Drouhin Oregon Pinot Noir Vs. Salentein Primus Pinot Noir

Quando resolvi degustar e comentar sobre esses dois pinots do Novo Mundo sabia que tinha uma tarefa árdua pela frente. Sim, principalmente se a avaliação a que me refiro for positiva. O problema todo está enraizado num velho preconceito.

Pinot Noir de qualidade é na Borgonha, o resto é história!

Ao me deliciar com esses dois vinhos só me vem uma coisa à cabeça: quanta baboseira! Aliás, frases feitas como essa entre outras banalidades ditas por alguns pedantes que circundam o universo do vinho parecem ter virado lugar comum. É estar numa roda de conversa para ouvir algo do gênero, como se tivessem apertado o botão repeat. Sinceramente, tenho pena de muitos consumidores que ainda vergam-se diante dos oráculos e guardiões do conhecimento que dominam nossa mídia nativa. A impressão que me dá é que alguns desses saudosos aristocratas do vinho acreditam viver no século XIX, ao melhor estilo de um romance de Oscar Wilde. Esquecem os mesmos, que apesar do capricho dessa nobre cepa borgonhesa, vinhos primorosos já são produzidos em regiões como o Oregon, a Califórnia, a Nova Zelândia e até mesmo no Chile e na Argentina.

Tudo bem, ninguém discute que a Pinot Noir na Borgonha desenvolve uma complexidade e elegância extraordinária, principalmente se o vinho for de um Grand Cru de uma renomada AOC. Agora, ficar ovacionando vinhos outstanding como Romanée-Conti, La Tâche e Richbourg, isso já cansou!

É no mínimo curioso que uma região com mais de 60 mil acres, inúmeras AOCs, e centenas de négociants e pequenos produtores, deva toda a sua fama a apenas alguns nomes como: Domaine de la Romanée-Conti, Domaine Leroy, Domaine Dugat-Py, Louis Jadot, Georges de Vogue, Faiveley e Joseph Drouhin.

De fato, a Borgonha não é só isso. Se por um lado determinados vinhos dessa região chegam a ser fabulosos, por outro, milhares de refugos (com preços nas alturas) são motivo de colossais decepções. Eu mesmo já perdi a conta de quanto os engodos borgonheses já levaram das minhas economias. E olha, não estou falando de qualquer produtorzinho ou AOC, mas de rótulos oriundos de Grand Crus (que representam aproximadamente 2% da produção) de produtores que integram a crème de la crème como: Bouchard Père & Fils, Jacques Prieur entre outras estrelas.

Contudo, uma nova geração está resgatando a alma dos autênticos Bourgognes. A resposta veio por meio de clones antigos, menor produtividade e mais cuidado na vinificação, em troca de vinhos com concentração e profundidade. Ou seja, menos ego inflado e mais expressão do terroir. Muito bem, era aqui que eu queria chegar.

Se o movimento de melhorias dos franceses começou exatamente em função da excepcional qualidade de certos vinhos do novo mundo (que conquistaram o gosto dos consumidores), por que tanto desdém para com esses vinhos?

O que serve de benchmark para os franceses, não é digno para figurar em nossas mesas? Ora, isso é esnobe demais. Cabe a nós consumidores e amantes do vinho distinguir os produtos realmente ótimos das patéticas representações alicerçadas apenas em marketing ou glórias do passado.

Os dois vinhos da degustação traduzem muito bem o potencial dessa uva fora da Borgonha e a capacidade de produzir vinhos perfumados e profundos, sem abrir mão da originalidade. Duas regiões frias localizadas nos extremos das Américas, mas com características completamente distintas. Do frio e úmido Vale do Willamette, no Oregon vem o complexo e intenso Pinot Noir de Joseph Drouhin. Ao passo que do frio e seco Vale de Uco, em Mendoza, nasce o delicado e generosamente frutado Primus da Bodegas Salentein.

