Os vinhos brasileiros mostram a sua força

Nada melhor que começar o ano de 2014 com uma bela viagem, ainda mais quando se trata do nosso país. Por isso, quando recebi o convite do IBRAVIN para participar de um tour pela Serra Gaúcha, não pensei duas vezes. Primeiro, nessa época do ano a vindima deixa o clima da região ainda mais festivo, e as paisagens repletas de cor; segundo, seria uma grande oportunidade para me atualizar sobre as últimas novidades do vinho brasileiro. Afinal, minha última passagem por essa região já data mais de 12 anos! Sim, já faz tempo! E não pensem que eu não curta essa região. Muito pelo contrário, foi na Serra Gaúcha que em meados dos anos 90 fiz minhas primeiras incursões por vinícolas. Lá conheci rótulos emblemáticos da época produzidos por grandes companhias como: Aurora, Baron Lantier, Forestier e Granja União. Em tempos que as gôndolas não tinham muita variedade de produtos importados, aquilo tudo me encheu os olhos e só fez aumentar a minha curiosidade por essa incrível bebida. Entre o final dos anos 90 e início de 2000, tive a oportunidade de conhecer algumas pequenas vinícolas do Vale dos Vinhedos que começavam a se destacar pela produção de vinhos com uvas vitis viníferas como: Miolo, Casa Valduga e Don Laurindo. Tenho orgulho de dizer que a Serra Gaúcha teve um papel importante na minha iniciação no mundo do vinho, razão pela qual tenho um carinho especial por essa região, seu povo e sua cultura.

Vinícola Miolo - Vale dos Vinhedos

Vinícola Miolo – Vale dos Vinhedos

Contudo, apesar de todo respeito que sempre tivemos pelo trabalho desses empreendedores da indústria vitivinícola gaúcha, durante vários anos que escrevemos no Qvinho, procuramos ter uma postura muito isenta e clara ao falar dos vinhos brasileiros (leia alguns posts). Não foram raras as situações que tecemos críticas não muito favoráveis a rótulos nacionais, o que desagradou muitos ufanistas de plantão. O fato é que a propria criação do Qvinho, em 2007, surgiu pela necessidade de expor uma opinião diversa da imprensa especializada “baba ovo”, e não tardou para que o blog chamasse a atenção de consumidores e profissionais do setor. Hoje, vejo com clareza que trilhamos o caminho certo. O mercado amadureceu bastante nos últimos anos, centenas de blogs e publicações especializadas pulverizaram conhecimento; o interesse dos consumidores sobre o assunto vinhos só aumentou, ao mesmo tempo essas pessoas ficaram mais participativas e críticas. Nesse cenário, os profissionais da indústria do vinho, no Brasil e no exterior, se viram obrigados a correr atrás de melhores resultados.

Merlot quase pronta para a colheita nos vinhedos da Pizzato - Vale dos Vinhedos

Merlot quase pronta para a colheita nos vinhedos da Pizzato – Vale dos Vinhedos

Bom, mas você deve estar se perguntando por que desta história? Simples. Não é difícil perceber que hoje os produtores gaúchos estão com uma visão mais aberta e consciente sobre seus produtos. Muito da soberba de 10 anos atrás, cedeu espaço para a humildade. Cada vez mais enólogos estão buscando conhecimento fora e fazendo benchmarking. Talvez porque uma nova geração esteja tomando a frente dos negócios querendo fazer diferente de seus pais e avós. Por questões históricas e culturais, não podemos esquecer que grande parte da produção no Rio Grande ainda são vinhos de mesa feitos com uvas americanas e híbridas (212 milhões de litros), contra apenas 20 milhões de litros dos vinhos finos (uvas viníferas).

Espaldeiras de viníferas da Casa Valduga - Vale dos Vinhedos

Espaldeiras de viníferas da Casa Valduga – Vale dos Vinhedos

E a constatação não poderia ser mais óbvia: as famílias ainda ganham mais dinheiro vendendo vinho a granel e de garrafão. Porém, a quebra de paradigma para se focar nas variedades viníferas vem acontecendo aos poucos. Muitas vinícolas de boutique já contam apenas com vinhedos de vitis vinífera, assim como grandes investimentos tem sido feitos nas novas fronteiras do vinho: Campos de Cima da Serra, Serra do Sudeste e Campanha. E diga-se de passagem, provei vinhos de ótima qualidade provenientes dessas regiões. Neste post vou explorar alguns tópicos que ajudem a resumir o cenário atual do vinho gaúcho. Não vou, pelo menos nesse artigo, falar sobre os produtos da Serra Catarinense e Vale do São Francisco, que futuramente serão abordados no blog

O espumante ainda é a maior referência de qualidade do vinho brasileiro?

