Bons vinhos brasileiros de 2009

Talvez algumas pessoas pensem que eu não gosto de vinho brasileiro, afinal muitos apreciadores torcem o nariz para a nossa produção. Na realidade venho acompanhando a trajetória do vinho gaúcho já há bastante tempo. É verdade que o vinho brasileiro não é mais somente caldo da Serra Gaúcha, novas regiões já produzem bons resultados – e tantas outras poderão progredir. Mesmo assim, seja pela tradição, ou ainda pela força do seu pólo vitivinícola, a Serra Gaúcha continua sendo a balisadora quando o assunto é vinho brasileiro. Como disse, conheço alguns rótulos gaúchos de longa data. O primeiro que provei (mais decente) foi o Baron de Lantier Cabernet Sauvignon 1991, um vinho emblemático para a sua época, porém desprovido de atributos especiais. Entrando no túnel do tempo, lembro que provei todos os “grandes” daqueles tempos: Aurora Millésime, Forestier, Antiquário, além de outros que minha memória já apagou, provavelmente porque nunca mereceram registro. No final dos anos 90 uma turma mais inovadora começou a produzir seu próprio vinho. Foi a primeira vez que ouvi falar da Miolo e da Valduga. Provei todos os vinhos da safra 1997 que esses dois produtores fizeram. Em 1999 lá estava eu no Vale dos Vinhedos com a minha Nikon FM a tiracolo, fui conferir de perto o que esses caras estavam fazendo. Retornei ao mesmo lugar no ano seguinte; e depois em 2001, 2002 para somente agora, no mês de junho de 2009, pisar novamente no Vale dos Vinhedos.

Vinhedo

Parreirais da Miolo no Vale dos Vinhedos em junho de 1999

Tenho que confessar, o lapso de tempo foi devido a minha decepção com a qualidade dos vinhos a partir de 2000. Só provei vinho ruim dos anos de 2000 e 2001, em 2002 o clima ajudou, porém o açúcar a mais nas uvas começou a salgar os preços. Numa perspectiva histórica, a atual qualidade dos vinhos gaúchos nunca foi tão boa, mesmo assim vamos com calma, afinal o mais difícil ainda está por vir: consolidar um padrão de qualidade, como fizeram Chile, Argentina e Uruguai. A grosso modo, as melhorias que observo foram decorrentes de uma redução de produtividade, que eram assombrosamente elevadas a poucos anos atrás, aliada a práticas enológicas mais modernas e uma ajudinha da natureza.

Os vinhos melhoraram, só não entendo por que muitos produtores tentam imitar os nossos vizinhos Argentina e Chile, investindo tempo e dinheiro para fazerem vinhos encorpados, com muita concentração e cheios de madeira. Isso não tem a menor lógica. Na Argentina é fácil fazer esse tipo de vinho, já a Serra Gaúcha depende de inúmeros fatores. Não dá para negar a vocação do terroir; na Serra Gaúcha chove demais, enquanto na Argentina e Chile a situação é inversa. Um problema frequente são os taninos duros, um traço marcante do clima úmido, que se tornam ainda mais inconvenientes em vinhos com muita extração. Aqui nasce aquela tirada clássica dos gaúchos: “esse vinho ainda é muito jovem, precisa de mais tempo na adega”.

Sim! Gosto de vinhos brasileiros, na minha última viagem ao Rio Grande do Sul provei alguns bem interessantes. Também visitei algumas vinícolas que ainda não conhecia e, para minha felicidade, não foram contaminadas pela síndrome vira-latas de tentar imitar os bombadões vinhos de clima seco e quente. Ao contrário de outros críticos, não acho que a Serra Gaúcha preste apenas para espumantes, os tintos também merecem um lugar na mesa. Gosto daqueles com concentração média e sem adstringência excessiva, com pouca madeira, boa fruta, acidez viva e sem álcool em excesso. Vinhos mais delicados, com aromas sutis e perfeitos para acompanhar comida no dia-a-dia. Outra característica importante: não deveriam passar de R$50. Falando em preço, esse fator é o principal inimigo da imagem do vinho brasileiro. Acima de R$40 a competição com outros sul-americanos (e com portugueses também) é duríssima, com poucos argumentos favoráveis aos brasileiros.

