Château Pavie 2004

Geralmente o vinho aproxima as pessoas, estimula a confraternização e a amizade. Mas se existe um vinho que provoca a discórdia, sem dúvida alguma esse vinho é o Château Pavie. Pelo menos entre alguns mega críticos, notoriamente Robert Parker e Jancis Robinson. Há alguns anos o Château Pavie 2003 foi motivo de grande divergência entre esses renomados críticos, de um lado Parker, fã confesso do estilo opulento do Pavie; de outro Jancis, crítica severa aos exageros que supostamente teriam origem em questões mercadológicas. Como pano de fundo temos a questão da padronização, a mão pesada do produtor tentando moldar o estilo de um vinho. Dentro de uma perspectiva histórica, os vinhos de Bordeaux nunca foram escuros, densos e alcoólicos, por isso muita gente critica o estilo atual; acusam os produtores de ceder ao gosto americano. Todo mundo sabe que os americanos gostam das coisas exageradas, e como a terra do Tio Sam é um grande mercado, nada mais natural que pensemos que alguns estejam fazendo vinho “ao gosto do freguês”. O vilão da história é sempre Robert Parker, a personificação do gosto americano, além é claro do seu amigo, o mega consultor Michel Rolland.

Eu, que não sou americano nem inglês, tenho uma opinião diferente. As digressões filosóficas sobre a “verdadeira expressão do terroir” são inúteis. Esqueça as notas dos críticos, sejam elas boas ou más, o fato é o seguinte: o atual proprietário do Château Pavie faz um vinho realmente parrudo, cheio de cor, concentração e taninos. Para quem gosta de uma pegada forte, o Pavie pode proporcionar bons momentos de prazer, afinal é um Bordeaux de excelente terroir, entre os melhores de Saint-Émilion. Para aqueles que gostam de vinhos mais equilibrados e elegantes, com certeza o Pavie deixará a desejar. Trata-se de um colosso, um vinho de grande força e personalidade, para os apreciadores de vinhos potentes.

O Pavie 2004 que provamos foi considerado por Parker – que deu 95 pontos à fera – como “acessível”, isto é, fácil de beber.  Não é bem assim… Apresentou uma cor rubi escura, sem qualquer traço de evolução. Ao nariz demorou para dar o ar da graça, com 3 horas de decanter ainda estava reprimido pela madeira. Depois de 5 horas exalou um bouquet com boa intensidade e complexidade, lembrando licor de cassis, café, cogumelos frescos, tudo reforçado por muitas notas de madeira tostada. Na boca é denso e encorpado, com taninos de alta qualidade, embora ainda agarrem demais. O final de boca é seco e longo. Provamos este Pavie juntamente com outros dois vinhos, o chileno Errazuriz Don Maximiano 2006 e o argentino Cheval des Andes 2006, assim pudemos comparar o estilo “Novo Mundo” do Pavie com vinhos verdadeiramente do Novo Mundo. O resultado foi bem interessante, afinal a maioria dos participantes da nossa degustação às cegas gostou mais do Don Maximiano, um vinho mais acessível, redondo e direto – sem dúvida mais elegante. Quanto ao Cheval des Andes, também mostrou qualidade, exibindo uma bela estrutura de taninos. Por sua vez o Pavie, apesar de ter uma maior evolução, apresentou taninos mais marcantes que seus companheiros, além de mais cor e extração (superior a do Cheval des Andes). Moral da história? Na boca o Pavie é um blockbuster, não foi concebido para ser elegante, mas sim para impressionar pela força bruta. No nariz a história é diferente, também possui uma pegada violenta, mas com a personalidade de um grande terroir, está longe de ser um vinho bombadão qualquer. Gostei do Pavie 2004, com certeza irá evoluir bem, mesmo assim jamais pagaria os preços abusivos (e especulativos) que esses vinhos atingem no Brasil.