Domaine Drouhin Oregon Pinot Noir Vs. Salentein Primus Pinot Noir

A degustação foi marcada pela exuberância. Ao contrário do rótulo do Oregon, o Primus mostrou-se mais equilibrado e pronto para o consumo. Por outro lado, o Drouhin revelou complexidade e pedigree típicos de bons borgonhas. Apesar de encontrarem-se em estágios distintos de evolução, posso afirmar categoricamente que os dois vinhos são finos e nobres exemplares de Pinot Noir do Novo Mundo. Ah sim, só tem uma pequena ressalva. Certos vinhos top Sul-Americanos ao ganharem o status de estrelas (ou vinhos ícones como alguns gostam de chamar), também foram vítimas de um efeito perverso: overprice. Isso mesmo, tem muita gente abusando e querendo ganhar muito em cima. Infelizmente nesse rol estão rótulos como o Primus (R$225), Chacra 32 (R$396), Felipe Rutini (R$319), Afincado Terrazas (R$240) e Cono Sur Ócio (R$395).

Domaine Drouhin Oregon Pinot Noir 2005

Vinhedos do Domaine Drouhin no OregonJoseph Drouhin, um dos mais renomados négociants da Borgonha, foi um dos pioneiros desse país a apostar na Pinot Noir fora da França. Fincou suas raízes nos EUA em 1987, mais precisamente, na AVA do Willamette Valley, estado do Oregon. Seus vinhedos de Pinot Noir e Chardonnay, plantados em alta densidade (1m x 1.3m) a partir de clones trazidos de Dijon, ocupam uma área de 36 hectares nas frias colinas de Dundee Hills, numa alitude entre 120m e 243m. A região, com forte influência marítima, é muito chuvosa e alcança uma precipitação média anual de 1.100mm. Entretanto, a bagagem desse experiente négociant borgonhes foi fundamental para lidar com as adversidades típicas da viticultura de clima frio (chuva durante a colheita, geada, subamadurecimento e podridão).

Cor rubi com uma certa transparência e um halo violáceo, o Pinot Noir Willamette Valley 2005 revelou um boquet complexo e exuberante logo nos primeiros instantes. Perfume intenso e duradouro remetendo a frutas vermelhas frescas, violetas, couro e um leve toque de especiarias. Sem falar das elegantes notas tostadas dadas pelo estágio no carvalho. Na boca ainda é um vinho jovem, marcado por uma coluna vertebral vigorosa e taninos evocando uma certa dureza. Final longo e delicioso, com boa presença alcoólica. Diferentemente da safra 2004 de caráter mais feminino, esse Pinot Noir 2005 é muito mais potente e estruturado. Sem dúvida alguma é um vinho que irá melhorar com o tempo (talvez mais uns quatro anos), adquirindo maciez e mais complexidade.

Excepcional
Grad. Alcoólica: 13,9%
Preço: R$ 160
Importadora: Mistral

Salentein Primus Pinot Noir 2004

Vinhedos da Bodega SalenteinOs vinhos das Bodegas Salentein já figuraram em algumas degustações aqui no QVinho. Porém, meus caros leitores, não se enganem, o Primus Pinot Noir destaca-se dos seus irmãos e da maioria dos vinhos argentinos. A linha Primus somente é elaborada nas melhores safras e possui edição limitada para os varietais de Pinot Noir, Merlot e Malbec. Esse Pinot Noir foi obtido a partir de uvas das melhores parcelas da Finca La Pampa, localizada a uma altitude de 1.300m, no Vale do Uco, Tunuyán. E, para extrair o máximo dessas vinhas foram realizadas podas e um manejo rigoroso das plantas que determinaram um baixo rendimento (aproximadamente 1,3 Kg/ planta). Após o cuidadoso processo de colheita e vinificação, o vinho amadureceu durante 10 meses em barricas novas de carvalho francês, finalizando com mais 7 meses na garrafa. Isso tudo sob a supervisão atenta do competente enólogo Laureano Gómez.

