) e Syrah (5%), depois descansa em barricas francesas (80%) e americanas (20%) de primeiro (50%) e segundo uso (50%). Um vinho potente e intenso, com ameixas pretas e notas de cacau. Encorpado, com taninos de boa qualidade. O BCrux é um blockbuster, feito para agradar aos apreciadores de vinhos potentes e concentrados.

Alfa Crux Blend 2003 (R$150)

O meu vinho preferido da O.Fournier, sempre muito bem feito e atraente, oferece uma riqueza de aromas impressionante. Um corte de Tempranillo (50%), Malbec (40%) e Merlot (10%) com estágio de 17 meses em barricas novas de carvalho francês (80%) e americano (20%). Se o BCrux é um blockbuster, então o Alfa Crux é um blockbuster feito para ganhar o Oscar, o melhor do estilo voluptuoso do Novo Mundo. Nariz intenso e com boa complexidade, muita fruta madura, especiarias, cacau e notas tostadas. Encorpado e equilíbrado, ainda exibindo um vigor de juventude. Está ótimo agora, mas pode surpreender por mais alguns anos.

Alfa Crux Malbec 2006 (R$150)

Assim como toda bodega argentina, a O.Fournier não poderia deixar de fazer um 100% Malbec top de linha. Esse vinho exibe toda a graciosidade da uva Malbec, cheio de fruta, porém concentrado e vigoroso.  O Alfa Crux foi um dos Malbecs mais potentes que provamos no On the Road 2009, muito estruturado e jovem. Aroma de frutas maduras, um pouco fechado, com muitas notas do estágio de 20 meses em barricas novas de carvalho. Encorpado e volumoso, com taninos jovens. Precisa de mais tempo, alguns anos na adega farão muito bem a esse vinho.

Alfa Spiga 2004 (R$235)

O Alfa Spiga é um legítimo Ribera del Duero, com todas as virtudes que essa região empresta a sua casta emblemática, a Tempranillo (lá conhecida como Tinta del País). Outro blockbuster, ainda mais intenso e concentrado que o BCrux e o Alfa Crux. Nariz rico e complexo, com frutas em compota, especiarias doces e notas tostadas. Na boca é bem encorpado, porém equilibrado e com ótimos taninos, além de ter acidez o suficiente para harmonizar todo o conjunto. Final agradável e persistente. Só vai melhor nos próximos anos.

Importadora: Vinci

Visitas:
A O.Fournier está localizada na região do Vale de Uco, próxima a Eugenio Bustos e La Consulta, distante 110km de Mendoza. Para chegar lá veja o mapa da região:

Clique para ver o mapa das bodegas em Mendoza

É possível visitar a bodega e fazer degustações que começam em US$10 e podem chegar até US$135. Uma boa ideia é agendar a visita e aproveitar para almoçar no excelente restaurante da O.Fournier, o Urban. É importante considerar o tempo de deslocamento, que pode chegar até 2 horas do centro de Mendoza (só ida).

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Este post faz parte da série On the Road 2009. Clique aqui |+| para ler mais artigos sobre o Chile e a Argentina. Clique aqui |+| para ler sobre outras viagens dos editores.

  • Pingback: Restaurante Urban - O.Fournier

  • jose manuel ortega fournier

    Moito obrigado por su visita y por su profesionalidad. Fue una pena que yo no estuviera ese dia. Las fotos son muy lindas. Nos hace sentirnos muy orgullosos de lo que O. Fournier representa cuando personas con su prestigio escriben estos articulos y comentarios sobre el proyecto, los vinos y el restaurante. Espero poder vernos pronto en Brasil

  • Helio

    Olá! Cheguei até vocês pelo Google e já os adicionei em Meus Favoritos. Parabéns pelo site, graças a ele estou coletando dicas para minha viagem à Mendoza em Outubro próximo. Como terei 3 dias para visitar as vinícolas e alugarei um carro (como sugeriram), gostaria de saber quantas vinícolas consigo visitar e quais as imperdíveis? Obrigado.
    Abraços,

  • http://www.paposdegourmet.com.br César Nicolini

    Que bela vinícola, ótimas fotos. Ainda não degustei os vinhos da O. Fournier e fiquei mais curioso.

    Abraço

  • Renato Urbancic

    Parabéns pelo site. Gostei da reportagem da O.Fournier. Sou enófilo, apaixonado por vinhos, meu consumo anual passa das 120 gfs e participo de vários fóruns de discussão e degustação on line. Moro em Ctba há menos de 02 anos e sou cliente da Zahil e Austral. Abs Renato Urbancic