Os vinhos de Roero: da obscuridade ao estrelato

Ao lado oposto de Alba, a margem esquerda do Rio Tanaro, encontramos uma das mais interessantes e promissoras zonas vitiviníferas do Piemonte: Roero (veja o mapa). Por muitos anos, a fruticultura desempenhou um importante papel nessa região, desde os morangos e as maçãs, até os famosos pêssegos de Canale e as peras de Madernassa. Hoje, Roero, além de constituir um forte polo gastronômico – já que reúne o headquarter do movimento Slow Food em Bra, e sua Universidade em Pollenzo -, produz uma grande quantidade de excelentes vinhos tintos sob a chancela Roero DOCG (obtidos predominantemente da uva Nebbiolo), além de deliciosos brancos Roero Arneis DOCG.

Capela que dá nome ao vinhedo de Trinità, em Canale

Capela que dá nome ao vinhedo de Trinità, em Canale

Para entender melhor esses vinhos, vale destacar que geologicamente, Roero é um território mais novo que o Langhe, e assim como outras partes do Piemonte, seu solo tem origem marinha. Essa estrutura do solo mais leve e predominantemente arenosa, com baixo percentual de calcário e argila, favorece as uvas brancas como a Arneis, que produz vinhos com muita mineralidade, acidez e elegância. Por outro lado, a região possui uma variedade extraordinária de solos e microclima, o que contribui para o bom desenvolvimento de uvas como a Nebbiolo e a Barbera, principalmente nos arredores das localidades de Canale e Santo Stefano Roero, onde o solo é pobre e apresenta um percentual maior de calcário. Claro, não podemos comparar os Roero DOCG com os primos Barolo e Barbaresco. Embora os vinhos sejam parecidos na acidez e álcool, a estrutura fenólica e a complexidade é obviamente maior nos Barolos e Barbarescos. De qualquer forma, nas provas que realizei com os principais rótulos da denominação – tanto com vinhos jovens quanto envelhecidos – fiquei surpreso com a alta qualidade dos tintos de Roero. De modo geral, são vinhos mais prontos e fáceis de beber, sem falar que custam bem menos que os primos famosos. Contudo, ainda é possível encontrar alguns vinhos um pouco rústicos, e com um certo desequilíbrio, dado a acidez excessiva.

Fantásticos representantes da Roero Arneis: Bricco delle Ciliegie e Malvirà Saglietto.

Fantásticos representantes da Roero Arneis: Bricco delle Ciliegie e Malvirà Saglietto.

A projeção alcançada nos últimos anos pelos vinhos de Roero deve-se em grande parte ao esforço de um pequeno grupo de produtores. Na Azienda Giovanni Almondo, por exemplo, ainda no início dos anos 80, Domenico Almondo aproveitou os 2 Ha de vinhedos do pai e começou a fazer vinhos de Nebbiolo, Barbera e Arneis. Hoje, com a ajuda dos filhos Stefano e Federico, este último enólogo, a vinícola conta com mais de 15 Ha de vinhedos na Comune de Montá D´Alba e produz mais de 90 mil garrafas.

Vinhedos de Arneis do cru Bric delle Cieliegi

Vinhedos de Arneis do cru Bric delle Cieliegi

A partir de um vinhedo com mais de 30 anos, localizado no topo de uma colina, com grande incidência de vento e um solo muito arenoso, é produzido um dos grandes brancos da região, o Roero Arneis Bric delle Cieliegi 2011. Com uma passagem de 7 meses por barricas, o vinho mostrou um perfume delicado, com boa complexidade. Frutas de polpa branca, ervas, mescladas com notas de brioche e amêndoas. Estrutura mediana na boca, muito untuoso, com uma boa pegada mineral. Final longo e delicioso. Outro destaque, proveniente do Bric Valdiana, é o Giovanni Almondo Roero Riserva 2009, um vinho de estilo moderno, com passagem de 24 meses em barricas novas de carvalho francês. Bouquet intenso, remetendo a rosas, tabaco, cacao e especiarias. Potente, com taninos firmes, mas ainda com uma certa adstringência. Certamente encontrará seu ápice dentro de 5 a 10 anos.

Adega Matteo Correggia

Adega Matteo Correggia

Na época em que muitos duvidavam, um jovem produtor chamado Matteo Correggia apostou todas as suas fichas no potencial de Roero para fazer grandes vinhos. Discípulo de Elio Altare, um dos grandes mestres de Barolo, Matteo foi um dos pioneiros a projetar a imagem de alta qualidade dos vinhos de Roero para o mundo, graças a seu Barbera D´Alba Marun 1990. Em 1999, finalizou a construção de uma nova cantina. Porém, depois do seu falecimento prematuro, em 2001, a vinícola passou para as mãos de sua mulher, Ornella. Atualmente, os 20 Ha de vinhedos entre as localidade de Santo Stefano Roero e Canale, produzem belíssimos exemplares de Barbera, Nebbiolo, Arneis e Brachetto.

