Degustação às cegas: A Syrah do Novo Mundo

A uva Syrah, ou ShirazSe existe uma variedade de uva de personalidade forte, luxuriante e selvagem, essa variedade é a Syrah. Mesmo que alguns não gostem desse caráter incisivo, preferindo algo mais ameno e tranqüilo, é difícil não ficar seduzido pelos aromas intensos, diretos e exóticos de um bom Syrah. Acredito que a sutileza não seja um traço marcante da Syrah, pois sua elegância está no temperamento forte e na paleta aromática ampla e afável. Os vinhos costumam ser escuros, tendendo ao espectro violeta; a frutuosidade lembra framboesas e cassis, também pode sugerir mirtilo e amoras selvagens. Porém, sempre deve existir um toque empireumático ou defumado; especiarias e cheiro de banhado podem fazer parte do bouquet, além de notas delicadas de flores e laticínios. Os exemplares do Novo Mundo costumam apresentar uma fruta doce exacerbada, enquanto os europeus (notoriamente no Rhône) são mais minerais e frescos.

Fizemos uma degustação às cegas com 4 rótulos de Syrah do Novo Mundo:

  • Austrália, Langhorne Creek: Step RD Shiraz;
  • Chile, Valle del Maipo: Ventisquero Grey Syrah;
  • Argentina, Mendoza: Luigi Bosca Reserva Syrah;
  • África do Sul, Stellenbosch: Fort Simon Syrah.

Seguimos o critério preço, estabelecido no intervalo de R$ 80 a R$ 90 (a exceção é o Luigi Bosca Reserva, que custa em média R$50, mas vamos relevar essa diferença em função do favorecimento fiscal para os hermanos). Outra observação deve ser feita com relação as safras, pois os vinhos apresentaram diferentes níveis de evolução. Além de mim e do Jackson, participaram outras 4 pessoas convidadas por nós que desconheciam completamente os rótulos, sabendo apenas que seriam degustados 4 vinhos feitos de Syrah.

Ficamos felizes em observar as diferenças entre os vinhos. Talvez em razão do terroir desses lugares ou mesmo pelo estilo dos produtores, porém os vinhos foram reconhecidos com certa facilidade. O Ventisquero Grey se entregou de imediato, traído pelas notas herbáceas/vegetais, típicas da maioria dos chilenos (seria influência dos 10% de Carmenere e 5% de Cabernet Sauvignon?). O Step RD com sua fruta muito doce, lembrando licores, denunciou uma maturação extrema, comum em terras australianas. O Luigi Bosca apresentou menos potência que os dois primeiros, exibindo uma frutuosidade mais fresca. O Fort Simon surpreendeu com sua paleta aromática típica, exalando frutas vermelhas frescas, borracha e especiarias, apesar de sua estrutura média.

Em geral, todos os vinhos agradaram, dividindo a preferência dos degustadores. O Ventisquero Grey foi considerado o mais complexo e estruturado; o Step RD agradou aos fãs de vinhos potentes, com sua fruta licorosa e textura densa; o Luigi Bosca Reserva convenceu pela sua harmonia; já o Fort Simon, pela personalidade mais original e frescor.

A grande questão fica por conta da harmonização desses vinhos com a comida, já que o Ventisquero Grey e Step RD falam alto demais, além disso, no caso do Step RD ainda temos a questão da sua “doçura”. A combinação mais adequada é carne bovina grelhada ou caça (pode usar tempero e molho a vontade!). O Luigi Bosca é mais fácil, a opção de acompanhar massas ou grelhados de carne vermelha é ótima, mas ainda é possível escoltar muito bem um pernil suíno ou de cordeiro. O Fort Simon é mais versátil na cozinha, acompanha bem um risoto ai funghi.

