Viña Casa Silva

Os homens sempre fazem comparações, adoram analisar uma coisa frente a outra. No mundinho do vinho é comum ouvirmos indagações como: “qual vinho é melhor?”, ou ainda “qual produtor é mais competente?”. Francamente, as pessoas deveriam aprender a apreciar vinhos e não a gostar do currículo de um vinho. Mas é como eu disse, comparar é humano, talvez por isso seja inevitável afirmar que a Casa Silva foi o destino mais charmoso do QVinho On the Road 2009. Não que outras vinícolas não tenham encantado, porém a Casa Silva reúne uma bodega centenária, uma casa colonial que funciona como hotel, um bom restaurante, vinhedos antigos em uma bela paisagem que contempla até um campo de pólo. Como não se encantar? Sem dúvida a Casa Silva é uma ótima opção de enoturismo.

Tudo começou em 1892 quando Emile Bouchon, um francês de Bordeaux, chegou no Vale de Colchagua com o objetivo de produzir vinho. Plantou vinhas e construiu a sua vinícola, que ainda hoje faz parte da Casa Silva. Nessa época Emile não deveria ter noção, mas foi pioneiro em uma das mais importantes regiões vinícolas do Chile, considerada por muitos como o melhor local do mundo para a variedade Carmenère. Durante décadas os descendentes de Emile comandaram a vinícola, produzindo vinho para outras empresas, sem engarrafar uma marca própria. Foi somente em 1997 que Mario Pablo Silva, pertencente a quinta geração de descendentes de Emile Bouchon, deixou de fazer vinho para outras empresas e começou uma marca própria. Nascia assim a Casa Silva.

Ainda bem que a Casa Silva não é apenas um lugar para turismo, é de fato uma vinícola moderna e com vinhos muito bem feitos. A vinícola em Angostura — micro região próxima a cidade de San Fernando — engloba a antiga construção do tempo do seu fundador, porém foi modernizada e ampliada. Conferimos a câmara fria (usada para resfriar as uvas antes da maceração), as cubas com controle de temperatura em cimento, inox e carvalho, as barricas para pequenas fermentações, as salas climatizadas com diversos tipos de barricas de carvalho, enfim, tudo aquilo que existe de mais moderno para controlar o processo de elaboração dos vinhos. Em Angostura encontramos os fantásticos vinhedos de Sauvignon Gris e Sauvignon Blanc plantados em 1912. As mudas vieram de Bordeaux antes da filoxera, sem dúvida não devem existir outros vinhedos como esse no mundo.

Além de Angostura, a Casa Silva possui vinhedos em Lolol, Paredones (mais próximo ao mar) e Los Lingues (mais continental). Com essa diversidade de terrenos, não foi surpresa descobrir que a Casa Silva faz um trabalho muito sério de mapeamento dos seus micro-terrenos, estudando cada parcela dos vinhedos. O objetivo é identificar as características de cada parcela, melhorando o assemblage dos vinhos. Los Lingues, situada ao norte do Vale de Colchagua e próxima aos Andes, é a região mais favorável para a Carmenère. Uma área com grande diversidade de micro terroirs, que tem mostrado um ótimo potencial para produzir tintos encorpados e sedosos. Além da Carmenère, a Casa Silva também cultiva aqui Cabernet Sauvignon e um excelente Petit Verdot. Lolol, por sua vez, encontra-se no extremo oeste do Vale de Colchagua, a apenas 20 km do Oceano Pacífico. Nessa área as apostas apontam para as uvas do Rhône: a Syrah e a aromática Viognier. Está última desenvolve em Lolol sedutores aromas de pêssego e damasco, embora falte a vivacidade dos bons Sauvignon Blanc chilenos. Paredones é ainda mais próximo ao mar, um novo vinhedo que já produz um ótimo Sauvignon Blanc.