Roero Riserva Roche d´Ampsej 2008

Roero Riserva Roche d´Ampsej 2008

Seu Roero Arneis 2011 apresenta um elegante bouquet floral, notas de pêssegos; com uma boa estrutura, acidez bem dosada e frescor. Final persistente, perfeito para acompanhar uma série de pratos. O clássico que deu fama a Cantina, impressiona logo ao primeiro contato. O Barbera D´Alba Marun 2010 revelou um aroma intenso e muito elegante, remetendo a amoras, cerejas e balsâmico, com madeira muito bem integrada. Na boca é encorpado, com boa estrutura tânica, um agradável fundo mineral. Ainda jovem, esse Barbera é realmente excepcional, e possui um ótimo potencial de guarda. Já o 100% Nebbiolo, Roero Riserva Roche d´Ampsej 2008, é outro fantástico rótulo da vinícola. No nariz, um perfume encantador, com destaque para ameixa, cerejas, rosas e algo especiado, emprestado pelos 18 meses em barricas novas. Encorpado, taninos finos e macios, num conjunto muito harmônico entre acidez e álcool. Final longo e delicioso! Também ainda muito jovem, deve melhorar nos próximos 5 anos.

Villa Tiboldi cercada pelos vinhedos de Trinità

Villa Tiboldi cercada pelos vinhedos de Trinità

Outros dois empreendedores que acreditaram em Roero foram os irmãos Roberto e Massimo Damonte, da Azienda Malvirà. O forte investimento na propriedade herdada do pai, além de novas aquisições como a Villa Tiboldi, fazem dos irmãos Damonte uma referência, não só em termos de promoção dos vinhos roerinos, mas também de todo o agriturismo da região. Os vinhedos estão espalhados por 42 Ha nas localidades de Canale, Monteu Roero, Castellinaldo e Montà, e a produção da vinícola alcança cerca de 380 mil garrafas/ano. O Malvirà Renesio Arneis 2008 é resultado de um de seus mais renomados vinhedos velhos de Arneis, chamado Renesio, situado numa colina de 300 mt de altitude, em um solo calcário-argiloso. Com passagem apenas por aço inoxidável é um vinho fresco, com um bouquet floral e frutado. Boa presença de boca, final levemente mineral e muito persistente. O bom trabalho nos vinhedos e na cantina também garante tintos originais e gostosos de beber. É o caso do Roero Riserva Trinità 2008. Com estágio de 24 meses em barricas de 450l de segundo e terceiro uso, o vinho mostra uma bela cor grená, com um intenso e perfumado bouquet. Frutas frescas como cerejas e amoras, além de notas minerais e florais. Em nenhum momento o carvalho ofusca a pureza da fruta. Muita potência, taninos finos e macios, num final duradouro.

Outros vinhos recomendados na seleção do QVinho

Valfaccenda Arneis 2011
Depois de alguns anos de experiência na Nova Zelândia e na Itália, o jovem enólogo Luca Faccenda voltou para suas raízes em Canale, e assumiu um novo desafio com a sua pequena vinícola Valfaccenda. O Arneis 2011, em sua segunda safra, é obtido a partir de um blend de dois vinhos. Para dar estrutura e mineralidade, 30% é proveniente de um vinhedo com mais de 60 anos, que faz fermentação (em contato com as cascas) em cascos de madeira. E, para dar frescor e acidez, 70% vem de um vinhedo de 20 anos, localizado num solo arenoso de exposição leste. O resultado desse mix é um vinho delicioso! Perfume de intensidade média, lembrando pêssegos. Ótima presença na boca, mineral, com excelente acidez, e um final longo.

O enólogo Luca Faccenda apresentando seus vinhos

O enólogo Luca Faccenda apresentando seus vinhos

Onde ficar e comer:

Villa Tiboldi
Cercada por videiras de Arneis e Nebbiolo, a antiga Villa completamente restaurada, abriga hoje uma luxuosa estrutura de agriturismo. Os quartos são amplos, cuidadosamente decorados e aconchegantes. E, o melhor de tudo, ao abrir a janela nos deparamos com uma exuberante paisagem dos vinhedos de Trinità, um convite perfeito ao relaxamento e a meditação.

Privilegiada vista dos quartos de Villa Tiboldi

Privilegiada vista dos quartos de Villa Tiboldi

A imersão na gastronomia local já começa no café da manhã, onde são servidos deliciosos tipos de queijos, frutas, compotas e pães. A programação para os hóspedes pode incluir desde passeios de bicicleta e Vespa pela região, visita a Cantinas, cursos de gastronomia até um picnic em meios aos vinhedos. Como se tudo isso não bastasse, Villa Tiboldi ainda conta com um dos melhores restaurantes da região.

Roberto Damonte recebendo convidados no Tour enogastronômico no cru Renesio

Roberto Damonte recebendo convidados no Tour enogastronômico no cru Renesio

A frente da cozinha está do chef Alberto Macario que interpreta os pratos clássicos da cozinha piemontesa utilizando matéria prima da melhor qualidade de produtores locais, bem ao estilo Km 0 (onde a produção dos alimentos e o consumo acontecem quase juntos). Além dos pratos a la carte, é possível optar por um Menu Degustação de quatro pratos mais sobremesa por 45 euros; e caso você queira acompanhar esse menu com quatro vinhos (o que é altamente recomendável), o valor sobe para 65 euros, com água e café inclusos. Vale a pena provar pratos como o Baccalà con crema di patate e salsa verde, e inesquecíveis sobremesas como a Panna Cotta e o Bunet. Comparado com outros restaurantes das badaladas Barolo e Barbaresco, Villa Tiboldi é um achado. A casa oferece comida excepcional, serviço atencioso e preços justos.

Em novembro o Tartufo Bianco é a grande estrela

Em novembro, o Tartufo Bianco é a grande estrela

Case Sparse Tiboldi, 127 – 12043 Canale (Cn)
www.villatiboldi.it

Leia também:
Redescobrindo o Piemonte – Parte I
Redescobrindo o Piemonte – Parte II