Château Léoville Las Cases 2002

Avaliar um grande vinho é sempre uma tarefa complexa, ao contrário de bebê-lo. Mas, o que é mesmo um grande vinho? Essa pergunta costuma iniciar discussões acaloradas entre os apreciadores. Deixando de lado a subjetividade, podemos identificar um grande vinho por alguns critérios bem tangíveis. O primeiro deles é geográfico; todo grande vinho é produzido em uma região demarcada, geralmente de vinhedos muito específicos. O segundo critério é histórico; todo grande vinho possui um legado de avaliações muito positivas. Por fim, o último critério é o resultado da soma dos dois primeiros; o preço elevado. Muita gente com dinheiro disputando uma produção limitada faz o preço subir, uma velha lógica de mercado que funciona como relógio suiço no mundo dos vinhos.

Quem gosta de vinho já está farto de ler e ouvir sobre os grandes, geralmente caríssimos, como esses que apresentamos aqui nesse post. O que todos se perguntam é: Esses vinhos são realmente melhores que tantos outros de regiões próximas, algumas vezes mais baratos? Claro que sim! Assim como Marilyn Monroe será sempre mais bonita e charmosa que aquela colega loira que você acha o máximo. Um grande vinho tem fascínio, assim como uma diva do cinema; não dá para comparar com qualquer coisa. No caso dos vinhos, esse fascínio nunca é por pouca coisa.

Château Léoville Las Cases 2002

É bom lembrar que fascínio não tem preço, porém vinhos de qualidade excepcional têm; e atualmente podem ser comprados por um valor na casa dos 100 dólares (nos Estados Unidos, óbvio). Por 100 dólares podemos encontrar vinhos excepcionais de todas as regiões clássicas, sem dúvida existem muitos que custam ainda menos, mas vamos estabelecer esse teto. Acima disso a balança começa a pender demais para o lado do fascínio.

Esse preâmbulo é para apresentar o Grand Vin de Léoville du Marquis de Las Cases 2002 – grande em todos os sentidos – que comprei pela internet por exatos $99 numa loja nos Estados Unidos. O Léoville Las Cases é um Bordeaux do segundo caldo (na classificação oficial de 1855) produzido na comuna de St. Julien. É um dos chateaux mais antigos de Bordeaux, com uma história que começa em 1638. Em meados do século 17 já era reconhecido como um dos melhores da região, atrás apenas do Latour, Lafite, Margaux e Haut Brion. O Château Leoville Las Cases, atualmente, goza de enorme prestígio, e é comandado com competência pela família Delon, que emprega cuidados meticulosos e alta tecnologia. Robert Parker é categórico ao afirmar que esse château está entre os melhores de Bordeaux, que seu vinho é tradicional e necessita de pelo menos 10 anos de envelhecimento para mostrar todas as suas qualidades. Parker conferiu 100 pontos às safras 1982 e 1986; 99 pontos à safra 2000 e 98 pontos à safra 2005. A revista Wine Spectator também costuma ser generosa, concedeu 100 pontos às safras 2000 e 2005. A safra 2002 que degustamos recebeu 95 pontos do Parker e 94 pontos da Wine Spectator. Apenas para efeito de comparação, a famosa safra 2005 não é encontrada por menos de US$400 (EUA)! O que uns pontinhos a mais não fazem…

Acredito que os leitores do QVinho queiram saber a nossa opinião, não é mesmo? Pois sim, o Léoville las Cases 2002 – um corte de Cabernet Sauvignon (66,7%), Merlot (14,5%), Cabernet Franc (13,9%) e o resto de Peti Verdot – não decepcionou, mesmo sendo muito jovem. Vinhos desse tipo precisam de um preparativo, você não pode abrir um Bordeaux desse naipe e simplesmente servir. O vinho precisa respirar. Abrimos a garrafa para comprovar o seu estado. Ufa! Para nossa sorte não estava com nenhum defeito, mas como previsto, o vinho estava fechado. Decanter nele! Depois de 8 horas começamos a degustação. A cor do Leoville las Cases 2002 era rubi escura, sem nenhum traço de evolução e com lágrimas abundantes. Nariz muito agradável e complexo de frutas negras e caixa de charutos; a boa evolução do vinho no copo vai revelando notas de mentol, minerais e um evidente toque floral. Encorpado e potente, porém sem perder a classe, uma vez que os taninos são abundantes e de excelente qualidade. A textura do vinho impressiona. O equilíbrio é muito bom; nada de álcool em excesso ou falta de acidez. O final é ótimo, longo e persistente. O Léoville Las Cases 2002 é um vinho classudo e refinado que, sem a menor dúvida, terá vida bem longa. Apesar disso, preciso esclarecer ao caro leitor que esse vinho pode frustrar as expectativas, principalmente daqueles bebedores acostumados com os atuais exemplares do Novo Mundo. Refiro-me aos vinhos redondos, frutados e com muito carvalho que existem aos montes por aí. Se você gosta desse estilo, esqueça do Léoville Las Cases, procure por um Bordeaux de perfil mais moderno e modesto.