O maestro da Casa Silva é um velho conhecido dos brasileiros, o enólogo Mario Geisse, também proprietário (junto com seus filhos) da Cave Geisse no Rio Grande do Sul. A Casa Silva produz uma ampla gama de vinhos, desde os rótulos de entrada da linha Doña Dominga, passando pela linha Casa Silva (com seus Colección, Reserva e Gran Reserva), até chegar nos top Quinta Generación e no emblemático Altura. Os vinhos mais baratos são honestos e corretos, já a linha Casa Silva começa a apresentar mais concentração, proporcionando uma boa relação qualidade / preço. Os tops são excelentes, com ótima concentração de fruta e potencial de guarda. O Altura é um caso a parte, muito fino e complexo, um vinho que merece um lugar junto aos grandes do Chile.

Casa Silva Gran Reserva Lolol Viognier 2007 – R$60

A linha de brancos da Casa Silva é bem interessante, produzida totalmente com uvas de Colchagua, na contramão da crescente produção em Casablanca, San Antonio e Leyda. Viognier plantado em Lolol numa área de sombra de encosta, mais protegida do vento oceânico. Apenas uma parte do vinho passou em barrica de carvalho (55% por 6 meses), garantindo uma baixa interferência da madeira. Branco muito aromático e denso na boca, pêssegos amarelos e damasco dominam o nariz. Não é particularmente fresco, até porque a Viognier não é dada a muita frescura, em compensação o ótimo aroma encanta.

Casa Silva Gran Reserva Los Lingues Carmenère 2007 – R$60

A emblemática uva do Chile é bem exigente quanto ao terreno, ainda bem que em Los Lingues ela encontra condições ideais de maturação. Esse Gran Reserva é um orgulho para a Casa Silva, apresenta qualidade por um preço acessível. Assim como outros vinhos desse produtor, o carvalho é usado com certa moderação: 80% em barricas francesas pelo período de 10 meses, o resto permanece em cubas de inox. Aroma típico de um bom Carmenère, com frutas negras maduras, cacau e certas notas de café e ervas. Bom corpo e com taninos de ótima qualidade, é macio, porém tem aquele vigor do Carmenere jovem. Um belo exemplar feito com a uva símbolo do Chile.

Casa Silva Gran Reserva Los Lingues Cabernet Sauvignon 2007 – R$60

Independentemente da atual popularidade da Carmenère, o melhor tinto chileno, em geral, continua sendo de Cabernet Sauvignon. Gostei desse Cabernet, que de maneira nenhuma fica atrás do Carmenère. São vinhos diferentes, os taninos desse Cabernet são mais vivos. Aroma de frutas negras com notas sutis de especiarias e eucalipto. Encorpado e robusto, tem bom final de boca, agradável e persistente.

Quinta Generación Branco 2007 – R$115

A região de Colchagua é famosa pelos vinhos tintos, curiosamente a Casa Silva consegue produzir brancos muito interessantes nessa região, tanto com uvas dos vinhedos de Lolol quanto de Angostura. Provei muito Sauvignon Blanc e Chardonnay chileno no On the Road 2009, porém tenho que admitir que o Quinta Generación se destaca, é definitivamente diferente dos outros. Um original corte de Chardonnay, Viognier e Sauvignon Gris, cheio de personalidade e muito elegante. Aromas de pêssegos brancos, flores, um toque mineral e sutil presença de especiarias doces. Bem equilibrado na boca, sem exageros de álcool e com boa acidez. Ótimo final de boca, longo e agradável.

Quinta Generación Tinto 2005 – R$140

Um corte de Carmenère (40%), Cabernet Sauvignon (40%), Syrah (15%) e Petit Verdot (5%), com uvas selecionadas das melhores parcelas de Los Lingues (Carmenère, Cabernet e Petit Verdot) e Lolol (Syrah). Potente e concentrado, aqui o carvalho é empregado com mais intensidade (13 meses em barricas francesas novas), muito embora, como é frequente nos vinhos da Casa Silva, sem sobrepor a fruta. Nariz complexo e ainda um pouco fechado, remete a frutas negras maduras, tabaco e notas tostadas. Encorpado, taninos jovens mas de excelente qualidade. Final de boca seco e longo. O Quinta Generación merece um lugar na adega, afinal só irá melhorar com mais alguns anos de repouso.