Visitei rapidamente alguns produtores de porte pequeno, todos eles situados no Vale dos Vinhedos, com vinhos de estilos bem diferentes daqueles da Argentina, Chile e Uruguai. Lidio Carraro, Vallontano e Angheben foram os alvos da minha incursão. Na sequência publicarei um post relatando as minha impressões em cada uma dessas vinícolas.

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  • http://www.allankardi.com.br joao batista

    eu queria que voces me desce uma opinião aqui na cidade que moro tem duas adegas onde eu compro vinho eu sou diabetico e estou achando estranho que segundo me informa o vinho vem direto do rio grande do sul e quando eu vou tomar o vinho ele deixa os meus labios todo tingido na cor do vinho será que eu estou tomando realmente vinho isto acontece mesmo ou este vinho estar sendo fabricado em fundo de quintal com groszelia,cachaça,ou suco de uva como eu não entendo queria uma explicação para saber se continuo ou paro ,inclusive peço a voces que me indique um bom fornecedor de vinho que seje realmente bom e que venda em garafão tanto seco quanto suave e como faço para comprar em media cinco garafão por mes mais um vinho realmente bom eu queria saber mais so que no site de voces não tem telefone atenciosamente joão

  • Darci Dani

    Quanto a vinhos brasileiros eu posso afirmar que estão melhorando muito. Foram trazidas mudas selecinadas da europa, foram plantadas de maneira a produzir uva de alta qualidade e são produzidos vinhos de excelente qualidade. Uma região que está despontando como produtora de vinhos de alta qualidade é a Região dos Altos Montes, Flores da Cunha e Nova Pádua. Vale a pena visitar.

  • mario lacerda

    fico emocionado quando o assunto é vinho brasileiro, uma salva de palmas para o produtor no brasil que consegue virar os altos tributos deste pais e nenhuma proteção de seus produtos em algumas jóias entre tintos ,brancos, rosés e espumantes maravilhas a ser descobertos.

  • Adriane

    Bom que você aprecie também os vinhos brasileiros. Eles tem realmente UMA CARGA TRIBUTÁRIA muito allta, sendo assim difícil competir em preço com alguns importados.
    Voce falou sobre o Vale dos Vinhedos em Bento Gonçalves. Gostaria de saber se voce conhece a região de Pinto Bandeira – Vinhos de Montanha? É muito bonito e tem uma paisagem similar a Toscana na Itália. Se voce puder venha conhecer ! E as vinícolas são muito boas ! Vale a pena conferir!
    Qualquer dúvida podes me contactar por e-mail , estou à disposição !
    Obrigada
    Adriane Salton

  • Pingback: Vallontano Tannat 2005

  • mauri de jesus morais

    Vinho tinto seco brasileiro bom mesmo, nunca tomei. Dia desses degustei um Don Laurindo Reserva (2004). Apenas razoável. Não se compara com chilenos de preço equivalente. A imensa maioria dos vinhos brasileiros, principalmente os tintos secos, são ruins (sabor e preço).

  • Daniel

    A maior parte dos vinhos brasileiros me deixa extremamente desapontado.
    Vinhos extremamente adstringentes, ácidos, completamente desarmônicos e magros.
    Ok, há aquela desculpa de “é um vinho para ser consumido jovem”, mas há uma grande diferença entre uma garrafa de vinagre e uma garrafa de vinho.

    Sinceramente, na minha opinião o Brasil só tem possibilidade de se destacar na produção de espumantes. Nossos vinhos são naturalmente ácidos, o que é praticamente um requisito para a produção de um ótimo espumante, com segunda fermentação após engarrafado.

    Infelizmente continuamos tentando fazer vinhos encorpados, ao invés de aproveitar o que temos.

  • http://riwail@hotmail.com rivail luiz pereira

    AH, A POUCO MORO NO RS,E CONHEÇO VINHOS DE VARIAS PARTES DO MUNDO SOU CATARINENSE,E TRABALHEI COMO SOMMELIER DURANTE ALGUMS ANOS..E ADORO DIFUNDIR O VINHO NACIONAL,SOU PUBLICITARIO E CONTINUO A PROVAR VINHOS.GOSTEI DO ARTIGO..

