Degustação às cegas: Gewürztraminer

Não há como negar, para o consumidor moderno, a busca por um caráter varietal prontamente identificável tem sido sinônimo de segurança e satisfação. Ou seja, independentemente da região, quando o consumidor escolhe um rótulo com determinada varietal, ele espera encontrar aromas e sabores já conhecidos e aprovados. Nesse cenário a influência americana, não apenas na produção, mas na criação de demanda, determinou o sucesso de vinhos feitos a partir das variedades como a Cabernet Sauvignon, a Chardonnay e, nos últimos anos, a Pinot Noir. Quem não se lembra do efeito Sideways? Essa americanização além de ofuscar algumas dezenas de variedades de uvas só reforçou a crença cega no caráter varietal como fator único para a identificação do aroma e sabor dos vinhos. Por exemplo, quando falamos da uva Gewürztraminer, imediatamente esperamos a clássica combinação de aromas condimentados e florais.

Pela própria definição, o prefixo “Gewürz”, em alemão, significa “especiaria”. Em regiões com na Alsácia, no Reno ou mesmo no Alto Adige, isso faz sentido, já que a varietal, geralmente, produz vinhos com essas características. Então, por essa ótica varietal se provarmos alguns Gewürz – vamos chamá-la carinhosamente assim – de regiões do Novo Mundo como Chile, USA, Canadá, Austrália ou Argentina sempre encontraremos vinhos perfumados e condimentados, certo? Errado. Para os marqueteiros e toda a indústria do vinho é muito mais conveniente superestimar a importância da varietal, e por conseguinte, encobrir todos os outros fatores que influenciam no resultado final de um vinho, como: terreno, clima, clones, e principalmente, as técnicas empregadas na vinificação. A verdade é que a mesma uva pode ganhar infinitas expressões quando trabalhada em regiões diferentes e por profissionais talentosos, tanto que em uma degustação às cegas, dificilmente você afirmaria que se trata da mesma uva.

A degustação mostrou que os exemplares do Novo Mundo, embora de ótima qualidade, ficaram distantes do que poderia se esperar do perfil típico da Gewürztraminer. A começar pela cor (mais pálida), o perfil aromático concentrado em fruta, e talvez menos especiado, como já era de se esperar. Contudo, isso está longe de ser um problema, uma vez que os vinhos apresentaram outras qualidades. Nesse pequeno painel, sem dúvida, o Rutini Gewürztraminer 2009 foi a grande surpresa. O vinho conseguiu aliar algumas boas características da varietal, com frescor e um ótimo equilíbrio na boca. Por outro lado, longe de apresentar um bouquet perfumado, o Casa Marin Gewürztraminer 2008 apareceu apagado demais – principalmente quando comparado a safra 2009 – na boca também não empolgou e o álcool falou mais alto. Quanto ao alsaciano Paul Blanck Gewürztraminer 2006, apesar do nariz interessante, faltou frescor e equilíbrio. Não sei se o vinho evoluiu bem na garrafa, mas o fato é que o resultado final, para um rótulo de um respeitado produtor alsaciano, ficou abaixo das expectativas. Quem sabe numa futura degustação possamos avaliar um Grand Cru desse produtor.

Fizemos uma degustação às cegas com 3 rótulos de Gewürztraminer:

  • França, Alsácia, Paul Blanck Gewürtztraminer 2006
  • Argentina, Mendoza, Rutini Gewüztraminer 2009
  • Chile, Vale de Leyda, Casa Marin Gewüztraminer Casona 2008

Rutini Gewürztraminer 2009

A Gewürztraminer é uma uva de trato difícil, baixa produtividade, que requer cuidados especiais, tendo em vista a sua maturação tardia, por isso acaba não tendo a mesma atratividade comercial que outras castas. Atualmente apenas duas bodegas na Argentina produzem um Gewurztaminer de expressão, são elas: a Luigi Bosca e a Rutini. Esse Gewürztraminer foi produzido a partir de uvas de uma pequena parcela da região de Tupungato, em Mendoza, 100% fermentado em barricas e maturado outros 4 meses em carvalho francês de 1º e 2º uso. O rótulo foi adquirido em minha última viagem à Argentina, mas não consegui encontrá-lo na lista da Zahil, de qualquer modo se ele chegar ao Brasil na casa dos R$90, é um vinho de ótima relação qualidade/preço. Cor amarelo pálido com reflexos esverdeados. Bouquet de boa intensidade, exuberante de frutas de polpa branca como peras e maças verdes, mescladas com um leve especiado e um fundo mineral. Na boca a boa estrutura e a acidez correta não deixam o vinho flácido. Final limpo, seco e duradouro; agradou do início ao fim da degustação.