O resultado não poderia ser outro senão um elegante e delicioso Pinot Noir, que faz lembrar de alguns classudos Côte de Beaune. Mais acessível e pronto para o consumo que o Drouhin, o Primus Pinot Noir 2004 revelou uma cor rubi com um halo ligeiramente alaranjado, já denotando uma certa evolução. Bouquet muito intenso e marcante, rico em frutas do bosque como framboesas e morango. Agradável frescor dado por notas florais que mesclam-se ao hábil uso do carvalho. A boca reflete um perfil harmônico equilibrado, com taninos finos e de uma sedosidade notável. A ótima acidez e a untosidade reforçam o seu caráter arredondado. Final de boca muito persistente e delicado, apesar de toda sua potência alcoólica.

Excepcional
Grad. Alcoólica: 15,5%
Preço: R$ 225
Importadora: Zahil

  • José Machado

    Olá. Gostei muito dos seus comentários, principalm/e sobre a exacerbação da mídia especializada, sobre os vinhos franceses. Já tomei muitos vinhos altamente recomendados e não senti absolutamente “nada” de tão especial.
    Concordo tbém com o dissabor do “overprice” nos vinhos do Novo Mundo Mundo, que se destacaram em qualidade.
    Agora, gostaria de te perguntar quais as características que deve ter e como reconhecê-las num vinho pronto para o consumo?
    Abraços.

    Jmachado

  • http://br.groups.yahoo.com/group/enogastronomia-eventosdomike/ Jandir Passos

    Olá Jomar,

    Quanto tempo de vida vc acha que o Primus Salentein tem ?

    enoabraços.

  • Carlos Rodrigues

    Mais uma vez parabéns pelas excelentes matérias.
    “Mais acessível e pronto para o consumo que o Drouhin, o Primus Pinot Noir 2004 revelou uma cor rubi com um halo ligeiramente alaranjado, já denotando uma certa evolução.”

    Mais acessível em que sentido, já que o Drouhin é mais barato?
    Embora o Drouhin possa melhorar com uns anos como você disse, para consumo imediato o Primus é mais indicado?
    Desculpe uma pergunta que possa parecer redundante, mas é um preço muito elevado no meu ponto de vista e gostaria de sua opinião.

    Parabéns pela matéria,
    sem dúvida experimentarei um dos dois.

    • http://www.qvinho.com.br Jackson

      Olá Carlos,

      De fato quando fizemos a degustação (Abr/08) o Primus estava mais acessível no sentido de estar pronto para o consumo quando comparado ao Drouhin, e não em termos de preço. Os dois vinhos são caros, mas é interessante comparar e ver como os estilos são completamente distintos. Seria interessante também fazer uma degustação hoje para avaliar como eles evoluíram. Quem sabe não fazemos esse ano.

      Grande abraço

  • Guilherme

    Olá. parabéns pela matéria. Aconselho o pinot noir RAR. produzido em Vacaria-RS. Um produto de muita finesse e delicadeza. O vinhedo fora manejado para produzir 1,5 Kg por planta. envelhecendo em barricas francesas de primeiro uso. Grande vinho.

    Provem! é de mudar conceito perante os vinhos nacionais

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  • aline

    Jackson,

    AMEEEIII a matéria de chocolates com vinho!!! I LOVE PINOT NOIR! O probleminha está no preço desses bons exemplares, não é mesmo? Bjos

  • Wagner Ramos

    Apesar de ser um fã de borgonhas também acho que os franceses e a mídia de modo geral tendem a sobrevalorizar os pontos positivos desses vinhos. É um terreno espinhoso falar de quanto produto ruim é produzido na borgonha. Mas o que interessa é que já são produzidos excelentes pinots no novo mundo. Já tive oportunidade de provar bons vinhos do russian river e Oregon. Parabéns por falar algo inteligente sem cair nas tagarelices de sempre.

  • http://www.manalais.com.br/blog Jemon Brustolin

    Tive a felicidade de degustar o Primus e o Willamette Valley, e realmente fiquei impressionado com os dois.

    O Primus é simplesmente fascinante, o que sem dúvida, me faz pensar se existe racionalidade na afirmação frequente por parte de alguns críticos que desvalorizam impiedosamente os vinhos Argentinos.