Miolo Lote 43 2004

Há aproximadamente um mês fui surpreendido por uma notícia que me chamou a atenção: “Os vinhos brasileiros iluminam na Itália a noite do Piemonte“. A nota distribuída pela Ibravin em conjunto com as assessorias de imprensa de algumas vinícolas que participaram da ação foi replicada em seu inteiro teor na mídia especializada com títulos ainda mais sensacionalistas, como: “vinhos brasileiros brilham na terra do Barolo” e etc. Pensei comigo “será que os italianos tinham descoberto o potencial dos nossos vinhos, enquanto nós brasileiros menosprezamos a prata-da-casa!?” Curioso procurei saber mais sobre esse evento capitaneado pela Ibravin em parceria com a FISAR – Federazioni Italiana Sommelier Albergatori Ristoratori; e pela ASA – Associazione Stampa Agroalimentare Italiana. Como não me impressiono com siglas resolvi pesquisar diretamente com os italianos (para nossa felicidade e infelicidade de alguns, ainda bem que temos a internet e bons contatos mundo afora). Investiguei em revistas, conversei com colegas sommeliers e blogueiros italianos, tudo em vão. Não encontrei qualquer opinião crítica sobre essa degustação, quer seja falando bem ou mal dos vinhos. Nenhum parecer foi publicado, dentre mais de uma dezena de renomados jornalistas e críticos (segundo informado pela FISAR) que participaram da degustação. Mas afinal, o que os italianos da terra do Barolo acharam dos nossos vinhos? Não sabemos. O fato é, a notícia como foi publicada deixa uma grande margem a interpretações errôneas, fazendo os consumidores acreditarem que os vinhos brasileiros foram aclamados e reconhecidos por sua qualidade, o que não aconteceu. O desserviço prestado pelas revistas e blogs vira-latas que publicam esses releases panfletários, em nada contribuem para o amadurecimento do setor. É preciso aprender a separar patriotismo barato da análise investigativa e crítica que deveria pautar nossa imprensa de vinhos.

Lote 43 2004, vinho ícone da Miolo.

Lote 43 2004, vinho ícone da Miolo.

Aproveitei esse gancho para falar sobre um dos vinhos que, segundo a Ibravin “obtiveram um unânime consenso por parte dos 46 degustadores convidados”, o Miolo Lote 43 2005. Já que não tivemos a opinião dos italianos resolvemos fazer a nossa prova do Lote 43, (com a diferença que degustamos a safra 2004). De acordo com a Miolo é um vinho ícone elaborado somente nas melhores safras a partir de um corte de Cabernet Sauvignon e Merlot, com uvas de uma parcela privilegiada no Vale dos Vinhedos. O estágio em barricas é de 12 meses (70% americanas e 30% francesas).

Cor rubi e com boa quantidade de matéria corante. Bouquet com razoável intensidade, em destaque as notas do carvalho remetendo a baunilha. Uma presença discreta de frutas negras, como era de se esperar em um vinho da Serra Gaúcha, acompanhado de um toque mentolado. Na boca tem boa estrutura, porém os taninos ainda transmitem uma leve adstringência. O Lote 43 mostrou boa acidez e equilíbrio, com um final de boca agradável. Em resumo, o Lote 43 consegue entregar mais – intensidade, concentração e refinamento – que a média dos vinhos gaúchos, porém não espere a maciez e a fruta madura que outros bons vinhos sul-americanos exibem na mesma faixa de preço. E, definitivamente, por R$80 o Lote 43 sofre para competir com a maioria dos rótulos chilenos, argentinos, uruguaios ou portugueses entre R$ 60 a R$90.

Muito Bom
Um vinho bem acabado e gostoso, mas com um posicionamento de preço acima do que pode oferecer
Preço: R$80
Grad. Alcoólica: 13,5%

  • adaildo paz freitas

    tenho um vinho branco a venda se interessar a alguém
    MIOLO RESERVA SAUVIGNON BLANC FAFRA DE 2004
    aceito propostas FONE (48) 96 86 64 78
    fala com tom
    nova trento-sc

  • Rui Camillo Ruas Filho

    Somente este ano provei o Lote 43 – 2005 da Miolo. É excelente.
    Resumindo, tem excelente sabor, desce redondo, sem acidez excessiva.
    É superior a muitos vinhos argentinos e chilenos da mesma faixa de preço ou, mesmo, bem mais caros.

  • Fabio

    Este é o maior exemplo do que se consegue sem terroir, com as maravilhas modernas da vinificação.

