WofA 2010: Bodega Noemia de Patagonia

A partir do ano 2000, quando adotou uma política de incentivos fiscais para atrair novos investimentos, a província de Neuquén virou a bola da vez do setor vitivinícola argentino. Do zero, foram plantados vinhedos, e a região que até então planejava ser um forte polo de fruticultura, viu surgir seus primeiros empreendimentos vitivinícolas. Por outro lado, a província vizinha de Río Negro, com uma longa história ligada a produção de vinhos, principalmente de produtos de baixa qualidade voltados para o consumo local – a região já chegou a ter 18 mil Ha de vinhedos entre os anos 50 e 80 – também está passando por uma renovação. A passos mais lentos e com empreendimentos menos grandiosos, diga-se de passagem, os vinhos de Río Negro vão ganhando cada dia mais espaço na segmentação dos rótulos de alta qualidade.

Bodega Noemia em Rio Negro

Bodega Noemia em Rio Negro

Um desses novos players que está ajudando a projetar a imagem dos vinhos de Río Negro no cenário internacional é a Bodega Noemia. A história toda nasceu a partir das primeiras viagens que o enólogo dinamarquês Hans Vinding-Diers realizou à Patagônia. Em 1998, Hans chegou em Río Negro como consultor contratado por um grupo de compradores ingleses para supervisionar os trabalhos na Humberto Canale. Não precisa nem dizer que o curioso enólogo foi muito além da proposta que o tinha trazido à Argentina. Depois de percorrer cada vinhedo da região e provar uma série de vinhos bem velhos; Hans enxergou um belo potencial dos vinhos de Río Negro. O passo seguinte foi comprar as uvas de vinhedos velhos para elaborar, em caráter experimental, o seu próprio vinho. As primeiras 1.000 garrafas, da safra 2001, foram produzidas de forma muito precária, num galpão alugado com tanques de fibra de vidro que sequer possuíam controle de temperatura. Quem diria, o Noemia 2001 fez um grande sucesso entre os críticos europeus. Nos EUA, o vinho recebeu 93 pontos da Wines Spectator.

Vinhedos velhos de Malbec

Vinhedos velhos de Malbec

Em sociedade com a Condessa Noemi Marone Cinzano – produtora prestigiado Brunello de Moltalcino Argiano – Hans tratou de adquirir uma propriedade de 8ha. Essa área com 7ha de vinhedos de Malbec pré-filoxera, plantados em 1932, estava abandonada e prestes a ser destruída. Contudo, o projeto só ficou completo em 2003, quando investiram numa nova propriedade localizada no Valle Azul, onde foi construída a pequena bodega e plantados 5ha de novos vinhedos em alto adensamento (5.500 plantas/ha). Como se criou em meio de uma família de tradição vitivinícola, já que seu pai era um renomado jornalista e proprietário de um pequeno Chateau na França, Hans foi um autodidata em em viticultura e enologia. E os resultados que ele colhe hoje como enólogo da Argiano (desde 2003) e da Noemia são a maior prova do sucesso desse aprendizado prático. Na Noemia, Hans Vinding-Diers imprimiu um perfil de elegância aos vinhos. Com menos extração e mais equilibrio, os vinhos da Noemia possuem uma personalidade bem definida, e seguem a proposta de exprimir o máximo do potencial dos vinhedos velhos e do terroir de Río Negro. A Malbec, por exemplo, é mais feminina e não é tão potente como muitos exemplares mendocinos.

Cubas de epóxi para fermentação dos vinhos

Cubas de epóxi para fermentação dos vinhos

Toda a produção da vinícola possui certificação de orgânica e biodinâmica. Mas, isso é só uma consequência do trabalho minucioso que Hans implementou na Noemia. O cuidado está em todos os detalhes, desde o manejo dos vinhedos, até a colheita e vinificação.

“Em Río Negro, por exemplo, em função dos ventos fortes é muito comum os produtores utilizarem barreiras de Alamos para proteger os vinhedos, porém Hans não é muito partidário dessa técnica. Ele prefere que os vinhedos possuam menos defesas, e com isso as videiras sofram com o impacto do clima e produzam menos”.

Nos vinhedos de terceiros e mais distantes da bodega, o transporte das uvas acontece em um caminhão frigorifico, e em seguida são colocadas em uma câmara de baixa temperatura. Outra preferência do enólogo foi pelas cubas de concreto epóxi. Oscar Rubén Ferrari, que durante 20 anos trabalhou no Instituto Nacional de Vitivinicultura, foi convidado por Hans para gerenciar a bodega. Oscar nos recebeu e guiou durante nossa visita a vinícola, juntamente com a portuguesa, Teresa Gaspar que responde pela enologia. Acostumada com os rigorismos da legislação europeia sobre vinhos, Teresa ficou encantada com o potencial da Argentina, e principalmente, com a liberdade criativa para desenvolver os vinhos. Atualmente a Noemia exporta 90% da produção, principalmente para países como: USA, Dinamarca e Brasil. Na Argentina estão estudando uma forma de trabalhar com uma distribuição mais seletiva.