Visitas:

A Viña Casa Silva está localizada em Angostura, muito próxima a cidade de San Fernando, em pleno Vale de Colchagua. Para chegar lá saia de Santiago pela Ruta 5 sentido sul até chegar em San Fernando. É possível se hospedar no hotel da vinícola a partir de US$140. Além do hotel, a Casa Silva também possui um bom restaurante.

Veja o mapa da região

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Este post faz parte da série On the Road 2009. Clique aqui |+| para ler mais artigos sobre o Chile e a Argentina. Clique aqui |+| para ler sobre outras viagens dos editores.

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  • Hermes Carlos Bollmann

    Estou para comprar 8 cxs. do Vinho Casa Mayor,(Cabernet Sauvignon) motivo casamento de minha Filha parece que é da Casa Siva, só que a safra é de 2006, e fui orientado para ÑÃO comprar por estar já muito velho e não ser um vinho de Toneis de Carvalho, Correto? Gostaria de uma orientação a respeito. Quem está vendendo aqui no Brasil é a Adega Brasil, outras Adegas me informaram que conseguem Safra 2009 é isso mesmo? da Distr. Orion, OK? aguardo uma orientação. Obrigado

  • http://www.armazemdochurrasqueiro.com.br Luiz Alberto Fiori

    Venho parabenizá-los pelo site. Sou sommelier formado pela ABS e achei os comentários sobre os vinhos muito bem elaborados e com bastante critério. Além de toda a parte gráfica ser ótima também. Salve o vinho!

  • NORBERTO BÉRGAMO

    No início de novembro, estivemos aí e tivemos o prazer de conhecer esta belissima vinícola. O almoço foi excelente e com certeza, regado com um QUINTA GERAÇÃO. No ano que vem estarei novamente no Chile, que é um país extremamente agradável, e retornaremos para a Casa Silva.

  • Gabriel

    Olá, eu não conhecia muito bem os vinhos da casa silva até ontem quando um caminhão carregado com os melhores vinhos da casa silva tombou aqui na BR que atravessa minha cidade que é rota de entrada de importação da argentina e chile para o Brasil. Gostei muito dos vinhos deles e também da reportagem certamente irei passar alguns dias na casa silva.

  • regenio segundo

    ola pessoal, tudo bem !
    Estivemos na vinicola casa silva e ficamos 2 noites no hotel deles, a estadia foi perfeita, ótimos vihos e ótima companhia, só para constar existe um vinho excelente feito pela casa silva que vale conferir, : microterroir carmenére , 2005
    até!!!!!!!!!!!

  • Rodrigo Almeida

    Irei em janeiro para o Chile, e me hospedarei, na Casa Silva. Fora as vinícolas citadas, Montes, Lapostolle, e Santa Carolina, vcs indicam alguma que não seja tão badalada e que surpreenda no vale de Colchagua?? Só iremos eu e minha esposa, vcs tem idéa de quanto dá para trazer na bagagem, e o que trazer?? Muito grato, Rodrigo.

  • Jean Araujo

    Parabéns pela matéria sobre Casa Silva e principalmente pela oportunidade de entrevista com o mestre Mario Geisse. Ele sm dúvida é o ícone do Vinho do NOvo Mundo. Como brasileiro tenho muito oprgulho que ele tb tenha depositado parte de sua sabedoria em território brasileiro, e assim mostrou a todos verdadeiro caminho para a viticultura do sul do Brasil. q

  • http://www.agazeta.com.br/prazerecia Renata

    É a primeira vez que visito o blog. Parabéns. Conheci pelo twitter. Sou jornalista e editora dò Prazer&Cia (www.gazetaonline.com.br/prazerecia), o suplemento de final de semana do jornal A GAZETA (ES), que publica todas as sextas-feiras o roteiro de bares, restaurantes e a agenda cultura do Estado, além de uma coluna de vinhos. Bom vídeo com Mário Geisse.