Um jovem Bordeaux vigoroso e potente que nesse momento pede comida para ser melhor apreciado.

Importadora: -
Preço: US$ 150 (EUA)
Grad. Alcoólica: 14%

  • Giovanni

    novo site com atendimento de um francês simpático
    http://www.vinhosmillesime.com.br

  • Pingback: Yacochuya 2004

  • http://Facebook Maria de Lourdes Pavie

    Maravilhoso!

  • Pingback: Cheval des Andes 2006

  • paulo roberto vieira

    Caro Jomar, noutra ocasião solicitei orientação sobre a decantação de vinhos robustos e não obtive resposta satisfatória. Aí vai outra vez:
    Se não estou enganado este tipo de vinho deve ser decantado por N horas em temperatura ambiente e, em seguida, quando pronto para beber deve ser resfriado num balde com gelo e agua? Agradeço mais uma vez sua ajuda. Abraços, Paulo Vieira (enófilo por opção).

    • http://www.qvinho.com.br Jomar

      Caro Paulo Roberto, já respondi a sua pergunta uma vez:

      http://www.qvinho.com.br/vinhos/franca/bordeaux-chateau-leoville-las-cases/

      De qualquer forma vou ajudá-lo novamente. A questão da temperatura independe do uso do decanter. Caso você necessite resfriar um vinho já no decanter, leve o mesmo a uma cuba de cozinha com água gelada. Monitore a temperatura para não resfriá-lo demais. Vinhos encorpados como o Pavie devem ser servidos a uma temperatura de 18/19 graus.

  • ELMO

    Aproveitando o comentário do xará ou pseudonimado como o filósofo grego Aristóteles, lanço uma questão evidente: a da uniformização do discurso. Parece que existem, entre os debatedores do vinho mundial atual, duas correntes: uma que não fala nada sobre os vinhos potentes e de grande extração, e outra que sustenta esse repúdio á dupla Parker-Rolland. Acho que evidenciar mais as características organolépticas de um vinho, intensificando seus aromas e sabores, não homogeniza nada. O vaticínio mais acertado é aquele que compreendeu que as degustações às cegas ou mesmo as leigas mas interessadas é que formaram o gosto popular pelos vinhos potentes e extraídos. Se o Rolland gosta de vinificar assim, deu sorte. É uma imensa bobagem imaginar que uma dupla de homens possa mesmo padronizar o palato mundial, por um fato apenas: o percentual de consumidores que conhecem o tal “padrão” que quer ser classificado como imposição do gosto médio é muito pequeno dentro do total de consumidores de vinho. As pessoas bebem, e gostam mais dos vinhos mais intensos, com mais álcool e corpo. É simples, é como a fórmula açúcar-gordura na comida, que ecoa em nossos gentes hedonistas e auto-preservacionistas. Outro prisma ainda deve ser aplicado: quem é que disse que o gosto da elite ou dos conhecedores é o ideal evolutivo dos apreciadores ou bebedores? O vinho, por si só, carrega há algum bom tempo uma certa aura de esnobismo e de entojo. Imagine-se então, quando se constata que os degustadores informais e não especializados, passam a aprovar, empiricamente, vinhos mais extraídos e intensos, como melhores, e de repente se solta a cavalaria dos degustadores “evoluídos” em cima deles para afirmar que é lamentável que eles gostem disso… estamos diante de um reforço péssimo dessa elitização segregacional. Admiro, claro, quem goste dos borgonhas etéreos e elegantérrimos, preterindo, por exemplo, um Priorato mastigável. Mas se o hábito de beber vinho será valorizado e fomentado por este tal “gosto médio”, temos que pensar na questão como um título e não um parágrafo. Vinho é o importante, suas subdivisões é que são questões pessoais. Concordo que as vinícolas, especialmente do Novo Mundo, tenham passado a cumprir a cartilha e ter seu ícone de grande extração para poder bater a casa dos 100 dólares, mas deixemos que os ricaços os comprem em caixas e nos sirvam essas garrafas com churrascos no gazebo de designer que eles possuem. Quanto a achar um Cheval des Andes e um Almaviva muito parecidos, respeito o palato de qualquer um, mas cortes de Malbec, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot (Cheval),. e Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Carmenére e Merlot (Almaviva), merece uma reflexão, mesmo em vinhos bem extraídos, sobre a sensibilidade e “cata” feita dos vinhos.