Step RD Shiraz Langhorne Creek 2003

Vinho australiano Step Road Shiraz Langhorne Creek 2003Nos anos 90 o mundo do vinho passou por uma enorme revolução, e um nome exerceu uma influência poderosa nesse cenário, ultrapassando até mesmo tradicionais potências como a França e a Itália. A surpresa veio da Austrália que remodelou inteiramente a moderna produção de vinhos, entregando o que o mercado mundial mais desejava: vinhos encorpados, redondos, com bouquet aberto, cheio de frutas e notas pronunciadas de carvalho; sem esquecer de excelentes preços. Desde então, os vinhos australianos invadiram as prateleiras e conquistaram o gosto dos consumidores. O rótulo que integrou esse painel, o Step RD Shiraz 2003, é um perfeito representante desse estilo. Localizada em Langhorne Creek a 70km de Adelaide, a Step RD produz ainda outros dois vinhos a base de Shiraz, posicionados um pouco abaixo do vinho avaliado, o First Step e o Black Wing. O Step RD Shiraz não nega as origens, já ao primeiro contato denuncia todo o estilo australiano. Cor rubi com pouca transparência; halo ligeiramente violáceo, lágrimas muito untuosas e tingidas que evocam toda a sua juventude. Nariz bem intenso e doce, lembrando frutas negras maduras, confeitos, eucalipto e licor de cereja. As notas dadas pelo carvalho aparecem já no primeiro plano e com muita força, o que não é de estranhar já que o vinho passa 18 meses em barricas americanas. Na boca é vinoso, potente, com taninos redondos e macios. O fim de boca é longo, deixando uma sensação adocicada e calorosa dada pela generosa presença de álcool.

Muito Bom
Grad. Alcoólica: 14,5%
Preço: R$ 89
Importadora: Wine Company

Ventisquero Grey Syrah 2003

Ventisquero Grey SyrahSe por um lado o “estilo Parker” se fez valer com o Step RD, o que dizer do Grey? Mais do que nunca falou mais alto o caráter Vale Del Maipo. Fiel as típicas notas herbáceas e de mentol, o Ventisquero Grey Syrah, que também possui em sua composição Carménère e Cabernet Sauvignon, foi além, trazendo complexidade e uma dose de elegância. É bem verdade que numa análise mais apressada ele poderia passar por mais um bom blend ou um Carménère chileno. A análise visual revelou um rubi com ligeira transparência, lágrimas untuosas e levemente tingidas. Aroma muito intenso e convidativo evocando notas de mentol, amoras, pimentão e cacao. Ao longo da degustação mostrou sua complexidade revelando toques de borracha, tabaco e um leve tostado. Textura volumosa, taninos finos e uma acidez correta conferem ao Grey um bom equilíbrio. O final de excelente persistência e boa frutuosidade (sem exageros de doçura) acrescenta ainda mais classe ao vinho.

Excelente
Grad. Alcoólica: 14%
Preço: R$ 78
Importadora: Cantu

Luigi Bosca Reserva Syrah 2004

Luigi Bosca Reserva SyrahAté o momento da publicação deste artigo, o Luigi Bosca Malbec DOC liderava o ranking de popularidade do QVinho, provando a boa reputação desse produtor. Recomendo aos consumidores habituais do Malbec DOC provarem o Reserva Syrah, um vinho equilibrado, de personalidade feminina. Exibiu cor rubi com ligeira transparência, halo violáceo e lágrimas persistentes (menos pigmentadas que o Grey e o Step RD). Nariz agradável, de intensidade muito boa, lembrando frutas vermelhas maduras como framboesas e cerejas; notas sutis de ervas secas e tostados, mostrando boa integração com o carvalho. Bom corpo com taninos jovens e suculentos, além de apresentar acidez muito boa. Final agradável, frutado e jovial, finalizando com persistência. O Luigi Bosca Reseva Syrah se destacou pelo seu conjunto harmonioso e agradável, sem exageros de carvalho ou extração, além disso, tem preço mais competitivo.

