Redescobrindo o Piemonte – Parte II

No post anterior apresentei um panorama do vinho no Piemonte, destacando as principais tendências na produção de vinhos dessa incrível região. A partir de agora, vou selecionar alguns dos pontos altos dessa viagem, que certamente interessarão aos fãs dos vinhos italianos. Vale destacar que a minha maratona enogastronômica não poderia ter começado num lugar melhor. Localizada em Alto Monferrato, longe das ordas de turistas, a bela e encantadora Acqui Terme é um dos mais belos retratos de como é divertido conhecer o Piemonte. A cidade descoberta pelos romanos, famosa por suas águas termais que brotam a uma temperatura de 75°C, é a porta de entrada perfeita para descobrir os caminhos do vinho de Monferrato. Em Acqui Terme ainda é possível sentir a verdadeira atmosfera de uma villa italiana, onde seus habitantes se reúnem na praça principal, após a missa domenical, para jogar conversa fora e tomar um aperitivo.

As cores do outono em Acqui Terme

As cores do outono em Acqui Terme

Muito próximo dali, a cerca de 7 km ao norte, está a pequena localidade de Strevi, reconhecida por seus excelentes Moscato Passito, que sairam da condição de vinho de tavola e alcançaram o status de DOC Strevi. Nessa área encontramos vinícolas históricas como a Marenco, hoje na gestão das irmãs Patrizia, Michela e Doretta. A Marenco conta com 90 Ha de vinhedos localizados em areas privilegiadas em Alto Monferrato. Não deixe de fazer um tour pela vinícola, que também inclui a prova de vinhos acompanhada de produtos típicos de primeiríssima qualidade como o fantástico Filetto Baciato di Ponzone. Entre os rótulos da casa, vale a pena destacar o belíssimo trabalho no Barbera d’Asti Ciresa, muito macio e equilibrado; já o Brachetto D’Acqui Pineto, mostra-se como uma agradável opção de aperitivo, graças a sua leveza e frescor, associado ao seu intenso aroma de rosas e frutas vermelhas maduras; sem esquecer do tradicional Moscato Passito, muito bem representado pelo rótulo Passri Di Scrapona.

Passirì Pineto produzido a partir de uvas Brachetto

Passirì Pineto produzido a partir de uvas Brachetto

Nos domínios de Monferrato Astigiano, nas mais altas colinas do vale de Belbo, a Moscato é grande estrela. A cidade de Canelli é o centro da produção espumante na região, e onde nasceram companhias como Martini Rossi, Cinzano e Gancia. Contudo, o grande barato é conhecer os vinhos dos produtores familiares, que não chegam nas gôndolas das redes de supermercados, e que fazem um belo trabalho como seus Moscato D’Asti DOCG. Mais de 5 mil famílias cultivam uvas ou estão envolvidas na produção de Moscato D’Asti e Asti Espumante, por isso essa uva representa tanto para a região. E para descobrir esses tesouros, partindo de Canelli, percorra as estradas que serpenteiam a região conhecida como Le Colline del Moscato entre os vilarejos de Santo Stefano Belbo, Mango, Nevigle e Castiglione Tinella.

Manhã de outono nos vinhedos de Dolcetto e Moscato, em Mango.

Manhã de outono nos vinhedos de Dolcetto e Moscato, em Mango.

É fácil perceber que nessa região a natureza é mais preservada. Os vinhedos estão bem mesclados com grandes áreas verdes de bosques, o que torna a paisagem ainda mais deslumbrante. Uma dica para conhecer uma grande variedade de rótulos é fazer uma visita a Enoteca Regionale Colline Del Moscato, localizada num belo castelo do século XVIII, na vila de Mango, onde é possível provar e comprar vinhos de excelente qualidade de pequenos produtores como Marco Bianco, Cascina Galletto, Ca’d'Gal, Bera e La Caudrina.

Casa típica na propriedade de Giancarlo Scaglione, Forteto Della Luja

Casa típica na propriedade de Giancarlo Scaglione, Forteto Della Luja

Ao sul de Canelli, também encontramos uma das menores DOCs italianas, Loazzolo, que conta com apenas 8 produtores, distribuídos em uma área de 4 ha de vinhedos. Essa microregião, famosa pelos seus Passitos de Moscato colheita tardia, somente alcançou o status de DOC graças ao trabalho de Giancarlo Scaglione, da Forteto Della Luja. Os vinhos dessa denominação, como o Piasa Rischei, são produzidos em baixíssima escala (3,5 mil garrafas), obtidos de vinhedos velhos de Moscato Bianco, plantados no alto das colinas em solo calcário, numa privilegiada exposição sudoeste. O resultado são vinhos extremamente frescos e perfumados, um verdadeiro néctar para os amantes dos vinhos de sobremesa.

