Herederos de Marqués de Riscal

Se me perguntassem alguns anos atrás o que eu achava dos vinhos de Rioja, muito provavelmente, teria dito algo como “interessante, para quem gosta de um picolé de carvalho”. Bem, esse era o perfil de muitos vinhos. Nos últimos anos, as grandes cooperativas, focadas apenas na quantidade, começaram perder espaço para pequenos e ousados produtores. Desde então, a Espanha viveu uma verdadeira revolução no modo de fazer os seus vinhos, o movimento “Rioja Rethink” capitaneado por um pequeno grupo de bodegas começou a dar outra cara para o vinho dessa região. Não que aquele velho estilo de vinho ainda não seja feito, ele ainda pode ser encontrado, porém um novo perfil de vinho começou a mostrar que um Rioja também poderia aliar potência com elegância, e fruta perfeitamente mesclada com a madeira.

Cidade do Vinho projetada por Frank Gehry

Em meados de abril, pude confirmar essa tendência quando visitei duas subregiões dessa que foi a primeira apelação a alcançar, em 1991, a mais alta classificação de qualidade espanhola (D.O.Ca.). Meu foco foram algumas bodegas em Rioja Alavesa no País Basco (Artadi e Marqués de Riscal) e Rioja Alta (Marqués de Tomares). E, nesse primeiro post, vou comentar sobre a emblemática Marqués de Riscal, situada no pequeno vilarejo de Elciego.

No interior da bodega original de 1860 se encontra a Catedral, com uma coleção de garrafas de todas as safras já produzidas pela Bodega

Que aprecidador de vinhos já não se deparou em alguma prateleira com aquela garrafa da “redinha dourada” do clássico Marqués de Riscal Reserva? O fato é que a Herederos de Marqués de Riscal é muito mais que uma grande bodega que produz milhões de litros e exporta para 70 países. O pioneirismo sempre fez parte do DNA da Herederos de Marqués de Riscal, em 1858, foi a primeira vinícola a produzir vinhos com as técnicas de Bordeaux, e logo em 1862, foi a primeira a comercializar uma garrafa sob o rótulo “Rioja”, antes mesmo de ser reconhecida oficialmente como uma D.O. Espanhola.

Belíssima vista do Bistro 1860 para o vilarejo medieval de Elciego

Em meio aos vinhedos e a uma pequena vila medieval, eis que surge as formas modernistas e assimétricas de titanium, contrastando com a Cordillera Cantábrica de fundo. Graças a pesados investimentos e um marketing agressivo, hoje, a Marqués de Riscal é um caso bem sucedido de exploração do enoturismo, não só de Rioja, como de toda a Europa. O complexo conhecido como “Cidade do Vinho” é composto pela Bodega Marqués de Riscal, uma das mais antigas de Rioja, construída em 1858; juntamente com o novo edifício (inaugurado em outubro de 2006), desenhado e construído pelo renomado arquiteto canadense Frank O. Gehry, o mesmo do inconfundível Museu Guggenheim de Bilbao.

Não é só no exterior, cada detalhe do design de interiores foi projetado por Gehry.

No coração dessa nova estrutura está o Hotel Marqués de Riscal, a Luxury Collection Hotel, da rede Starwood Hotels & Resorts; bem como o Spa Vinothérapie Caudalie. São 43 quartos e suites com vistas para as belas paisagens da região, um luxo para pessoas que podem desembolsar pelo menos 330 euros/diária. Ah, sem esquecer da gastronomia, muito bem representada no Restaurante Marqués de Riscal pelo Chef Francis Paniego que mescla a tradição da cozinha de Rioja com toques modernos da escola Basca. Paniego foi o primeiro Chef riojano a receber, em 2004, uma estrela do Guia Michelin.

A criatividade da cozinha do Chef Francis Paniego

Outra opção do complexo, aberto para hospedes e visitantes, é o Bistro 1860, onde é possível provar o melhor dos pratos típicos da região com a privilegiada vista para Elciego e para a Serra Cantábrica. Seja para se hospedar, almoçar ou apenas para fazer um tour pela Bodega, a Cidade do Vinho é uma visita obrigatória para quem passa pela Rioja.