  • Eloise

    Eu gostei do Pavie, achei um vinho muito diferente e interessante!

  • Renato Ruffo

    Gostei muito do comentario sobre o Chateu Pavie e concordo com as considerações.
    É a primeira vez que entro no site de voces e queria aproveitar para pedir ajuda no que tange a indicação de uma revista mensal de bom nivel, onde eu possa ter indicações e outras informaçoes sobre vinho. Desde ja agradeço, abraços. Ruffo

  • Aristóteles

    O problema da adoção do estilo moderno é que ele deixa os vinhos mais homogêneos: muita extração, álcool em excesso, sem acidez, fruta em demasia… Se é verdade que esse estilo permitiu um grande aumento da produção dos vinhos, tornando-os acessíveis à população, um efeito nocivo é a imposição do gosto médio, ditato sobretudo pelo mercado americano. A questão não é simples e nem mais se resume à controvérsia de novo mundo x velho mundo, já que esse é um fenômeno universal. Esses vinhos não agradam meu paladar, mesmo os exemplares mais reconhecidos, como Cheval des Andes, Almaviva, Chadwik. Acho-os enjoados e entre si muito parecidos. Agora, uma pena é que esse fenômeno está com força em todos os mercados, inclusive no Brasil. Eu lamento quando vejo anunciada a contratação de Michel Rolland pelos nossos produtores.

  • ELMO

    Suquinho de uva qualquer ia arrepiar a nuca dos ingleses, bebedores de Bordeaux e Porto como ninguém mais.. hehe. Realmente, o Parker parece estar se tornando um referencial útil mas de cunho relativo, pois ele pontua este e o Leoville no mesmo patamar (95). Bacana essa coisa de vc assumir um estilo preferido no blog, certamente formado pela caminhada de degustação e atenção. Eu ainda não tenho preferências que desconsiderem a qualidade, ou seja, mesmo um vinho ultrapotente pra mim tem sua hora, especialmente dependendo da comida e da época do ano. Não é nem de longe o seu caso, mas tenho visto muita gente, com certo esnobismo, falar que “prefere a elegância”, como se na evolução do enófilo um dia se deixasse de lado os vinhos potentes e todo mundo se tornasse uma bailarina etérea e suave. Na minha opinião, bom mesmo é transitar em todos os mundos e estilos, sabendo reconhecer qualidade. E é o que tenho visto aqui. Abraço.

  • ELMO

    Jomar, talvez esse vinho precisasse de mais uns 2 ou 3 anos de guarda… o que acha? E que tal dar uma comparada com o Leoville Las Cases, que vcs já avaliaram?

    • http://www.qvinho.com.br Jomar

      Com certeza Elmo, esse Pavie 2004 não é um suquinho de uva qualquer. Certamente irá evoluir bem por pelo menos mais 10 anos. Agora, entre o Leoville 2002 e este Pavie, fico com o Leoville! Tudo é questão de gosto, no caso do Leoville Las Cases 2002, fiquei maravilhado, tem todos aqueles elementos que costumo associar a um grande vinho. O Pavie 2004 tende ao exagero, prefiro a elegância mais contida do Leoville 2002.

  • http://www.vivendovinhos.blogspot.com Cristiano Orlandi

    Parabéns!

    Além de decorrerem sobre o vinho em questão, abordam e apontam pontos muito interessante sobre críticos em geral.

    Gostei muito, esse artigo tá mais para uma coluna!

    Forte Abraço!