Champanhe S de Salon

Sabe aquelas listas do tipo “melhores vinhos do mundo”? Sempre existem divergências, mas alguns vinhos são consenso. Esse é o caso da S de Salon, não somente um champanhe excepcional, mas também um dos grandes vinhos do mundo feito com a chardonnay. Na constelação de Champagne, a S de Salon é uma das estrelas mais brilhantes, muito embora não tenha a mesma “popularidade”  de outros rótulos. Para um neófito, nomes como Don Perignon, La Grand Dame e Cristal parecem atiçar os ânimos com muito mais intensidade. Na realidade, tudo é uma questão de estilo, afinal o champanhe é um produto onde a mão do homem exerce papel fundamental. Mas esse não é caso da Salon, a primeira casa a criar um champanhe com mínima interferência humana, assim como os grandes vinhos da Borgonha.

O Jardim de Salon, em Mesnil-sur-Oger

O Jardim de Salon, em Mesnil-sur-Oger

A champanhe S de Salon nasceu da ideia de um homem: Eugène-Aimé Salon, um playboy de origem champenois, que na virada do século 20 decide criar uma champanhe exclusiva para seu próprio deleite. Eugène ambicionava um vinho excepcional, diferente dos outros champanhes, talvez por isso tenha fugido do óbvio. Comprou terras em Mesnil-sur-Oger, já na época reconhecido com um grande terroir e optou por elaborar um champanhe apenas com uvas chardonnay. Pronto! Em 1905 nascia o primeiro champanhe blanc de blanc e, ainda por cima, feito com uvas de apenas uma localidade. Eugène-Aimé Salon quebrou a lógica básica em Champagne, a do assemblage, técnica elementar para garantir o padrão de qualidade e o estilo das grandes casas, além disso, ousou ainda mais ao incluir o nome do terroir (Mesnil-sur-Oger) no rótulo. Após a Grande Guerra, Eugène-Aimé Salon decidiu transformar o seu hobby em negócio e em 1920 criou a maison Salon.

A próxima safra a ser lançada

A próxima safra a ser lançada

Estive na mítica Salon para comprovar a filosofia do seu fundador. E preciso ser franco, a receita da Salon para produzir um grande vinho é simples: uma uva, um terroir, uma safra e um único vinho. Tudo muito simples, com pouca tecnologia e técnicas bem artesanais. Na Salon não temos como ignorar uma das lições mais básicas da enologia, a de que o vinho é um produto da natureza. A simplicidade enológica da Salon, que não elabora assemblages, não utiliza barricas de carvalho, não faz fermentação malolática e utiliza uma dosagem mínima (6g de açúcar), contrasta com a intrincada natureza do terroir de Mesnil-sur-Oger. O cuvvé S de Salon é a melhor expressão do terroir de Mesnil, feito apenas nas melhores safras, permanecendo por pelo menos uma década nas caves antes de ser liberada para o mercado.

A cave onde descansam as safras antigas de Salon

A cave onde descansam as safras antigas de Salon

Qual o segredo da S de Salon? Primeiramente, a qualidade fantástica que a chardonnay pode atingir em Mesnil-sur-Oger, compatível com os melhores terroirs da Borgonha. Nas grandes safras, que no entendimento da Salon foram apenas 37 no último século, a chardonnay atinge uma maturação excelente, porém com um alto grau de acidez, coisa rara de acontecer em outras partes do mundo. A Salon vinifíca de tal maneira a preservar a acidez cortante da chardonnay, tanto que evitam a fermentação malolática, nesse ponto fica fácil entender outro “segredo” da Salon. A longa maturação sur lie, que dura pelo menos uma década (uma das mais longas em Champagne). Vai saber que tipo de alquimia acontece nesses vinhos, mas o fato é que o tempo cria um novo produto, obra da natureza e da paciência do homem.

A raríssima safra 1943, uma preciosidade da Salon

A raríssima safra 1943, uma preciosidade da Salon

Provei a S de Salon 1999, logo após provar todos os rótulos da Delamotte, que sem exageros, satisfazem muito bem um apreciador de champanhes. O aspecto visual é de um líquido amarelo pálido, com reflexos esverdeados, borbulhas finas e persistentes. O primeiro contato ao nariz foi discreto, mas com a oxigenação o vinho evolui muito bem e, após uns 30 minutos, já exalava um bouquet impressionante. O impacto inicial é de frutas cítricas, como o limão e a toranja, sustentados por um fundo mineral a giz muito agradável. Rolando o vinho no copo fica evidente a sua complexidade, com frutas secas, flores e notas delicadas de brioche compondo uma perfumada paleta olfativa. Na boca a delicadeza da paleta olfativa é substituída por um vigor impressionante, afinal é uma jovem S de Salon, com uma tremenda estrutura mineral para envelhecer por décadas. Com seus 12 anos de idade, fica fácil deduzir que trata-se de um champanhe muito jovem, com certeza só vai melhorar ao longo do tempo. Ao provar o S de Salon 1999 pude perceber a sua personalidade única, refinada e sedutora, diferente de todos os outros champanhes.

S de Salon 1999

S de Salon 1999

A S de Salon é um champanhe caro, nem poderia ser diferente, levando-se em conta a sua produção restrita e baixa disponibilidade. Segundo o site wine-seracher.com, o seu preço médio é de US$393. Aqui no Brasil a importação fica por conta da World Wine, que em seu site está vendendo a safra 1996 pela “bagatela” de R$ 2.000. Sorte de quem pode pagar!