WofA 2010: Humberto Canale

Algumas vinícolas possuem uma ligação tão forte com determinada região vinícola, que é quase impossível falar de uma sem mencionar a outra. É o caso do nome Humberto Canale, um dos pioneiros na colonização da região, e grandes impulsionadores do setor vitivinícola na Patagônia. Já no início do século XX, o engenheiro, filho de emigrantes genoveses Humberto Canale, praticamente montou uma cidade na localidade que é hoje General Roca. Foram criadas carpintarias, ferrarias até mercearias; ou seja, todo tipo de estabelecimento comercial necessário para o nascimento de uma cidade. Foi assim, que no ano de 1909, nasceu a Bodega Humberto Canale. O clima temperado, frio e desértico, com chuvas concentradas nos meses de inverno, despertou a atenção do engenheiro para o potencial vitivinícola da região, tanto que em 1915, tratou de importar e plantar as primeiras cepas francesas, com o ideal de transformar essa área numa nova Bordeaux.

Museu da história do vinho na Humberto Canale

Museu da história do vinho na Humberto Canale

Com o passar dos anos, porém, a adaptação das varietais mostrou que o Alto Valle do Río Negro possuía mais características similares com a Borgonha, do que com Bordeaux. Em 1933, sob orientação do talentoso enólogo Raul De La Mota, então consultor da bodega, começaram a plantar a Pinot Noir. Não precisa nem dizer, que a ousada aposta de Raul foi mais que acertada; hoje, a Pinot Noir é uma grande embaixadora dos vinhos Patagônicos de alta qualidade. Além da indiscutível adaptação da Malbec, outras varietais como a Sauvignon Blanc e a Merlot tiveram bons resultados.

Vinhedos na Bodega Humberto Canale

Vinhedos na Bodega Humberto Canale

Passados mais de 100 anos desde a sua fundação, a Bodega que é dirigida por Guillermo Barzi Canale, quarta geração da família, conta com vinhedos próprios de 150 Ha no Alto Valle do Río Negro, e mais 30 Ha no Valle Medio, além de 150 Ha de produtores associados. O resultado é uma produção anual de mais de 1.500.000 garrafas; sem falar na divisão de frutas frescas (maçãs, pêras e ameixas), que chega a representar 50% do faturamento do grupo, e ocupa o terceiro lugar em exportações. Durante nossa visita a bodega fomos recebidos pelo enólogo Horacio Bibiloni, que nos mostrou a centenária estrutura da vinícola, que agrega desde as tradicionais cubas de concreto epóxi até os modernos tanques de aço inox. E, é exatamente esta fusão entre o antigo e o novo, associado à modernas técnicas de vinificação, que dão a batida da Humberto Canale de hoje.

Sistema tradicional de fermentação em cubas de concreto epoxi

Sistema tradicional de fermentação em cubas de concreto epoxi

Ainda me lembro dos primeiros rótulos que provei da linha Marcus Gran Reserva Pinot Noir, Merlot e Cabernet Franc. Eram safras entre 2001 e 2004, e o que se percebia como denominador comum era a estrutura tânica de alta qualidade e robusta, ou seja, vinhos com excelente potencial de guarda, porém um pouco duros quando consumidos jovens. É curioso observar que foi exatamente essa caraterística de longevidade, que proporcionava vinhos muitos mais ricos e finos após longos anos na adega, que chamou a atenção do enólogo Hans Vinding-Diers para o potencial dos vinhos de Río Negro (principalmente aqueles de vinhedos velhos); e o estimulou a investir na sua própria vinícola na Patagônia. Contudo, nos últimos anos, a evolução vitivinicultura foi muito grande, e obviamente, o modo de fazer os vinhos também teve que acompanhar essas mudanças. Atualmente, a vinícola conta com a consultoria enológica de Susana Balbo (Dominio Del Plata), que prega exatamente a filosofia de oferecer vinhos mais acessíveis e elegantes, sem extrações muito exageradas, que os consumidores possam apreciá-los sem medo, ainda quando jovens.