Sim. Nesse momento, a qualidade dos espumantes e moscatéis brasileiros é inquestionável! Tanto espumantes feitos pelo processo tradicional quanto os Charmat impressionam por sua complexidade e ótima relação qualidade/preço. Nessa arena, a região da Serra Gaúcha reina absoluta. As condições climáticas da região que são um grande desafio para a produção de tintos, costumam ser muito favoráveis para Chardonnay e Pinot Noir colhidas precocemente para fazer um vinho base com grande acidez, fator essencial para produção de bons espumantes. Em algumas sub-zonas específicas como na Indicação de Procedência Pinto Bandeira, os espumantes ganham um caráter ainda mais fino e complexo, sempre marcados por uma acidez vibrante. Vale destacar os belos produtos de vinícolas como Don Giovanni, Valmarino e Cave Geisse.

Cave de espumantes da Don Giovanni - Pinto Bandeira

Cave de espumantes da Don Giovanni – Pinto Bandeira

Quanto aos espumantes Moscatel, injustamente taxados de vinhos inferiores, de “mulherzinha”, também é possível encontrar dezenas de rótulos de excelente qualidade. Dádivas, Domno, Valontano, Don Laurindo são apenas alguns exemplos de espumantes frescos e deliciosos. Em grande parte, o sucesso desses vinhos deve-se a excelente adaptação da aromática uva Moscato Branco na região da Serra Gaúcha. Numa degustação as cegas, não seria difícil que esses rótulos superassem muitos Moscato D’ Asti DOCG. Talvez com o tempo esses produtos consigam ganhar mais espaço junto a bebedores mais experientes.

O espumante da Serra Gaúcha já conquistou os gosto de brasileiros e estrangeiros

O espumante da Serra Gaúcha já conquistou os gosto de brasileiros e estrangeiros

E o vinho tinto, quais a chances de se tornar a grande estrela nos próximos anos?

As perspectivas são muito boas. Visto como patinho feio por especialistas e críticos (categoria na qual me incluo), o vinho tinto – principalmente de regiões como a Campanha, Serra do Sudeste e Campos de Cima da Serra – começa a despontar por sua qualidade. Aproveitando para pegar um gancho com o título do post, não acredito qua a vocação sejam vinhos superpremium, como ainda insistem algumas vinícolas, que fazem uso de recursos dispendiosos (longo estágio por barricas novas, garrafas parrudas, rolhas de cortiça e rótulos caros) para agregar valor ao vinho. Acho que o caminho está mais para os vinhos de entrada e intermediários, com boa expressão de fruta e jovialidade. Ou seja, vinhos mais autênticos que expressem o terroir da região, sem exageros de maquiagem.

Vinhedo de Marselan da Larentis - Vale dos Vinhedos

Vinhedo de Marselan da Larentis – Vale dos Vinhedos

Também é valido destacar o trabalho desenvolvido em prol da tipicidade e do aumento da qualidade dos vinhos da Serra Gaúcha com o estabelecimento da Denominação de Origem (DO) Vale dos Vinhedos, e as Indicações de Procedencia (IPs) Altos Montes e Pinto Bandeira. Claro, não é novidade que as condições climáticas na Serra estão longe de ser ideais para a produção de vinhos tintos. O ponto ideal de maturação nem sempre é atingido, – principalmente das uvas de ciclo tardio como a Cabernet Sauvignon -, já que no período de colheita costuma ser bem chuvoso e úmido, e com pouca amplitude térmica entre o dia e a noite. O resultado muitas vezes são vinhos verdosos, cheios de piracina; e não raro muitas vinícolas apelavam para recursos como chaptalização e osmose reversa para conseguir mais concentração e álcool. Por outro lado, as variedades de ciclo mais curto e médio como a Merlot, a Cabernet Franc, a Marselan e a Tannat tem mais chances de alcançar uma concentração fenólica ideal e produzir vinhos bem interessantes.

A moderna Luiz Argenta que adquiriu o histórico vinhedo da Granja União. Hoje, a propriedade integra a IP Altos Montes.

A moderna Luiz Argenta que adquiriu o histórico vinhedo da Granja União, localizado em meio a cidade de Flores da Cunha. Hoje, a propriedade integra a IP Altos Montes.

