Lidio Carraro

O patriarca Lidio Carraro é o herdeiro de uma tradição em viticultura que já chegou à sua quinta geração. Produtor de uvas do Vale dos Vinhedos, antes de engarrafar seu próprio vinho, vendia suas uvas para outras vinícolas. A partir de 2002, juntamente com seus filhos, engarrafam o próprio vinho.  Atualmente a vinícola encontra-se em processo de expansão, com planos de investimento para a ampliação da estrutura de produção. Possuem um posicionamento bastante claro, não utilizam madeira e gostam de pregar a baixa intervenção na produção, isto é, sem truques para maquiar o estilo do vinho. Os principais rótulos são caros, a justificativa estaria no cuidado quase artesanal de produção, na baixa produtividade e na quantidade limitada de garrafas produzidas, com isso os preços aumentam significativamente. Na prática a coisa é um pouco diferente, uma simples correlação matemática traz luz a questão. O Singular Nebbiolo 2006, com produção de 2.866 garrafas custa R$186; por outro lado o Grande Vindima Merlot 2004, com 2.600 garrafas, custa R$82. Isso não tem muita lógica, acredito que as diferenças de produtividade entre a Nebbiolo e a Merlot não justifiquem todo esse aumento. Ambos os vinhos são limitados, feitos de maneira muito parecida e com uvas da mesma região. Por que o Nebbiolo custa R$100 a mais!?

Lamento pelos consumidores brasileiros, que antes mesmo de poderem comprovar a qualidade de um vinho, já são induzidos a pagarem altos preços. O fato é que a Lidio Carraro ainda está engatinhando (como toda indústria vitivinícola brasileira), e leva-se tempo para produzir bons vinhos, por isso acho um despropósito as primeiras safras já chegarem ao mercado custando perto de R$200. Já comentamos em posts passados sobre essa estratégia abusada das vinícolas brasileiras – que nos últimos tempos virou moda – de lançar vinhos superpremium com preços acima de R$100. Apesar desses rótulos já mostrarem uma boa evolução, ainda estão distantes de valer o preço da etiqueta.

Outra curiosidade da Lidio Carraro é o rol de variedades produzidas; além de Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Cabernet Franc, Moscatel e Chardonnay, eles ainda cultivam as pouco comuns (no Brasil) Malbec, Tempranillo, Teroldego e Nebbiolo. Para uma vinícola familiar intitulada de boutique, o clã Carraro é bem ousado, para não dizer pretensioso, afinal não é fácil trabalhar com tantas variedades de uva e com vinhedos em diferentes localidades (Encruzilhada do Sul e Vale dos Vinhedos).

Lidio Carraro

Não provei os tops da Lidio Carraro, apenas o Quorum, os intermediários e os básicos da linha Reserva da Serra. São vinhos de personalidade definida, quase sempre com boa intensidade aromática e acidez agradável, porém com taninos firmes, por vezes rústicos. Não agradam aos viciados em carvalho, acostumados com vinhos redondos e macios. Em compensação convencem pela sutileza dos aromas e pelo estilo original. Independentemente do discutível posicionamento de preço, essa vinícola tem feito um bom trabalho e certamente merece atenção.

Da’divas Chardonnay 2008 (R$35)

Um Chardonnay correto, nada mal para o debute da Lidio Carraro com os brancos. Aroma agradável, com notas de frutas branca, flores e sutil toque herbáceo. Boa presença na boca, apesar de ser leve e ter um ligeiro amargor. Um branco refrescante e despretensioso. Uma pena não ser rotulado como Reserva da Serra e custar R$26.

Reserva da Serra Merlot 2006 (R$26)

O Merlot básico produzido pela Lidio Carraro é convincente, obviamente não se trata de um vinho de grande concentração, porém é correto e não possui interferência da madeira, como a grande maioria dos sul americanos na mesma faixa de preço. Aroma gostoso, com boa intensidade, lembrando cerejas e framboesa. Leve, fresco e equilibrado, uma boa opção para acompanhar pizzas e massas simples com molho de tomate.

Elos Cabernet Sauvignon – Malbec 2007 (R$63)

Um corte de Cabernet Sauvignon (80%) e Malbec (20%) que não tem nada em comum com os argentinos. Nariz fresco e agradável, com frutas vermelhas, toques florais e algumas notas herbáceas. Bom corpo, firme e equilibrado. Final de boca com persistência razoável. Vinho interessante, uma ótima alternativa a ditadura dos escuros e untuosos argentinos.

Grande Vindima Merlot 2004 (R$82)

Um varietal Merlot feito com uvas de Encruzilhada do Sul. Aroma sutil e com certa complexidade; frutas vermelhas, café torrado e toques minerais dominam. Bom corpo, acidez correta, taninos marcantes. Vinho vigoroso e jovial, para acompanhar comida.

