WofA 2010: O panorama atual do vinho argentino

Em uma semana de viagem tive a oportunidade de percorrer os polos vitivinícolas de Neuquén, Río Negro e Mendoza, além de provar cerca de 240 rótulos, que incluíram vinhos desde a Patagônia até Salta. Esta experiência única, somada a bagagem adquirida em roteiros anteriores do QVinho On The Road foram fundamentais para que eu pudesse extrair algumas conclusões sobre o atual panorama do vinho argentino. Primeiro, o potencial vitivinícola desse país com 3,8 milhões de quilômetros quadrados é fantástico e ainda existe muito a ser explorado; segundo, o perfil do vinho argentino está mudando, e diga-se de passagem, para melhor. No inicio dos anos 90, o setor vitivinícola vivenciou uma grande transformação, que mudou a forma de produzir os vinhos. A partir dessa época foram contratados consultores internacionais, implementadas melhorias no manejo dos vinhedos e nos sistemas de irrigação, além da modernização dos equipamentos e nos processos de vinificação. Esses fatores permitiram que os argentinos projetassem a emblemática uva Malbec no mercado internacional e conquistassem um bom terreno na segmentação dos vinhos finos. Claro, essa adesão incondicional da cartilha dos consultores também ocasionou alguns efeitos colaterais. O principal deles foi a padronização do estilo dos vinhos para agradar o gosto internacional. Hoje, contudo, acredito que a Argentina esteja vivendo uma nova transformação, ao mostrar que o país além de produzir produtos com uma boa relação qualidade/preço, também é capaz fazer vinhos muito finos e únicos em seu estilo.

Em conversas que tive com enólogos e produtores pude perceber a preocupação em explorar melhor expressão de cada varietal em distintos terrenos e condições de rendimento, aproveitando as variações solo, clima, altitude até a idade dos vinhedos. Ou seja, menos fórmulas enlatadas de consultores internacionais e mais autoconhecimento para produzir vinhos de maior personalidade que reflitam o terroir. Segundo José Antônio Galante, enólogo chefe da Bodegas Salentein, a vinda dos consultores internacionais, de modo geral, ajudou muito a elevar a qualidade dos vinhos argentinos, mas não foi perfeita, “a produção de vinhos argentinos em cima de fórmulas rígidas ditadas pelo que era realizado na Europa, ao longo dos anos, não se mostrou a melhor estratégia. Os vinhos acabavam por vezes muito extraídos, pesados e excessivamente marcados pela fruta supermadura e pela madeira. Hoje buscamos vinhos mais elegantes, com fruta fresca e dosagem mais equilibrada do carvalho”. A linha de pensamento de Galante não é diferente de muitos outros enólogos que conversei. Ao realizar as provas também ficou claro que os atuais vinhos argentinos, principalmente os de nível médio e premium, são mais equilibrados e elegantes quando comparados aos rótulos de 6 anos atrás. Ao meu ver, outra grande descoberta, foi a recuperação dos vinhedos velhos de Malbec em regiões como Río Negro, Mendoza e Salta. Os vinhos obtidos com essas uvas estão incríveis, aliando muita fineza e complexidade.

Embora o binômio Malbec e Mendoza domine a pauta, a Argentina já mostra ótimos resultados explorando outras regiões e varietais. Na região mais austral da produção de vinhos do país, a Patagônia, as minhas impressões foram as melhores possíveis. No finalzinho dos anos 90, após uma política de incentivos estabelecida pela Província de Neuquén, investidores fincaram bandeira e iniciaram do zero o cultivo de uma terra árida que até então só contava com poços para extração de petróleo. Atualmente, a localidade de San Patricio Del Chañar é o pólo dessa nova geração de bodegas como Universo Austral, Valle Perdido, Bodega Del Fin Del Mundo, Família Schroeder e NQN. Por outro lado, na Província vizinha de Río Negro a vitivinicultura tem raízes que remontam o final do século XIX. A área colonizada por imigrantes italianos e espanhóis, que já chegou a ter 18.000 ha de vinhedos, vive um momento de renascimento. Bodegas seculares como Humberto Canale, e novos players como Noemia, Chacra e Del Rio Elorza estão reinserindo a região no cenário dos vinhos de alta qualidade. Na Patagônia, a Merlot – atualmente tão menosprezada – oferece vinhos varietais encantadores e deliciosos. A Pinot Noir, que ajudou a dar fama a região, também impressiona pela elegância, qualidade dos taninos e complexidade; ao passo que a Malbec ganha nuances minerais, especiados e uma ótima acidez. Em Río Negro, os vinhedos de Cabernet Sauvignon plantados pelo sistema de parreiral na década de 40, que até alguns anos atrás estavam abandonados, são outra preciosidade. Apesar de seu ciclo de maturação ser tardio, e por isso não ser apropriada para o clima da Patagônia, a Cabernet Sauvignon está sendo utilizada em cortes com a Merlot, e os resultados são surpreendentes.

