Casa Marin

A diversidade é uma das coisas mais fascinantes, caso contrário os vinhos seriam como qualquer outro produto, apenas o resultado industrial da ação humana. Por isso é surpreendente ver em um país como o Chile, repleto de grandes operações vinícolas, uma pequena bodega familiar trilhando um caminho todo particular. A Casa Marin já pode ser considerada uma divisora de águas na vitivinicultura chilena, representante de um novo estilo, não mais baseado naquilo que o “mercado pede”, mas sim nas possibilidades do terroir e na sua justa interpretação por parte dos enólogos. O Chile, em linhas gerais, quer deixar de ser visto apenas como um fornecedor de vinhos de ótima relação qualidade/preço. O Chile quer ser visto como um país de grandes vinhos, reconhecíveis pela sua identidade única. A Casa Marin é o arquétipo mais claro desse ideal.

A história da Casa Marin não é muito diferente de outras vinícolas familiares, sempre mesclada com a vida das pessoas envolvidas. Fundada pela enóloga Maria Luz Marin, visionária e pioneira, uma das primeiras mulheres a estudar enologia numa época em que esse ofício era dominado apenas por homens. A paixão de Maria Luz pelos vinhos começou muito cedo, incentivada pela convivência com seu avô, que costumava oferecer uma colherada da bebida com o pretexto de que faria bem a saúde. Correram vários anos da infância regada a doses medicinais de vinho até o início da vinícola, um sonho perseguido por uma vida. Há cerca de 10 anos foi iniciado o projeto da Casa Marin na localidade de Lo Abarca, um pequeno vilarejo situado no Vale de San Antonio, distante 4km do mar. No início muitos criticaram a ideia de plantar uvas em Lo Abarca, devido as dificuldades oferecidas pela proximidade ao oceano. Contudo, Maria Luz conhecia bem a região, sabia dos riscos, e por outro lado vislumbrou possibilidades nunca antes vistas no Chile.

No ano de 2000 foram plantados os primeiros 25ha de vinhedo divididos por Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris, Gewürztraminer e Riesling. Em 2004 foi construída a bodega, na realidade uma casona de pedra bastante modesta e rústica, sem os refinamentos que vemos na maioria das vinícolas atuais. O segredo dos vinhos da Casa Marin está mesmo no vinhedo, ou melhor, nos diferentes vinhedos que compõem a localidade de Lo Abarca. Cheguei lá dirigindo, vindo de Casablanca, e a primeira impressão que tive foi contundente: esse lugar de colinas acidentadas no meio do nada deve ter algo de especial.

A minha visita foi guiada por Osvaldo Marin, que com muita paciência e calma me levou por todos os “cantos”, explicando cada detalhe dos vinhedos. Fiquei surpreso com a diversidade de microclimas e de terrenos, bem diferente da maioria das zonas vinícolas do Novo Mundo. Em Lo Abarca existem colinas com ventos congelantes, encostas mais protegidas, baixadas frias e úmidas. O solo também varia consideravelmente, da argila pesada a solos mais leves com presença de calcário. A impressão mais evidente que tive foi com relação a temperatura, o vento no topo do vinhedo Cipreses é bem frio, incomum para o padrão chileno naquela hora do dia. O frio é tanto que no vinhedo Lo Abarca Hills (Pinot Noir) existem refratários de calor, necessários em épocas muito frias para não comprometer a maturação da Pinot. Outro problema são as geadas, que infelizmente sempre ameaçam os vinhedos – pude ver de perto o estrago de uma geada ocorrida 2 semanas antes da minha visita.

Os vinhos da Casa Marin são encantadores, os brancos certamente estão entre os melhores do Chile, já os tintos são um capítulo a parte. Pinot Noir e Syrah reinam em Lo Abarca e resultam em vinhos completamente diferentes, de estilos muito antagônicos. O único problema dos vinhos da Casa Marin é o preço, afinal são inegavelmente caros, embora não muito mais caros que rótulos franceses que chegam ao Brasil. Pelo mesmo preço de um Sauvignon Blanc Cipreses dá para levar para casa uma garrafa de um Sancerre de um bom produtor. Adorei o Miramar Syrah, sem dúvida um grande vinho, porém tão caro quanto um Côte Rotiê. Os vinhos da Casa Marin, principalmente os brancos, não devem em nada para muitos vinhos franceses de estirpe, uma pena custarem tanto quanto em terras brasileiras. Existe a linha Cartagena, com preços um pouco mais acessíveis, além da Matisses, que representa a linha de entrada da Casa Marin. São bons vinhos, mas não com o mesmo refinamento dos tops. Todos os vinhos da Casa Marin levam o nome do vinhedo de origem no rótulo.