A. Lisa 2009 – R$84

O rótulo de maior produção da bodega (atualmente em 120 mil garrafas), chamado de A.Lisa – uma homenagem a Vó de Hans – é produzido a partir dos vinhedos novos do Valle Azul, além de um pouco de uvas de vinhedos velhos de outros três produtores (contratos de 10 anos). O vinho é predominantemente Malbec (90%), com um toque da Merlot (10%), passa 11 meses em barricas de segundo uso. Sem muita extração, cor rubi com transparência. Nariz perfumado e fresco lembrando framboesas, amoras e notas florais. Cheio de fruta. Na boca tem estrutura mediana, taninos muito macios e uma acidez ótima. Um vinho bem equilibrado e elegante. Fim de boca com ótima persistência, e fácil de beber.

J.Aberto 2009 – R$117

Com uma tiragem de 11 mil garrafas, o J.Alberto é produzido a partir de vinhedos velhos plantados em 1955. Sua composição leva 90% Malbec e 5% Merlot (misturados no vinhedo), e estagia 11 meses em barricas de carvalho francês (70% de barricas de segundo uso, que foram utilizadas no Noemia). Apesar do ano de 2009 ter sido muito difícil, em função da seca (choveu pouquíssimo, cerca de 70mm/ano), o resultado em vinhos como esse é surpreendente. O J. Alberto já encanta ao primeiro contato com seu aroma intenso e complexo. Frutas maduras remetendo a amoras, com fundo mineral, chocolate. Notas muito sutis de baunilha denunciam um belo trabalho com a madeira. Na boca possui corpo médio, com taninos finos e redondos. O final é longo e delicioso.

Bodega Noemia 2008 – R$284

Um puro sangue patagônico, 100% Malbec de vinhedos plantados em 1932, com passagem de 20 meses em carvalho francês. Incrivelmente perfumado! Um vinho de perfil clássico e elegante. Nariz rico em frutas frescas como cerejas, ameixas pretas e amoras, mescladas com notas de violeta e o típico mineral dos Malbec da Patagônia. Presença muito sutil do carvalho. Ainda mais macio e equilibrado, com seus taninos finos e de excelente qualidade. Um final que se prolonga por vários segundos, delicioso! Como a Noemia não tem condições de produzir mais do que 3.500 garrafas, pois o vinhos é obtido a partir de um pequeno vinhedo velho de Malbec de 1,5 Ha, o preço alto é o único fator para controlar a demanda.

“2″ Cabernet Sauvignon – Merlot 2007

Um vinho fantástico, que numa degustação as cegas, poderia passar perfeitamente por um bom Bordeaux. E, não é para menos, é um típico corte bordalês, com 85% de Cabernet Sauvignon e 15% de Merlot, obtido de vinhedos de um parreiral plantado na década de 40 e de outro em 1955. Belíssima cor rubi com transparência. Muito elegante, nada do que você poderia esperar de um Cabernet argentino. Nariz lembrando alcaçuz, mentol, cassis e amoras. Fantástico, muita fruta! Não se percebe notas verdes. Na boca é fino, taninos macios e álcool bem equilibrado no conjunto. Ano passado fizeram 1.200 garrafas (devem chegar apenas 50 garrafas para o Brasil). Não é um vinho que vai sair todos os anos, já que o ciclo de maturação da Cabernet é muito longo (geralmente colhe-se em abril). O problema é que na Patagônia, nesse época, é muito suscetível a geadas, por isso não devemos ver esse rótulo sendo produzido todos os anos.

Importação: Vinci

Ruta Prov 7. Km 12 – Valle Azul
Rio Negro – Argentina
www.bodeganoemia.com

Para visualizar a localização exata consulte o mapa Bodegas Patagônia

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Este post faz parte da série Wines of Argentina 2010 (WofA). Clique aqui |+| para ler mais. Para ler sobre outras viagens dos editores pela Argentina, clique aqui |+|.

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  • Flavia Mussolin

    Gostei da dic, pois estou cada vez mais interessada nos vinhos da Patagônia… Obrigada!

  • http://www.lcharbonnade.com.r Humberto Heidrich

    Estive na \Bodega Noemia tambem, realmente muito bonita mas os vinhos não me surpreederão como outros tantos que ainda não chegam ao Brasil, o Noemia passou mas com muita madeira sobre a fruta, o J.Alberto e O Alisa não me agradarão mas não são ruins de jeito nenhum ,só prefiro amaderamento mais sutil e elegante
    Abraço
    HUmberto

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  • Jandir Passos

    Quais são os teores alcólicos do Noemia e do CS-Me ? Como faço para agendar uma visita ?

  • Aristóteles

    Já provei o A Lisa e o J. Alberto e são muito bons mesmo.