  • Henrique

    Olá. Corrigindo alguns equivocos da minha parte: Em ” Adriano Miolo é considerado um dos 10 melhores enólogos do mundo, fora que possui 3 certificações ISO (9001,22000, 14000)” me equivoquei duplamente ao considerar Adriano Miolo um dos 10 melhores enólogos do mundo e ao citar a ISO 14000. O que pode se afirmar é que ele foi o enólogo do ano em 2007. Somente possui a ISO 9001 e a 22000.
    Obrigado ao enólogo da Miolo que pediu para corrigir tais dados imprecisos. Links a respeito do afirmado:
    http://www.jornalbonvivant.com.br/int_noticias.php?id=30&secao=5
    http://www.meuvinho.com.br/news/default.asp?id=219
    Abraços

  • Adauto

    Concordo com o que o forum já expôs: o Lote 43 é um vinho muito bom – comprei um diretamente na loja da Miolo e gostei de beber – mas muito caro.

  • Henrique

    Bom, acho que é importante o trabalho realizado pela crítica especializada. Sempre haverá o que melhorar. Houve grandes avanços e isso não para por aqui. Existem opções com maior custo benefício, mas ficaria fora do tópico sugerido. Lembro ainda que como um icone da vinicola, isso aumenta consideravelmente o valor do mesmo. Uma proposta diferente. Convidaria vcs para uma visita ao vale dos vinhedos, quando puderem. Fico a disposição. Abraço e parabéns pelo trabalho.

  • Henrique

    Só uma informação a respeito do Sesmarias. Ele é o ícone do projeto Fortaleza do seival. O ícone da Miolo é o Lote 43. A Miolo faz parte da Miolo Wine Groupe, sendo um de seus projetos ( o precursor). A Miolo Wine Groupe é “composta” pela *Lovara, Miolo, RAR, *Fazenda Ouro Verde (*Junto com o grupo Bentec). Nos links abaixo, existe a classsificação dos seus produtos. Não há objetivo em “enganar” o consumidor, apenas em explorar o “terroir” de cada região, explorando o conceito “cru”, ou seja, com o sistema de rastreabilidade, os melhores parrerais são selecionados para a elaboração do ícone. Lembro que o “terroir” dos vale dos vinhedos é diferente do que o da região da Campanha, onde está o Fortaleza do seival. A respeito da linha premium, não acho R$ 23,00 caro para um vinho como o Miolo Reserca (Cab. Sauv. ou Merlot). Acho bem competitivo.
    Abraços.
    http://www.miolo.com.br/vinhos/vinicola_miolo/
    http://www.miolo.com.br/vinhos/fortaleza_do_seival/

    • http://www.qvinho.com.br Jackson

      Henrique, obrigado pela correção e precisão das suas informações.

      Eu entendi a ideia da Miolo de explorar os diferentes terroirs, até aí tudo bem. Quanto a segmentação das marcas existe um grande exagero nessa terminologia. O Reserva Miolo para mim está muito longe de ser considerado um vinho premium. Contudo eles estão do direito de “vender” o conceito que melhor for conveniente.

      Digo o mesmo em relação ao Lote 43. É um bom vinho? Sim, é um bom vinho. Mas, ainda sim está a largos passos de distância de outros rótulos de R$80.

      Abraço

  • Mariana Cambraia Vieira

    Já havia degustado o Salton Talento em Campos do Jordão e tinha gostado muito…
    E estava com muita vontade de experimentar este Miolo Lote 43…
    E agora em julho, num dia de compras de vinho nao resiti e comprei .
    Realmente MUITO BOM!!!
    Com certeza têm qualidade pra fazer bonito lá fora…
    Mas o preço destes vinhos Brasileiros
    Premium é realmente muito alto… Questão a ser repensada…

  • Henrique

    Olá. Gostaria de parabenizá-lo pela materia e pela análise sensorial realizada, que mostrou-se bem apurada. Acho que a abertura do mercado brasileiro de vinhos ocorrido na década de 90 só veio a contribuir para o setor vinícola brasileiro, já que o consumidor teve acesso ao mercado internacional. Foi neste panorama que a marca Miolo se inseriu no mercado. Desde 2003 possui consultoria do enólogo Michel Rolland (o “Pelé” do vinho), sem contar que Adriano Miolo é considerado um dos 10 melhores enólogos do mundo, fora que possui 3 certificações ISO (9001,22000, 14000). Esses são alguns fatores que incorporam valor a marca Miolo e aos seus vinhos. Lembro que cerca de 51% do valor do vinho brasileiro é imposto, o que dificulta ainda mais as coisas… A cerca do lote 43, convido-o a degustar o 2005, a melhor safra dos últimos 50 anos da Serra Gaúcha, ainda mais complexo que o 2004. Abraços

  • Gabriela

    Provei a nova safra de 2005 e acho que o vinho precisa evoluir um pouco mais em garrafa, mas com certeza promete.

  • Ismael

    Concordo com tudo o que foi dito aqui, detalhe, em 1970 um chatêau latour custava 60 reais, é pra vocês verem como mesmo os grandes questão preço já foram baratos ….

  • http://www.umpaposobrevinhos.com.br Guilherme Lopes Mair

    Prezado Jackson,

    Perfeitas suas colocações. Em novembro último, estive na Toscana, numa viagem com um grupo de jornalistas especializados, oriundos de vários países. A maioria deles sequer sabia que o Brasil produz vinhos. Isso, de certo modo, endossa o que você disse.