Muito Bom
Grad. Alcoólica: 14,5%
Preço: R$ 50
Importadora: Decanter

Fort Simon Syrah 2002

Fort Simon Syrah 2002A grande surpresa da nossa degustação foi o Fort Simon Syrah, um vinho produzido em Stellenbosch, tradicional distrito da região vinícola da Cidade do Cabo. O Fort Simon ainda é um rótulo novo no Brasil, todavia exibiu qualidades interessantes em um mercado saturado por vinhos potentes. O Fort Simon Syrah foi o vinho mais “leve” e menos alcoólico desse painel, talvez em função de uma safra mais difícil, mesmo assim, preservando traços marcantes de um bom Syrah. A grosso modo, podemos afirmar que o Fort Simon apresentou-se em posição diametralmente oposta ao Step RD, porém sem deméritos em ambos os lados, apenas uma questão de gosto. A análise visual evidenciou uma cor rubi com transparência, halo tendente ao grená; lágrimas de boa persistência e coloração fraca. Aromas frescos de frutas negras e borracha dominam o olfato; reforçados por nuances de especiarias e toques defumados. O corpo é médio, com taninos bem integrados e acidez agradável. Final com persistência muito boa, levemente seco. O Fort Simon é um Syrah mais próximo do Crozes-Hermitage do Rhône, menos opulento que os outros 3 rótulos, porém mais fresco e original, já que não se encobre sobre os sete véus do carvalho novo.

Muito Bom
Grad. Alcoólica: 12,9%
Preço: R$ 80
Importadora: Dom Quirino

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  • Carlos Rodrigues

    =Z parece que desta vez nao receberei uma resposta.. hehe

  • Carlos Rodrigues

    Jomar muito obrigado pela resposta.
    Bem, como estou me iniciando agora no mundo dos vinhos, pode ser que eu ainda não “saiba”, não sei se essa seria a melhor palavra, apreciar um vinho mais simples, menos encorpado.
    Sem dúvida, nos agradou muito mais um Cabernet Carmen, que possui um estilo Novo Mundo.. porém, recebemos um Pinot Noir de presente que embora eu pense ser de uma faixa de preço mais elevada (Se não me engano a chamava-se Amayna) gostamos muito!
    Duas perguntas: como em minha família toda semana eu e minha mãe procuramos tomar um vinho pois, além de ser muito bom ajuda a por a conversa em dia, e este é da linha mais básica deste produtor, para me agradar com um shiraz eu devo procurar um de linha superior?
    Desculpe minha inocência, mas então R$50,00 não é um preço relativamente alto, e eu devo me adaptar à novos valores?
    Afinal uma ou duas garrafas por semana chegam, em média, a 6 por mês e daí supus que R$50,00 era um valor relativamente alto para um vinho do dia-a-dia.

    Grato mais uma vez,

    Carlos Eduardo Rodrigues

  • Carlos Rodrigues

    Realmente gostaria de receber alguma resposta pois este produtor segundo alguns é cotado entre os melhores da Africa do Sul, logo gostaria de experimentar outros rótulos do mesmo, porém para ter uma experiência não satisfatória por um preço relativamente alto, prefiro não arriscar.

    • http://www.qvinho.com.br Jomar

      Boekenhoutskloof é um ótimo produtor. O Porcupine Ridge é da linha mais básica e, pelo que deduzo do seu comentário, você deve gostar de vinhos potentes e intensos. Nesse caso recomendo os chilenos do Vale de Colchagua, são bem mais baratos e feitos num estilo opulento.

  • Carlos Rodrigues

    Interessante, pois ante ontém experimentei um
    Porcupine Ridge Syrah 2008 (Boekenhoutskloof)
    e achei-o bem fraquinho, esperava essa forca,aroma e presença que descreveram nos rótulos acima..
    será que errei na escolha do vinho?
    Grato,

    Carlos Eduardo Rodrigues

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  • IRINEU SANTOS BENEDET

    Gostei muito do Tabali shiraz,ja degustei vários outros,talvez seja pessoal, o achas.

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  • http://www.qvinho.com.br Jomar

    Tomaz, já degustamos o Callia Alta Shiraz-Cabernet. Um vinho bem intenso e direto, mas inferior aos exemplares desse painel:

    http://www.qvinho.com.br/vinhos/argentina/callia-alta-shiraz-cabernet-2006/

  • Tomaz E Robinson

    Comprei um Callia Alta Shiraz 2006, vcs. tem algum comentário sobre este vinho?

  • Wilson C. Filho

    Também gosto muito dos vinhos de Syrah. É uma pena muita gente, por desconhecimento ou medo, ainda escolha só os cabernets sauvignon, malbecs e chardonnays. Excelentes rótulos que voces degustaram, com exceção do sulafricano que eu não conhecia, assino embaixo desses comentários.