  • http://riwail@hotmail.com rivail luiz pereira

    OLÁ,POIS É O PREÇO DO NOSSO VINHO É UM POUCO ABUSADO,MAS SABEMOS DOS ENCARGOS EM CIMA DE UMA GARRAFA DE VINHO,MAS RECOMENDO A QUEM LER,PROVAR VINHOS DE SC,VILA FRANCIONE,VILAGGIO GRANDO,SÃO DE REGIOES DIFERENTES DO ESTADO MAS SURPREENDENTES…

  • vanderlan

    California (usa ),austrália entre outas coordenadas geográficas não tradicionais estão garimpando vinhos de qualidade. O vale do são francisco tem alguma chance?

  • Rodrigo Rosa

    Sou um entusiasta do vinho brasileiro, sem preconceito aos importados. Me coloquei uma proposta e venho fazendo deste então: só comprar vinhos nacionais. Eu degusto importados, mas faço quando visito algum amigo ou parente. Essa proposta é para entender melhor as qualidades e potencialidades do vinho da nossa terra. Mas que está dificil seguir essa proposta está. Num mercado próximo a minha casa, passaram a vender vinhos da Casa Valduga. Um Premium CS está na casa de 47,00 reais, o mesmo preço, no mesmo mercado de um Catena Malbec ou CS. Tá certo, o mercado podia abaixar o preço, mas com politicas assim em vários pontos de venda, fica dificil não condicionar outros fatores a esta minha proposta.

  • Pingback: Lidio Carraro

  • Paulo Vieira (Recife)

    Estive recentemente (agosto deste ano) na Serra Gaúcha visitando várias vinícolas. Infelizmente, pude constatar ali a tendência de copiar o estilo Argentina/Chile (muita madeira). Espero sinceramente que aqueles que fogem a esta regra continuem fortes e firmes. Assim, futuramente teremos uma identidade realmente brasileira.

  • Guilherme

    De fato, o vinho brasileiro posiciona-se mal em termos de preço. O que dizer da venda en primeur do Sesmarias da Miolo, a R$ 180 a garrafa? Os rótulos do Lidio Carraro estão na faixa de R$ 70/80, onde se encontram produtos importados de excelente qualidade.
    Infelizmente, os impostos também fazem muita diferença. Dá para ver isso fazendo uma compra na Essen de Florianópolis (o atendimento do Sr. Nelson é encantador) e nos mercados de São Paulo, lá o ICMS é de 7%, aqui em SP é de 25%, não há bolso que resista!

  • Fábio

    Não é nem um pouco barato se produzir vinho de qualidade. O Brasil dipõe hoje de uma vinícola chamada Lidio Carraro que sem dúvida alguma produz rótulos para representar o país em qualquer parte do mundo de forma brilhante… Produzem um Tannat espetacular e nenhum rótulo passa por barrica… As pessoas precisam se permitir algo novo fugindo de muitos rótulos seja do velho ou novo mundo que não passam de chá de madeira…

  • Sérgio

    Excelente comentar a evolução dos vinhos nacionais; então aproveitem para conhecer Encruzilhada do Sul e os vinhos da Lídio Carraro. Não passam por barrica e surpreendem pela qualidade.

  • Waldyr Gomes da Silva Filho

    Pessoal,
    Voces precisam visitar Garibaldi, próximo a Bento Gonçalves, e conhecer as Pérolas produzidas pelo VILMAR BETTÚ. Excepcional. Existe um projeto chamado ” Estrada do Sabor”, onde aproximadamente 8 familias acolhem visitantes e proporcionam o que há de melhor em Gastronomia.
    A respeito, ontem, 10-09-2009, no Sótão Porto Leblon em Copacabana – RJ, houve degustação dos vinhos BETTÚ.
    Hoje em dia, o Vilmar recebe, em seu Sítio, Enólogos de todas as partes do mundo, para conhecer pérolas de sua produção.
    Estive com a Família Bettú, em Nov.2008. Um dia memorável.
    Como sugestão, degustem o HEXACORTE do Bettú. Simplesmente Fantástico.
    Abraços a todos.