Casa Marin Sauvignon Blanc Laurel 2009 – R$145

O Laurel é muito sedutor, com aromas complexos de frutas tropicais e cítricas, lembrando maracujá e toranja; algumas notas herbáceas muito finas dão um charme todo especial. Na boca é superequilibrado e fresco, graças a uma ótima concentração e a acidez viva. Longo e delicioso. O vinhedo Laurel fica numa ladeira mais protegida dos ventos, composta por solos argilosos com calcário.

Casa Marin Sauvignon Blanc Cipreses 2009 – R$145

Ao primeiro momento o Cipreses parece mais reservado que o Laurel, mas isso só por alguns instantes, afinal existe uma ótima complexidade nele, típica dos grandes vinhos. Não é intenso e direto como muitos vinhos atuais, porém revelou aromas finos de ervas secas, frutas brancas e notas minerais. Fantástico na boca, exibindo um caráter mais frutuoso que não apareceu no nariz. Acidez deliciosa, talvez ainda mais evidente que no Laurel. Refinado e envolvente. O vinhedo Cipreses fica no topo de uma colina que recebe ventos frios do oceano.

Casa Marin Gewürztraminer Casona 2009 – R$115

Outro branco delicioso da Casa Marin, muito feminino e delicado, porém com uma concentração impressionante. Nariz intenso e muito perfumado, lembrando flores diversas, pêssegos brancos e algumas frutas cítricas. Delicioso na boca, equilibrado e com agradável acidez. O melhor Gewürztraminer chileno que já provei até o momento.

Casa Marin Riesling Miramar 2008 – R$115

Não é fácil acertar com a Riesling, mas parece que a Casa Marin conseguiu um ótimo resultado. Nariz explosivo e intenso, repleto de notas de óleo mineral, reforçadas por frutas cítricas e certos toques de mel. Na boca parece o mais fraco dos brancos da casa, mesmo assim a boa acidez segura as pontas. Final muito agradável.

Casa Marin Lo Abarca Pinot Noir 2006 – R$198

O primeiro tinto que provei da Casa Marin, surpreendentemente encorpado, um Pinot de grande estrutura. Aroma intenso, com muitas notas tostadas e terrosas, frutas vermelhas trazem um certo frescor ao conjunto. Encorpado e denso, com ótimos taninos e bastante álcool (15%), muito embora a acidez de Lo Abarca não deixe o vinho parecer “pesado”. Final de boca agradável e longo. Esse vinho merece um lugar na adega, apesar de estar com muita madeira, acho que pode evoluir muito bem.

Casa Marin Syrah Miramar 2008 – R$198

Um Syrah para entrar naquelas lista de “melhores do ano”. Diferente de tudo que já provei do Chile, simplesmente impecável. Um explosão aromática; pimentas pretas e branca aparecem de imediato, além de frutas vermelhas frescas de incrível frescor e delicadas notas florais. Na boca é pura elegância, muito fresco e sem excessos. Longo, sedutor e delicioso. Fiquei surpreso ao constatar que esse vinho tem “apenas” 12% de álcool.

Importadora: Vinea

Visitas:

A Casa Marin fica na região de San Antonio a pouco mais de 100km de Santiago. Veja a localização exata pelo Google Maps:

Veja o mapa da região

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Este post faz parte da série On the Road 2009. Clique aqui |+| para ler mais artigos sobre o Chile e a Argentina. Clique aqui |+| para ler sobre outras viagens dos editores.

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  • Rodrigo Almeida

    Muito obrigado Jomar, já estamos com reservas da Casa Silva, e de carro também. A dúvida era se realmente pode-se visitar as vinícolas, independente de pagar por pacotes. Posso então fazer reservas com as que mais me interessar diretamente. Muito grato. Bom 2010….

  • Rodrigo Almeida

    Olá Jomar. Estarei na Casa Silva Hospedado inclusive no mês de janeiro. Vc poderia me tirar um dúvida? É preciso comprar os Tours oferecidos pela Ruta del Vino de Colchágua para poder visitar as bodegas?? Pergunto se são obrigatórios, mesmo para acesso simples as dependências de lojas e casas principais das vinícolas?? Grato, Rodrigo