Grande Vindima Quorum 2005 (R$91)

Vinho emblemático da Lidio Carraro, feito com uvas plantadas em parcelas selecionadas do Vale dos Vinhedos. É um assemblage de Merlot (35%), Cabernet Sauvignon (30%), Tannat (25%) e Cabernet Franc (15%); fermentado individualmente em tanques de aço inox, com posterior fermentação malolática e, como reza a tradição dos Carraro, sem passagem pela madeira. Cor rubi escura, com bastante matéria corante. Nariz discreto e complexo, com presença de frutas vermelhas, ervas secas e especiarias. Na boca é encorpado, com acidez agradável e taninos ainda jovens que agarram demais. Ao degustar o Quorum 2005 – e também quando provei o 2004 há mais de 1 ano – fiquei com a sensação ter provado um vinho muito jovem, que precisa de um tempo na adega para revelar a sua verdadeira identidade. Como tenho uma garrafa guardada desse 2005, espero ser surpreendido positivamente daqui dois anos ou mais.

* * *

Esse post faz parte da minha incursão no Vale dos Vinhedos em junho de 2009. Leia mais aqui.

  • Priscila

    Gostaria de saber atualmente se alguém provou os vinhos Lidio Carraro e o que achou? Sou iniciante e gostaria muito de saber a opinião de pessoas que realmente entendam da área.

  • Pingback: Receita: Sopa cremosa de cogumelos

  • Antônio Krieger

    Também concordo com o Jomar e Edelson. Claro que podemos tratar o vinho com o uma obra de arte – assim como podemos enxergar arte nas mãos de um cirurgião, na música de um artista, nas palavras de um livro. Nem por isso, pagamos 300 reais em um CD ou em um livro, embora possam valer muito mais que isso subjetivamente.
    O vinho é uma bebida para todos os dias, para todas as celebrações, e que deveria ser do alcance de todos. Cultuá-lo a ponto de torná-lo um ícone, acessível apenas a “VIPs”, é estratégia de marketing de determinadas vinícolas que acabam desvirtuando o objetivo principal da viticultura: produzir bons vinhos.
    Saudações!

  • http://www.conhecaopantanal.com.br Edelson

    Concordo com o Jomar.
    Tanto é que o Robert Parker avalia e dá a nota ao vinho sem saber, a princípio, de onde veio o vinho ou quem o fez.
    O vinho recebe a nota pela sua qualidade, e não pela qualidade do “artista” que o elaborou.
    E outra, até os americanos, que tem um poder aquisitivo muito maior do que o nosso gostam dos vinhos bons e baratos!
    Não que não valha a pena pagar 200/300 reais por uma garrafa… mas o vinho tem que realmente ser bom para merecer!
    Abraços.

  • Iva

    Não concordo. Não somente a lidio Carraro, mas outras excelentes vinícolas cujos vinhos merecem nossa valorização. Não é o fato de ter preço. Apreciadores entendem que o vinho é como uma obra de arte. Você acha que é caro produzir uma obra de arte? Não devemos pensar em custo de produção, mas muito além disso. Não é com custo de produção que a Vinícola trata o vinho, é com a dedicação a ponto de elaborar algo tão fantástico que não tenha preço. E se for para colocar um preço, que seja digno do cuidado e zelo que se teve. Pois creio que não se olhe para o parreiral e se diga: com estas uvas faremos um vinho de R$ 300,00, pois gastei exatamente isso para consegui-las. A pessoa que elabora o vinho é um artista, trata com cuidado e criatividade pois não há uma receita do vinho perfeito!
    Há pessoas que pagam milhões por obras de arte, e nem por isso devemos dizer que a obra não vale. As obras são únicas e os vinhos também devem ser tratados como únicos.

    • http://www.qvinho.com.br Jomar

      Cara Iva, entendo o seu ponto de vista, mas a nossa postura aqui no QVinho é crítica, por isso temos a obrigação de esclarecer certos aspectos aos nossos leitores. Essa abordagem subjetiva, comparando a produção de vinhos a um trabalho artístico, para mim não diz nada. Um vinho deve ser julgado pelo seu valor no copo, não é uma obra de arte para ser exposta. Não gosto dessa atitude vouyerista, Não gosto de “artistas do vinho”, prefiro bons viticultores empenhados na lida diária, que fazem vinhos bons a preços justos, sem adicionar o custo do “toque artístico” nos seus rótulos.

  • Roberson

    Estive na Lidio Carraro no feriado de 12 de outubro. Concordamos em quase tudo: os vinhos são bons, acima da média; a ausência de madeira agradou-me; a política de produção em pequenas quantidades é interessante… mas incomoda o fato de haver tantas castas em area pequena; o Nebbiolo a 170 reais é de derrubar qualquer amante da bebida. Disseram-me que o alto preço tem a ver com a baixa produção e que são necessárias duas plantas para uma garrafa…. lero-lero, o vinho é caro e não está disponível para degustação.

  • Luciano Kelbouscas

    Em 2003 e 2004 visitei a Lídio Carraro, eles antes vendiam quase toda sua produção para a Miolo. Adquiri na época algumas garrafas para minha modesta adega e já pagava R$ 65 a R$ 85. São realmente bons vinhos, mas para quem tem a oportunidade de comprar um Dom Melchor a U$ 98,00 em Rivera no Uruguay, fica complicado a diferença de preço. Sei que a LC está com seus produtos em free-shops de aeroportos, um avanço, mas o preço segue salgado….

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