Cubas de carvalho para a fermentação dos vinhos premium como o Barón de Chirel

Atualmente, a Marqués de Riscal controla cerca de 1.500 Ha de vinhedos, dos quais 500 Ha são próprios, localizados na D.O.Ca Rioja, nas proximidades dos vilarejos de Elciego, Leza, Laguardia; além de 205 Ha de vinhedos próprios de Verdejo e Sauvignon Blanc na D.O. Rueda.

Alguns dos vinhos degustados do portfólio da Marqués de Riscal

Marqués de Riscal Sauvignon Blanc 2011 – D.O Rueda (R$50)

Produzido a partir de vinhedos introduzidos pela Marqués de Riscal em Rueda, em 1974, esse Sauvignon Blanc mostrou um aroma gostoso e frutado, lembrando frutas cítricas. Na boca é um vinhos fresco e agradável, com estrutura média e um final delicioso.

Marqués de Riscal Rueda Verdejo 2011 (R$50)

O vinho que representa o 1º lugar em vendas de brancos na Espanha, por inonia, é resultado da recuperação de vinhedos que estavam anos praticamente abandonados. Hoje, a Verdejo ocupa uma superfície de 225 Ha na D.O. Rueda. O vinho apresentou bom aroma, em destaque notas de frutas tropicais como pêssego, manga e maçã. Estrutura mediana, frutada e com um certo frescor, muito embora a acidez não seja o ponto forte do vinho.

Riscal Roble Tempranillo 2008 (R$50)

Um projeto da Riscal fora das Denominações de Origem Rioja e Rueda. Esse vinho produzido a partir de uvas Tempranillo da região do Douro, tem uma rápida passagem por barricas de carvalho americano (6 meses), e uma proposta de ser mais leve e frutado. E, é o que se nota, logo ao primeiro contato notas de frutas vermelhas e madeira quase imperceptível. Um vinho fácil de beber, leve, com taninos macios e um final razoável.

Marqués de Arienzo Crianza 2007 (R$38)

O ano de 2007 representou a 1a. safra elaborada pela Herederos de Marqués de Riscal. Não fiz uma comparação direta com os vinhos das safras anteriores, mas o que me parece o estilo do vinho mudou; ganhou mais extração, e com isso, mais corpo e fruta. Na sua composição ainda encontramos a predominância de Tempranillo (90%), com um pouco de Graciano e Mazuelo, provenientes de vinhedos de Laguardia e Elciego, com um estágio de 18 meses em barricas de carvalho americano. Nariz intenso, ainda bem marcado pela madeira, onde pode se notar notas de frutos negros maduros, balsâmico e um tostado. Na boca é encorpado, taninos finos, com um final longo e seco.

Marqués de Riscal Reserva 2006 (R$130)

Outro clássico, que a partir da safra 2006 também começou a ser produzido na estrutura reformada da bodega histórica. Hoje, são cerca de 4 milhões de garrafas/ano que chegam ao mercado desse rótulo, mas não se iludam, apesar da produção gigantesca, é um vinho de excelente relação qualidade/preço. Para sua elaboração são utilizadas uvas de vinhedos de Tempranillo com cerca de 20 anos de idade, e esse Reserva passa pelo carvalho americano 24 meses, e mais um ano na garrafa, antes de chegar ao mercado. Na taça apresentou uma bela cor rubi com transparência, bouquet perfumado, com notas remetendo a frutas negras maduras como ameixas e cerejas, mescladas com café e um agradável tostado. Encorpado, mas com taninos muito aveludados e doces; final longo e seco, o Marqués de Riscal Reserva é um vinho elegante e bem equilibrado com álcool. Esse Marqués de Riscal está longe de ser aquele vinho “bombadão”, pelo contrário, apresenta um ótimo potencial gastronômico e deve ganhar complexidade com mais alguns anos na garrafa.

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A Marqués de Riscal está localizada a cerca de 123km de Bilbao, em plena Rioja Alavesa no vilarejo de Elciego (veja o mapa).

  • Danilo Perciani

    Olá. Post muito bacana, principalmente por expor essas bodegas do velho mundo com um novo caráter na produção de vinhos. Já provei o Arienzo e confirmo o post, trata-se de um belo vinho. Tenho um Tomares 3F em minha adega e vou esperar o post para abrí-la.
    Abraços.