Valeu os US$99? Com certeza! O problema é que esse vinho chega no Brasil custando muito caro. Já encontrei o Léoville Las Cases por até R$1.600 (safra 2003) e nunca vi por menos de R$700 (safra 2004). Nessas condições não recomendo como uma boa compra, salvo se você for um connoisseur com muito dinheiro e preguiça de viajar.

Excepcional
Um grande vinho. Fruta fresca, complexidade, textura excelente e uma estrutura fenólica para longo repouso na adega. Gostaria de ter algumas caixas para ir curtindo ao longo do tempo.

Grad. Alcoólica: 13,5%
Preço: Adquirido por US$99 nos EUA. No Brasil o preço varia de US$400 a US$900.
Importadora: Várias

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  • Luiz Henrique

    Estou tomando neste momento um Château Léoville Las Cases de 2004.

    Excelente. Sua descrição vale perfeitamente também para este de 2004.

    Com certeza ainda jovem, mas mesmo assim um tremendo vinho elegante.

    Este é para quem gosta e aprecia.

  • LiCa

    Olá leitores. Devo dizer antes de mais nada, que as uvas para esse vinho sao cortadas pelas maos de portugueses, franceses e espanhois. Sim, portugueses. Eu sou uma dessas pessoas.

    Como tal já tive a oportunidade de saborear esse vinho, e tenho a dizer que é no minimo, fenomenal. Tem um bom preço e mereçe-o. Comprimentos.

  • Octávio Gomes

    Olá, como vai?

    Bom, parabéns pela excelente matéria. Gostaria de uma dica de vocês especialistas em vinhos para alguém que assim como eu deseja começar a entender algo mais sobre eles. O que me recomendaria para ler e começar a me familiarizar cada vez mais com a escolha de bons vinhos e de suas respectivas uvas. Muito Obrigado pela atenção

    • http://www.qvinho.com.br Jomar

      Caro Octávio, os melhores livros são: Atlas do Vinho (por Hugh Johnson e Jancis Robinson) e a Enciclopédia do Vinho (Oz Clarke). Pelo menos um desses livros você tem que ter. São completíssimos, recomendo a todos os apreciadores de vinho.

  • http://cronicasdarealidade.blogspot.com Leandro Almeida

    É pena os vinhos franceses chegarem tão caros ao Brasil !

    Um vinho de 30 euros na França custa no mínimo 300 reais no Brasil, é complicado. :(
    A carga tributária nesse país é um absurdo! Encontrei vinhos chilenos na França mais baratos que no Brasil. Como o Cono-Sur Pinot Noir que custava a bagatela de 5,50 euros ! O equivalente a 16 reais com a taxa de cambio de 1 euro para três reais. No Brasil, esse mesmo vinho não sai por menos de 25 reais!!! É difícil de acreditar…

    Como custo-benefício opto sempre por chilenos, argentinos e os urugaios (tannat).

    Recentemente degustei o Calyptra Cabernet Sauvignon Reserva 2003 e achei excelente. Se possível, gostaria de saber as considerações desses nobres blogueiros a respeito desse vinho?

    abraços,

    leandro almeida
    cronicasdarealidade.blogspot.com

  • thiago torres

    Boa tarde pessoal.

    Trabalho com vinhos e participo de uma confraria muito interessante com algumas pessoas da área.
    Gostaria de PARTICIPAR DE MAIS UMA CONFRARIA e estou aqui para fazer um convite a vocês, se alguém se interessar me mande um e-mail: thiagoj.torres@hotmail.com.