Já na região da Campanha não há dúvidas de seu potencial para a produção em grande escala de excelentes vinhos tintos. Em Candiota, por exemplo, onde várias vinícolas estão com vinhedos, encontramos uma das regiões com menor índice pluviométrico do Rio Grande do Sul, sem falar da sua alta taxa de insolação, ventos constantes; com estações do ano bem definidas, marcadas por verões quentes e secos. Pra falar a verdade, os brancos tranquilos e espumantes não me chamaram a atenção, achei um pouco monótonos, faltando frescor e elegância, mas fiquei bem surpreso com a qualidade dos tintos. De modo geral, são vinhos com boa concentração e aromas de fruta madura bem expressivos. Desde os rótulos das vinícolas mais tradicionais até aqueles da nova geração encontramos excelentes produtos, como: Peruzzo Cabernet Sauvignon/Merlot 2008, Casa Valduga Raízes Gran Corte 2010, Guatambu Cabernet Sauvignon 2011, Almadén Vinhas Velhas Tannat 2012.

Da nova geração de vinícolas, a Peruzzo da região da Campanha.

Da nova geração de vinícolas, a Peruzzo da região da Campanha.

Mas, como nem tudo são flores, o calor excessivo, também traz alguns riscos. Em certos vinhos, é comum encontrar aquelas notas de fruta cozida e geleia, além de uma estrutura pesadona e flat demais. Agrônomos e enólogos deverão ter uma atenção especial para cuidar com a produtividade elevada das vinhas e o timing da colheita, de modo a não perder a acidez natural e o frescor dos vinhos. Só para citar um exemplo, recentemente a vinícola Bueno Bellavista (sim, aquela do Galvão) contratou o enólogo e consultor italiano Roberto Cipresso para dar novos rumos na operação (vale a pena ver o vídeo e as recomendações de manejo do vinhedo que ele passa. Repara a produtividade, é de encher de orgulho qualquer nonno).

Numa das regiões mais frias e altas do Brasil, em Campos de Cima da Serra, a implantação de vinhedos é relativamente nova, mas já é possível provar vinhos com boa personalidade. Os solos pobres e bem drenados, numa zona fria e de elevada altitude (1.000 metros), propicia uma maturação lenta das uvas. Hoje, 6 produtores possuem apenas vinhedos no município de Muitos Capões, sendo que a vinificação ainda é realizada em estruturas na Serra Gaúcha. Vale a pena provar vinhos como o Aracuri Merlot 2009, com uma breve passagem em carvalho de 3 meses (40% do vinho), fecha um conjunto muito harmonioso, com fruta madura fresca e taninos finos. Outra grata surpresa dessa vinícola é um Sauvignon Blanc 2012, nariz gostoso, cítrico, com uma deliciosa sapidez e mineralidade na boca. O RAR Pinot Noir também é agradável, embora o carvalho incomode um pouco; ainda prefiro o corte RAR Cabernet/Merlot.

Muito fresco e gostoso de beber, o Sauvignon Blanc da Aracuri, de Campos de Cima da Serra, foi uma surpresa agradável.

Muito fresco e gostoso de beber, o Sauvignon Blanc da Aracuri, de Campos de Cima da Serra, foi uma surpresa agradável.

A Lidio Carraro é outra vinícola com a filosofia de produzir vinhos mais autênticos, sem passagem por madeira, que expressem ao máximo as características do local onde são produzidos. Além da Serra Gaúcha ela apostou em vinhedos em Encruzilhada do Sul, na região da Serra do Sudeste. Graças a estudos realizados no anos 80, a família se animou a investir na região, e a primeira safra em 2004 confirmou as expectativas. A qualidade dos vinhos é excelente, desde as linhas de entrada como Agnvs e Dádivas, até a premium como Singular e Grande Vindima.

No próximo post vou comentar sobre o potencial do enoturismo na região, além dos vinhos que mais me chamaram a atenção nessa viagem, com boas dicas de onde ficar e comer. Não percam!

* Jackson Brustolin viajou para o Rio Grande do Sul a convite do Instituto Brasileiro do Vinho – IBRAVIN, para participar de um tour de promoção do vinho brasileiro “Projeto Imagem” durante os dias de 18 a 23 de fevereiro.

  • Adelino Bilhalva

    Morde e assopra constante hein. Mas eu apoio. A gente tem que provocar.

    • http://www.qvinho.com.br/ Jackson

      Adelino, exatamente. Gosto de apoiar os produtos brasileiros, porque acho que tem muita coisa boa por aí. Mas também não da só para passar a mão na cabeça e dizer que está tudo ótimo, quando ainda muito precisa ser feito para atingirmos padrões mais altos na produção de vinhos. Abs