Vinhos degustados com destaque para linha Gran Reserva

Vinhos degustados com destaque para linha Gran Reserva

Intimo Sauvignon Blanc / Semillom 2009 – R$36

Produzido a partir de um corte de 60% Sauvignon Blanc e 40% Semillion, 6% do vinho passa 6 meses em barricas. O resultado é um toque de elegância, com um bouquet fresco e focado na fruta. Em destaque, aroma de frutas tropicais. Na boca é um vinho leve (pouca presença), talvez falte um pouco de acidez. De todo modo é um branco honesto e agradável, já que não exagera no álcool.

Intimo Malbec 2009 – R$36

Acompanhando a filosofia da bodega, não é um vinho muito concentrado, e prima mais pelo equilíbrio. Apenas 10% do vinho passa por barricas. Nariz muito gostoso, com ótima fruta, lembrando amoras, violetas e notas minerais. Na boca tem corpo médio, taninos presentes e boa acidez. Bem equilibrado com o álcool e uma ótima relação qualidade/preço.

Humberto Canale Estate Merlot 2009 – R$43

Rubi com transparência, também sem exageros de extração. Boa intensidade, com destaque para frutas como cassis, cereja, e alguns leves traços de pimentão. Na boca tem boa estrutura, taninos ainda arranham um pouco; e o final de boca apresentou ótima persistência. Ainda jovem, esse delicioso Merlot pode melhor com mais alguns anos na garrafa.

Humberto Canale Gran Reserva Pinot Noir 2008 – R$105

Belíssima cor rubi, com muita transparência. Aroma delicado de frutas vermelhas, bolo de morango; sem traços inconvenientes de madeira. Taninos doces e aveludados, de excelente qualidade. Final de boca marcante e delicioso. Um vinho de caráter feminino, bem balanceado.

Importação: Grand Cru

Chacara Nº 186 – Gral. Roca – Rio Negro
Tel. (02941) 430415
www.bodegahcanale.com

Para visualizar a localização exata consulte o mapa Bodegas Patagônia

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Este post faz parte da série Wines of Argentina 2010 (WofA). Clique aqui |+| para ler mais. Para ler sobre outras viagens dos editores pela Argentina, clique aqui |+|.

  • http://www.qvinho.com.br Jackson

    Obrigado Patrycia! Pode deixar, qualquer hora eu passo na loja e me intero das novidades.

    Humberto,

    Também já provei os vinhos da Del Rio Elorza, inclusive fiz um post sobre ela: http://jacksonbrustolin.posterous.com/bodega-del-rio-elorza

    Quando você estiver com os vinhos por aqui, por favor nos informe o valor e onde podermos encontrá-los.

    Abraço

  • Patrycia Coelho

    Ola , tudo bem? gostei muito do seu post, muito bem escrito e com sugestõés de vinhos ótimas (rsrsrs). Estou aguardando a sua visita para conhecer a loja, e degustar algumas novidades que recebemos. Abraço

  • http://www.lcharbonnade.com.r Humberto Heidrich

    Muito bom o comentario dos vinhos Patagonicos, fico feliz que em alguns dois ou tres meses no mais teremos os vinhos da Bodega del Rio Elorza em nossa importadora, mas ja trazemos os vinhos do Marcelo Miras,e Chacaras del sol, e em breve junto com Rio Elorza, Patritti, e Bodegas Oceano bem ao sul de Rio Negro 30Km do Atlantico com vinhos bio-dinãmicos, realmente um vinhedo de tirar o folego, terroir argila verde fantastico . ficamos as ordens e parabens
    Abraço
    HUmberto

  • http://www.qvinho.com.br Jackson

    Olá Elmo,

    Você tem razão, ainda não está claro para muita gente que a Malbec possui expressões distintas nessas três regiões. Claro, isso nem sempre é facilmente perceptível, mas elas existem. Vou reunir algumas anotações, e em breve, solto um post detalhando melhor esse assunto.

    Valeu pela sugestão!

    Abraço

  • ELMO

    Jackson, furos à parte (hehe), que tal fazer um paralelo da Malbec entre Mendoza, Rio Negro e Salta? Tem muita gente por aí achando que Malbec é tudo a mesma coisa… abraço.