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  • rodrigo

    Caros senhores
    Gostaria de aproveitar-me deste nobre espaça e comentar sobre uma degustação q fiz recentemente, com alguns amigos de um vinho chileno.
    Trata-se de um De Martino Alto Piedra, Carmenére, safra 2006. Estive visitando a De Martino em julho deste ano e na visita à vinícola, fomos orientados a ter cuidado ao comprar os vinhos da uva Carmeére que não fossem “top’ de linha, pois, provavelmente seriam ruins. A vinificação com a referida uva ainda é recente no Chilee costuma-se errar-se muito com estes vinhos. Fomos aconselhados , no caso de se tomar um vinho chileno simples,a optar pelo C Sauvingnon, que seriam seus melhores vinhos.
    No final da degustação na De Martino, sua simpática guia nos levou à loja para que se pudesse comprar alguma coisa.
    Foi-me sugerido o vinho citado, como sendo um bom carmenére. As uvas são cultivadas em terroir especial,o Alto de Piedra, há um estágio em barril de carvalho francês de 12 meses.
    Quando “descorchei” o vinho, como eles dizem, ele mostrou uma bela
    cor vermelho rubi, que tingia toda a taça, untuoso, com bom corpo, graduação alcóolica de 13,5%,mas para minha surpresa o bouquet surpreendeu negativamente. Parecia que tinha no nariz um bourbon. Cheiro de baunilha acentuado, parecendo carvalho americano, muita madeira, o que tornou o vinho enjoativo e não se podia identificar com facilidades outros aromas.
    Foi uma experiência decepcionante, para um vinho no qual eu tinha uma boa expectativa, eu o tinha trazido na viagem de volta ao Brasil, para um momento especial. Claro que ñ se tratava de um grande vinho, mas esperava-se tratar de um bom vinho e de passar por um momento agradável ao degustá-lo. Meus convidados foram educados, provavelmente e não teceram muito comentárioe até hoje tenho na memória o bouquet do vinho que chega a dar náuseas.
    Ñ sei se vcs conhecem o vinho, talvezpossam fazer algum comentário q respeito.
    Grato
    rodrigo

  • http://www.qvinho.com.br Jomar

    Paulo, o decanter serve para 2 coisas: separar sedimentos dos vinhos envelhecidos e para oxigenar aqueles vinhos ainda muito “jovens”. O último caso e mais frequente, uma vez que vinhos muito estruturados tendem a “se fechar” na garrafa, necessitando de uma oxigenação para se expressarem melhor. Isso é comum em grandes vinhos de regiões clássicas (Bordeaux, Borgonha, Rhone, Toscana, Piemonte, Douro, etc.), porém os representantes mais caros do Novo Mundo, principalmente de castas como a Cabernet Sauvignon, também necessitam de uma respiração. O procedimento é simples, basta despejar o vinho pelas paredes do decanter, aguardar um tempo (1 hora, 2,… aí vai depender do vinho) e servir delicadamente (assim eventuais sedimentos não irão parar no copo).

  • paulo r. vieira

    Caro Jomar:

    Segue uma consulta e não um comentário. Qual a maneira correta de decantar um vinho? Como se deve mantê-lo no aspecto de resfriamento durante o período que estiver (respirando/decantando)? Quais os vinhos (cepas) mais indicadas para decantação? Agradeço antecipadamente, um abraço.

  • http://www.manalais.com.br/blog Jemon Brustolin

    O Léoville Las Cases é um vinho muito elegante. Sem dúvida, um Bordeaux de destaque.

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  • vanessa

    Esse vinho e maravilhoso , ja tive oportunidade de degusta-lo , parabens

  • http://www.qvinho.com.br Jackson

    Ops, calma lá Alexandre! Muito embora os vinhos custem muito menos nos USA, tem um pequeno probleminha. Essas lojas de e-commerce não costumam fazer entregas internacionais e mesmo que fizessem, no momento da entrada no Brasil configuraria uma importação, ou seja, sujeito a todos os impostos e taxas devidos. Só resta você ou algum conhecido seu trazer os vinhos na bagagem de mão.

    Existem inúmeras lojas que vendem esses vinhos pela internet para entrega nos US e Canadá (desde que a legislação do estado permita a entrega). Você pode localizar várias delas no http://www.wineweb.com

    Abraço

  • http://www.diariodebaco.com.br Alexandre

    Olá meus caros…

    Apenas de curiosidade, em qual loja virtual vocês compraram esse vinho?

    Vale a pena mesmo com o frete de lá pra cá?

    abs!
    Alexandre