  • Tadeu

    Pois é, e agora que o Vale dos Vinhedos vai servir para loteamento de residências? Isso só demonstra a fraqueza da indústria vitivinicola dessa região. Coisa vergonhosa.

  • rds

    Boa materia nas vale lenbrar que os vinhos dos argentino maõ tinha credibelidade no mercado foi salvo por boms e serios pordutores ,catena zapata,humberto canale, etc, etc,
    O povo Brasileiro e perssitente vanos conseguir boms resultados

  • http://www.vinibrasil.com.br joão Santos

    Parabens pelo apreço do vinho Brasileiro… mas é um pena que se esqueçam as outras regiões como o Vale de São Francisco que esta a melhorar muito na sua qualidade.

  • http://falandodevinhos.wordpress.com João Filipe Clemente

    “irmanos”, ruim heim!!!

  • Gilberto Hellmuth Meissner

    Apreciei seus comentários. Existe uma região de Santa Catarina que vem produzindo vinhos de boa qualidade, em se considerando o fator custo/benefício.Estou me referindo ao Panceri, cabernet e merlot, ambos na faixa dos R$20,00. Acredito que o amigo deva conhecer esses vinhos.
    Abs.,
    Gilberto
    5/9/09

  • http://falandodevinhos.wordpress.com João Filipe Clemente

    Ia-me esquecendo de duas coisas; o preço desse malbec, honestíssimos R$25 a 30, e a linda foto do vinhedo!

  • http://falandodevinhos.wordpress.com João Filipe Clemente

    Beleza, conseguiram captar bem o que anda acontecendo por aquelas bandas e concordo com vcs, os dois piores erros são posicionamento de preço (problemas mercadológicos em geral) e não adianta falar de impostos porque tem gente que faz bons vinhos e tem bona preços. O outro é o aspecto estilo. Ainda vou postar sobre ele, mas me surpreendi muito positivamente com um Malbec Reserva 2007 da Marco Luigi que, quando tiverem oportunidade sugiro provarem. COM ESTILO PRÓPRIO, sem copiar os irmanos, com 12% de álcool, sedoso, redondo elegante e pleno de sabor com muito bom equilibrio. Tirando o que de melhor le dá o terroir sem excessos de extração. Agora existem vinhos que têm feito bonito em minha degustações ás cegas (Desafios de Vinhos) e, tenho que reconhecer, estão pau a pau na qualidade e aí alguns preços fazem até sentido!
    Salute e um abraço

  • odin io gomes

    desde2008 venho bebendo o Miolo seleção 375ml todos os dias no almoço. Para minmha surpresa deisxei de beber o mesmo, pelo motivo de terem tirado a rolha e posto rosca Pois pederá haver falsificação eem alguns bares. Pois apos a garrafa vazi colocam outro vinho aproveitando a rosca.Passei a beber o Santa Helena, apesar de mais caro cr$ 2,00

  • Luciano Kelbouscas

    Boa tarde! O problema do preço todos nós sabemos, o vinho recebe a maior carga tributária, é um absurdo. Quanto a imitação creio que o nosso grande problema, e falo nosso por ser gaúcho, é a proximidade com esses países. Devemos buscar nossa identidade e produzir vinhos leves e jovens.

  • Marcelo

    Excelente comentário, sintetizou bem os fatos. Em resumo concordo com os dois pontos principais sobre os problemas do vinho nacional. Realmente imitar os vinhos do Chile e Argentina é uma fria. O preço dos vinhos é outro tiro no pé.

  • Eloise

    Seu artigo ficou muito bom! Parabéns.

  • Gustavo

    Olá, muito bom seu comentário inicial. Aguardo o próximo post ansiosamente. Concordo quanto aos preços, no máximo R$ 50,00 e olhe lá. Mas tem vinícolas daqui do sul que só vendem seus vinhos premium com no mínimo 6 garrafas, como a Miolo com seu Merlot Terroir a R$ 417,00 – o que dá R$ 69,50 a garrafa!!!! Até gostaria de experimentar esse vinho, mas jamais comprarei 6 garrafas de uma só vez.