    E ainda nessa linha de raciocínio, escrevi, em setembro, uma coluna ( http://www.umpaposobrevinhos.com.br/2008/09/olimpadas-do-vinho.html ) sobre as “medalhas” de concursos.

    Há muito o que progredir antes de “cantar a vitória”…

    • http://www.qvinho.com.br Jackson

      É verdade Guilherme, a IBRAVIN e outras entidades para a promoção do vinho como a Wines from Brazil estão muito longe de fazer um trabalho consistente para promover o vinho nacional. Menos ufanismo e mais trabalho!

  • jose antonio marussig

    eu particularmente não acho que a questão da política de preços da Miolo da Salton ( e outras ) para seus vinhos ícones esteja atrelada tão sòmente aos altos impostos do setor . Me parece mais uma estratégia de estabelecer uma relação mais direta entre qualidade x preço, tomando -se como base o paradigma do mercado de que “vinho bom tem que custar caro”, se for barato será depreciado pelos compradores . Eu acho que já nos acostumamos a pagar algo entre R$ 60 e R$ 100 por qualquer vinho chileno e argentino alguns de qualidade duvidosa , mas não temos coragem de fazer o mesmo com os nacionais. O Lote 43, o Desejo, o Talento, o Joaquim, ..e alguns outros têm espaço para melhorar é verdade, agora, quanto à estratégia de preços, ela deve seguir seu rumo em paralelo. Sòmente com empresas saudáveis e lucrativas vamos poder esperar por vinhos de qualidade .

    • http://www.qvinho.com.br Jackson

      Você tem razão Marussig, não são apenas os impostos que encarecem o nosso vinho. Uma parcela significativa de vinícolas brasileiras está trilhando um caminho perigoso. A bola da vez é o mercado do luxo, da exclusividade. Ou seja, na contramão do que está acontecendo em mercados mais evoluídos, o Brasil investe em belas garrafas, rótulos bem desenhados por estúdios de design, rolhas da melhor qualidade, estágios prolongados em barricas novas francesas e engarrafa-se uma pequena produção (menos de 3 mil garrafas). Tudo isso é muito bom, mas qualquer um sabe que fazendo isso o preço do produto irá aumentar substancialmente. E o que se espera em contrapartida? Um vinho muito melhor, no mínimo. O problema é que eu não vejo a qualidade intrínseca do vinho evoluindo no mesmo ritmo que é alardeado pelo mercado em publicidades e artigos na imprensa.

      Por exemplo, um recente artigo publicado pelo Jornal Valor Econômico com o pretensioso título “Os vinhos nacionais entram na disputa do mercado de luxo” apresentou alguns dos novos representantes dessa onda do “vinho de luxo”. Um dos vinhos mencionados nessa matéria é um lançamento da Miolo, o Sesmarias, que será comercializado por mais de R$200. Sim, isso mesmo! Se até então o “vinho ícone” da Miolo era o Lote 43, que já estava acima dos premium e ultrapremium, a pergunta que fica é: onde será posicionado o Sesmarias? “Supermega platinum ícone” ou alguma coisa estapafúrdia do gênero. Verdade seja dita, o mercado vitivinícola brasileiro sequer amadureceu para a produção de vinhos acessíveis (R$12 a R$35) de boa qualidade, como vai conseguir competir no mercado de luxo com vinhos acima de R$180? Sinceramente para mim isso é marketing vazio. De todo modo as vinícolas não saem prejudicadas de estratégias ousadas como essa, pelo contrário só crescem. O recado é: muito cuidado para não comprar gato por lebre.

      Abraço

  • http://www.quintadacanta.com.br Sergio Lima

    Gostei muito do comentário. Tenho um pequeno restaurante na Serra da Cantareira e muita gente me pergunta por que eu não tenho nenhum tinto brasileiro em minha carta. Já tentei, mas é isso: Um bom vinho brasileiro como o Miolo 43 ou o Salton Desejo custa muito caro e cai numa faixa em que os outros preferem os argentinos como o DV Catena ou um português como o Quinta da Padrela.
    Sei que os vinicultores brasileiros sofrem com o alto imposto taxado pelo governo, mas eles tem que dar um grito se quiserem ser competitivos.
    Sergio Lima

  • Antonio

    Excelente comentário sobre os vinhos brasileiros na Itália, não há o que acrescentar.
    Sobre o Lote 43, já havia comentado no post do Salton Talento que a Miolo conseguiu me agradar com o vinho, realmente a baunilha logo apareceu no nariz, um vinho bem equilibrado, que não faz passar vergonha. MAS, seu preço é hipervalorizado, desestimulando-me a beber este vinho uma segunda vez.
    Saudações!

  • http://joseeduardo.wordpress.com/ José Eduardo

    Excelente artigo esse que reflecte o que se passa com muitas degustações que acontecem um pouco por todo o mundo. Estão de novo de parabéns!