Grad. Alcoólica: 13,7%
Preço: 85 pesos
Importadora: Zahil

Paul Blanck Gewürztraminer 2006

A história da Domaine Paul Blanck remonta o ano de 1610, quando a família de austríacos capitaneada por Hans Blanck comprou os primeiros vinhedos na Alsácia. A nova geração, representada por Frederic e Philippe, detêm aproximadamente 36 Ha de vinhedos localizados em 5 principais crus: Rosenbourg, Furstentum, Patergarten, Schlossberg e Altenbourg. O produtor tem fama de fazer bons vinhos com as uvas Riesling, Gewürztraminer e Pinot Gris, principalmente aquelas provenientes dos Crus. Um Gewürztraminer com uma bela cor amarelo-ouro, muito profunda. Nariz perfumado exalando notas de flores, mel e especiarias. No palato é untuoso, levemente adocicado, porém falta acidez. Final pouco balanceado, com elevado açúcar residual e um tanto quanto “gorducho”. Pecou no quesito equilíbrio.


Grad. Alcoólica: 13%
Preço: R$ 120
Importadora: Decanter

Casa Marin Gewürztraminer Casona 2008

A pouco tempo comentamos sobre essa vinícola chilena em nosso On The Road 2009. O belo trabalho desenvolvido como os vinhos brancos, principalmente com a uva Sauvignon Blanc, sem falar no seu espetacular Syrah Miramar, nos motivou trazer uma garrafa do Gewürztraminer Casona 2008. Depois de fazer uma prova completa com vinhos da vinícola, inclusive o Gewürz 2009, confesso que fiquei um pouco desapontado com o 2008. Cor amarelo pálido; com um bouquet tímido, mas gostoso. Um vinho leve e fresco, com um final de boca seco e relativamente curto. O resultado: o álcool acaba falando alto demais.


Grad. Alcoólica: 14,5%
Preço: R$ 115
Importadora: Vinea

  • armando

    Que tal o Casa Marin 2005 por míseros US$ 11,25 no Sineriz, em Rivera. Com seus 14,8% alcool, espero bebêlos daqui a mais uns 5 anos.

  • http://www.vinea.com.br Adriana Fonseca de Souza

    Olá Jackson,
    O valor do Gewürztraminer da Casa Marin é de R$ 93,00.
    Uma característica dos vinhos brancos da Casa Marin é que não perdem suas características fácilmente, ainda evoluem e melhoram na garrafa, como nos explicou Mariluz Marin quando degustamos juntas o Gewürz ( e pudemos comprovar )
    Temos aqui no Brasil o 2007, que está excelente!
    Um abraço

  • http://br.groups.yahoo.com/group/enogastronomia-eventosdomike/ Jandir Passos

    O Gewürztraminer da Rutini tem um bons frescor, leve, aromas de mel, pessegos como você falou. Enfim, um vinho fácil e agradável de se tomar. Paguei 13 dólares no duty free de Carrasco(Uruguay). Só acho que se ele vir a custar aqui 90 reais, por esse preço, em minha opinião não será um bom custo X benfício. Esse vinho custará menos de 10 dólares FOB para o importador, e além disso, trata-se de um País do Mercosul, com tarifas aduaneiras privilegiadas. Então se chegar a 90 reais, acho caro.

    • http://www.qvinho.com.br Jackson

      Olá Jandir, na verdade fiz uma estimativa a grosso modo no preço final desse vinho. O que eu quis dizer é que, mesmo que o vinho chegasse “estourando” nos R$90 (o que eu acho difícil, provavelmente chegaria por menos), ainda assim ele teria um preço abaixo dos outros rótulos que se saíram ainda piores na degustação.

      E concordo com você, R$ 90 é bem caro! Porém, nossos comentários estão dentro de um contexto. Nesse caso ao falarmos de rótulos de Gewrztraminer comparamos as poucas opções sul-americanas dessa varietal, com um outro de região clássica. Nesse cenário, infelizmente, não encontramos bons rótulos (seja de Gewurz ou Riesling), abaixo dos R$60 (preço de varejo), pelo menos não aqui no Brasil. A realidade é que se você quiser provar um Riesling e um Gewurztraminer de qualidade, prepare o bolso.

      Claro, nossa alternativa então é buscar as excelentes opções que temos de rótulos chilenos e argentinos, principalmente de uvas como Sauvignon Blanc, Chardonnay e Torrontés. Porém, nossa ideia também é apresentar coisas, ainda que as sugestões não configurem a melhor relação qualidade /preço.

      Abraço

    • wesley

      consigo esse vinho no brasil?