Outros vinhos recomendados na seleção do Qvinho:

Bava Barbera D’Asti Nizza PianoAlto 2007
Uma das mais dinâmicas empreendedoras Aziendas de Monferrato, a Bava dos irmãos Roberto, Giulio e Paolo Bava produz uma ampla gama de rótulos que vão desde o Moscato D’Asti ao Barolo Chinato. O Barbera PianoAlto é um daqueles vinhos deliciosos, que transita entre o clássico e o moderno, um rótulo que consegue equilibrar elegância com a personalidade vibrante da Barbera. Nariz muito floral, frutas negras, algo remetendo a casca de laranja e um leve tostado. Taninos finos e acidez bem domada fazem desse Barbera uma opção irresistível para acompanhar uma boa massa ou risoto.

Strevi Moscato Passito Passri Di Scrapona 2008

A histórica Cantina Marenco, localizada no coração de Strevi, produz esse delicioso vinho branco passito, a partir de uvas Moscato colhidas no mês de setembro, e posteriormente, submetidas a um processo natural de secagem dos grãos (appassimento) que visa concentrar o teor de açucar e o aroma. O vinho encanta pelo seu incrível perfume e frescor. Aroma intenso remetendo a frutos secos, mel e especiarias doces. Final doce, mas com boa presença de acidez. Um vinho perfeito para acompanhar sobremesas a base de frutas ou um queijo azul.

Loazzolo Vigna Piasa Rischei 2006
Outro fantástico moscato passito, originário de Loazzolo, uma das menores DOCs da Itália. Produzido a partir de vinhedos velhos de Moscato Bianco de Canelli, com uvas de colheita tardia atacadas por botrytis nobili e, uma parcela das uvas submetida a 2 meses de secagem. A fermentação é relizada em barricas de carvalho, esse vinho esbanja concentração e perfume. Bouquet intenso, superdelicado e fresco; em destaque notas de casca de laranja, flores e baunilha. Muito complexo, com excelente presença na boca; doçura e acidez perfeitamente equilibrados.

Marco Bianco Moscato D’Asti Crivella 2008
No caminho oposto as grandes produções industriais, na propriedade localizada na belíssima comune da Santo Stefano Belbo, comandada pelo jovem Riccardo Bianco, encontramos alguns dos melhores exemplares de vinhos a base da uva Moscato Bianco. Rótulos como o Crivella e o vinho premium Cané 1999, mostram todo o potencial da Moscato, quando bem trabalhada, para o envelhecimento. Com uma produção limitada a 6 mil garrafas, o Crivella 2008 revelou uma bela cor dourada, nariz complexo e muito cremoso, com leve doçura, remetendo a notas de amêndoas, damasco e confeitos. Um Moscato elegante e com grande frescor, delicioso de beber.

Ca’d'Gal Moscato D’Asti Vigna Vecchia 2011
Há quatro gerações produzindo vinhos, a Ca’ d’Gal conta com uma pequena área de 10Ha e uma produção de 85 mil garrafas/ano. A frente de vinícola, Alessandro Boido defende a valorização da Moscato. Para fazer esse vinho foram escolhidas uvas supermaduras de vinhedos com mais de 60 anos, plantados em solos arenosos nas colinas de Santo S. Belbo. Aroma intenso remetendo a notas florais, frutas de polpa branca e cítricos, com bom corpo, final frutado e doçura bem dosada. Na versão envelhecida, safra 2005, esse mesmo Moscato D’Asti Vigna Vecchia, revelou um delicioso bouquet, com notas de mel, baunilha e amêndoas; muito cremoso e fresco.

Onde ficar e comer:

Agriturismo Brusalino
DSC_1155Para explorar a belíssima região das Colinas de Moscato o ideal é ficar numa estrutura de agriturimo que proporcione uma fácil locomoção para os passeios. O Agriturimo Brusalino está localizado nos arredores de Mango, no topo de uma colina cercada de uma belíssima paisagem. Os quartos são novos, bem confortáveis e aconchegantes. Assim como outras estruturas de agriturismo italianas, criadas para complementar a renda dos agricultores, na Brusalino tudo é feito pela família, que diga-se de passagem trabalha duro na terra. Não espere luxo, mas uma experiência autêntica com os costumes dessa região. A começar pelo delicioso café da manhã, repleto de produtos típicos de fabricação local, como queijos, embutidos, geléias e sobremesas. A estrutura também conta com restaurante que serve no jantar os tradicionais pratos piemonteses como Vitelo Tonnato, Gnocchi al Castelmagno, Carne Cruda, tudo muito saboroso e em porções generosas. Além de estar situada numa região muito tranquila, com uma vista encantadora, a Brusalino está cerca de 10 minutos de Barbaresco, com a vantagem da hospedagem e da alimentação terem preços bem abaixo dos Agriturismo das vizinhas famosas de Barolo e Barbaresco.

Loc. Brusalino, 43
12056 Mango, Italy