Marqués de Tomares Doña Carmen 2002

Alguns vinhos possuem um encanto especial, um charme que frequentemente associo a fatores não comerciais. As modernas práticas de enologia, a tecnologia e os consultores globais ajudam a elevar a qualidade média, por outro lado, em maior ou menor grau, acabam atendendo a interesses comercias. O resultado desse trabalho pode parecer um tanto quanto similar, independente da origem do vinho. Não sou um cara radical, daqueles que condenam e amaldiçoam os modernismos, também não sou um geek, aficionado pelo novo, simplesmente porque é novidade. Quando o assunto é vinho, gosto mesmo é “dos bons”, de líquidos que satisfaçam numa determinada ocasião ou que encantem por qualidades geralmente bem subjetivas.

Marqués de Tomares Doña Carmen 2002

O Marqués de Tomares Doña Carmen 2002 é um vinho que encanta (e como satisfaz!) e definitivamente, pelo menos por um motivo bem concreto, não se enquadra entre os “comerciais”. É produzido a partir da variedade Graciano – com 10% de Tempranillo – uma uva difícil, exigente, além de ter produtividade baixa. Você compraria (sem referência) um vinho de Graciano? Provavelmente não, mas nem perca o seu tempo, afinal você dificilmente verá um rótulo estampado com o nome dessa uva. O atual business do vinho é imperativo, aos moldes do cinema hollywoodiano, pede sempre os mesmos atores representado os mesmos papéis, é aqui que a Cabernet, a Chardonnay, a Merlot, a Syrah e até a Pinot acabam sucumbindo, vitimadas por canastrices indignas de seus nomes gloriosos. Variedades temperamentais como a Graciano não atendem a interesses hollywoodianos, preferem uma atuação discreta, muito embora marcante, na sua terra de origem, a Rioja.

O Doña Carmen 2002 é um Rioja produzido em Fuenmayor pela Bodegas Unión de Viticultores Riojanos, mais conhecida no Brasil pela sua linha de Cavas, a Don Román, mas que também faz bons tintos com a assinatura Marqués de Tomares (já comentamos sobre esses vinhos).  O vinho é feito a partir de vinhas velhas, plantadas entre 1910 e 1920, com produtividade máxima de 3.000 kg por hectare e maturado por 18 meses em barricas novas de carvalho francês. Apresentou cor granada com halo telha, denotando evolução. Nariz agradável e complexo, com aromas delicados de cerejas em calda, reforçados por notas de couro, tabaco, ervas secas e nuances de carvalho tostado. Ótimo na boca, encorpado sem ser pesado, os taninos e ácidos de excelente qualidade não deixam o álcool aparecer. Final de boa persistência, seco e delicioso. O único obstáculo ao Marqués de Tomares Doña Carmen é o preço, mas levando-se em consideração que se trata de um vinho de tiragem limitada, proveniente de vinhedos velhos, de baixíssima produtividade, veremos que o preço não está fora do que é praticado por outros vinhos de escala muito mais comercial.

Excelente

Rioja delicioso e feminino, um vinho para ter na adega e abrir em momentos especiais.

Grad. Alcoólica: 14%
Importadora: Porto a Porto / Casa Flora
Preço: R$200

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  • ELMO

    Jomar, felicíssimo seu comentário sobre o caráter do vinho, influenciado ou não pela sua “mercabilidade”. De um certo modo, depois de um tempo, passamos a procurar vinhos que cada vez mais se identifiquem conosco. Entendo perfeitamente sua colocação nessa “seriação” dos vinhos, e a crítica hoje anda referenciando isto com o Parker e o Rolland (o que eu particularmente acho injusto quanto ao Parker, mas não tão injusto quanto ao Rolland). Num universo tão amplo de uvas e vinhos, é delicioso fugir do lugar comum com as uvas clássicas e de repente achar algo muito próprio nas menos “prateleirizadas”. Salut! ELMO