A região de Mendoza, a partir de 2001, também viveu um boom quando recebeu grandes investimentos, principalmente no Vale do Uco, que compreende os departamentos de San Carlos, Tunuyán e Tupungato. Hoje, a maioria das bodegas mendocinas possuem vinhedos ou compram uvas do Vale do Uco, tendo em vista a importância estratégica dessa zona. Na viagem tive contato com os principais rótulos de bodegas como: Domínio Del Plata, Nieto Senetiner, Luís Segundo Correas, Rutini, Kaiken, Argento Wines, Belasco de Baquedano, Luigi Bosca, Tapiz, Pulenta Estate, Krontiras, Casa Montes, Clos de Chacras, Andeluna, Los Toneles, Familia Zuccardi, Vinecol, Familia Marguery, Trivento, Viñas de Luján, Mendel, Escorihuela Gascón, Navarro Correas, Cavas del 23, Achaval Ferrer, Trapiche, Las Moras, Catena Zapata, O.Fournier, Lurton, Finca Flichman, Finca La Celia, Finca Eugenio Bustos, Benvenuto de La Serna, Sophenia, Salentein, Tamari, Jean Busquet e Lagarde.

No bate-papo com enólogos e nas provas dos rótulos, a Malbec continua sendo a grande estrela, porém a tônica do momento são estudos em profundidade para descobrir as melhores zonas e parcelas para essa varietal. A estratégia para dar maior complexidade e fineza aos vinhos dessa cepa pode variar de vinícola para vinícola. Algumas apostam em Malbecs com uvas de um único vinhedo, conhecidos também Single Vineyard, já outras acreditam que o equilíbrio e elegância viriam de uma mistura das melhores parcelas de diferentes Fincas. Em áreas mais baixas e quentes, a Bonarda – segunda uva tinta mais plantada na Argentina – começa a ganhar maior atenção dos produtores e os vinhos já apresentam bons resultados. Com os brancos também houve uma boa evolução, a Chardonnay ainda é o maior destaque, os vinhos dessa casta mostram boa estrutura e cremosidade. Quanto a Sauvignon Blanc, em termos gerais, os resultados foram satisfatórios. Ainda há um bom caminho a ser percorrido, contudo, algumas bodegas conseguiram se sobressair e apresentar rótulos com características louváveis e típicas dos bons vinhos dessa cepa. Vale ressaltar que os vinhos de sobremesa provenientes de zonas mais altas como o Vale de Uco tiveram melhorias significativas, os produtos já possuem delicadeza e frescor essenciais para equilibrar a doçura.

Para captar algumas tendências e estilos de outras regiões também foi interessante a degustação que fizemos com os vinhos das províncias de Salta (El Porvenir, Michel Torino, El Tránsito), San Rafael (Goyenechea), La Rioja (Chañarmuyo) e San Juan (Xumek). Boa parte das bodegas mostrou vinhos de personalidade ressaltando as características de cada região. Agradou não ver muitos excessos em termos álcool e uso da madeira. Pelo contrário, muitos vinhos sequer passaram por carvalho e, segundo os responsáveis, a ideia é fazer vinhos que expressem melhor o terreno e a adaptação de determinada uva em cada região. Em Salta, a Malbec resulta em vinhos muito escuros e potentes, enquanto a aromática Torrontés encanta pelo paladar fresco e limpo. Tanto em Salta como em La Rioja, a Bonarda tem sido uma das grandes apostas; os vinhos estão deixando de lado o estigma de rústicos, e se tornando mais acessíveis e modernos. Já a Syrah, parece que encontrou um bom desenvolvimento em San Juan e La Rioja.

Nos próximos posts – respeitando a ordem cronológica da viagem – vou apresentar com maiores detalhes essas bodegas e as minhas impressões sobre os vinhos. Tem muita coisa boa ao longo dos próximos meses, aguardem os outros artigos da série!

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Este post faz parte da série Wines of Argentina 2010 (WofA). Clique aqui |+| para ler mais. Para ler sobre outras viagens dos editores pela Argentina, clique aqui |+|.

  • Rodrigo Almeida

    Qual a impressão que vcs tiveram da Bodega Lagarde??

    Algum rótulo chamou a atenção??

    Conhecem o Lagarde Guarda??

    Abraços,

    Rodrigo.

  • kaiser soze

    Caros experts do qvinho,
    Que vinho devemos beber para acompanhar fondue de frutas com chocolate?

    • http://www.qvinho.com.br Jomar

      Um Porto Ruby vai sempre bem.

  • ELMO

    Jackson, o “briefing” está ótimo, esperamos agora aquela longa série de posts sobre cada vinícola, com as fotos caprichadas que são um diferencial deste blog. Nada como um enófilo que também é ótimo fotógrafo… hehe. Abraço.

    • http://www.qvinho.com.br Jackson

      Elmo, obrigado! Nessas viagens você precisa fazer um pouco de tudo, desde fazer as anotações, fotografar e filmar. No geral sempre se aproveita umas fotos bacanas, só senti não ter pego um tempo mais limpo na Patagônia. Os leitores vão ter que se contentar com as imagens cinzentas. Pode deixar, na sequência vou começar a comentar sobre as bodegas e os vinhos que provei. Grande abraço!

  • Christian

    Parabéns Jackson! Mais uma cobertura completa do Qvinho.
    Vou aguardar pelos próximos artigos. Sucesso!

  • Camila

    Adoro acompanhar o trabalho de vcs e digo que esse blog já foi fonte de inspiração para uma viagem deliciosa pela região de Mendoza e com certeza preciso voltar logo e continuar seguindo a trilha que vcs percorreram..
    Comentários super interessantes e dicas que realmente valem a pena!
    Um abraço!

  • Robson

    excepcional trabalho!! successo!