A força dos vinhos do Douro e Porto

Não é difícil perceber a evolução e o espaço que os vinhos portugueses vem ganhando nos últimos anos no mercado brasileiro. A cada ano, eventos como a grande prova dos vinhos do Douro e Porto (promovida pelo IVDP), que aconteceu no último dia 03 de maio em Curitiba, apresentam um pouco a dimensão e o potencial desses vinhos. Só para se ter uma ideia, no ano de 2010 foram exportadas para o Brasil mais de 2,7 milhões de garrafas de vinhos com Denominação de Origem Porto e Douro; com um crescimento em relação a 2009, de cerca de 30% em quantidade dos vinhos do Porto e de 14,6% para os vinhos DOC Douro. Para os Vinhos do Porto o resultado foi o melhor dos últimos 60 anos, totalizando um volume de negócios de 5 milhões de euros; ao mesmo tempo, o Brasil já é o 3º mercado para os vinhos DOC Douro. Este ano a grande prova organizada pelo IVDP contou com a presença de mais de 60 marcas, 30 importadoras brasileiras e mais de 250 vinhos. O Presidente do IVDP, Luciano Vilhena Pereira e o enólogo Cristiano Van Zeller também conduziram uma prova técnica com os vinhos do Douro das safras 2007 e 2008.

Sem dúvida foi muito interessante comparar o estilo de duas grandes safras; a exuberância e a potência de 2007, que produziu os fantásticos Portos Vintage 2007; e o frescor e elegância da safra 2008. Particularmente me agradou muito os vinhos DOC Douro da safra 2008, pelo caráter mais delicado, marcado por uma fruta mais fresca e uma acidez viva, quando comparada a safra 2007. Claro, tudo é uma questão de gosto, mas a recomendação é provar um pouco de cada ano e tirar as suas próprias conclusões.

Domingos Alves de Souza Abandonado 2007 – R$400

Pertencente a uma tradicional familia de vitivinicultores de Portugal, Domingos Alves de Souza é o nome que está por trás dos vinhos da Quinta da Gaivosa, Quinta do Vale da Raposa e, mais recentemente de rótulos como a “vinha do Abandonado”. Como o próprio o nome diz, o vinho foi produzido a partir de um vinhedo com mais de 80 anos que passou muito tempo esquecido, mas que foi recuperado e isolado para confecção de um vinho único. Logo ao debutar na safra de 2004 o vinho conquistou a crítica internacional, embora a pequena produção e o preço na alturas deixe o vinho restrito ao consumo de poucos. O Abandonado 2007 é um vinho marcado pela exuberância. Nariz incrivelmente perfumado com destaque para frutas negras supermaduras, compota, especiarias doces como baunilha e um leve tostado. Na boca é potente, concentrado, com taninos maduros e um final seco e muito longo. Achei que o Abandonado 2007 faz um estilo um pouco mais pesadão, quando comparado as safras anteriores.

Importadora: Decanter

Quinta do Noval Douro 2008 – R$390

Emblemática Quinta localizada na localidade do Pinhão, reconhecida por seus incríveis Portos. Até 1993 a Quinta do Noval pertenceu a familia Van Zeller, que vendeu os 145 Ha da propriedade, juntamente com seu valioso acervo de vinhos para o Grupo AXA Millésimes, que também controla marcas como Château Pichon-Longueville, Château Petit-Village e Château Suduiraut. O Quinta do Noval Douro é resultado de um blend de 50% Touriga Nacional, 40% Touriga Franca de 10% Tinto Cão, de vinhas de 25 anos de idade. Bouquet classudo, com ótimo frescor e complexidade; mesclando muito bem frutas maduras como ameixas e cerejas, cacau, com as notas especiadas aportadas pelo carvalho. Sem falar no característico toque mineral, comum aos rótulos da Noval. Um vinho encorpado, marcado por taninos firmes e de excelente qualidade; acidez vibrante e um final longo e delicioso! Ainda jovem, o Noval Douro 2008 poderá evoluir muito bem nos próximos 10 anos.

Importadora: Grand Cru

Quinta do Vale Dona Maria Douro 2008 – R$239

Depois da venda da Quinta do Noval, Cristiano Van Zeller esteve a frente como enólogo de uma série de bem sucedidos projetos, tanto em parceria com outros renomados colegas quanto em vôos solos. Quinta do Vale da Mina, Quinta do Vale Dona Maria e Van Zellers são alguns dos projetos que exprimem bem o talento desse enólogo. Sou fã confesso dos vinhos da Quinta do V. Dona Maria; e o que dizer de um rótulo como o CV Curricum Vitae Douro 2008?! Simplesmente fantástico! Em seu estilo são vinhos que conseguem conciliar concentração e potência, sem abrir mão da elegância. O Quinta do Vale Dona Maria 2008 foi produzido a partir de um vinhedo velho onde estão plantadas 41 variedades de uvas. Logo ao primeiro contato revelou um delicioso perfume, com um perfil delicado, e rico em notas frutas frescas como ameixas negras, framboesas e um fundo mineral. Na boca mostra força, com taninos macios, e um final frutado e persistente. Um vinho equilibrado, mais acessível nesse momento que o CV Curricum Vitae Douro 2008, mas que poderá evoluir muito dentro de mais alguns anos.

Importadora: Vinho sul

Quinta do Vallado Touriga Nacional 2006 – R$110

Difícil não se encantar com a exuberância desse belo exemplar de Touriga Nacional. Assim como outros rótulos da casa como o Douro DOC e o Quinta do Vallado Field Blend Reserva, esse vinho representa bem a expressão dessa casta. Produzido com uvas obtidas de um vinhedo plantado em 1994, e passagem de 20 meses em barricas de carvalho francês (40% novas e 60% de segundo uso), o Quinta do Vallado Touriga Nacional 2006 apresentou uma excelente concentração de fruta e intensidade aromática. Negro com reflexos violáceos; o Vallado revelou um bouquet de frutas vermelhas, além do característico toque floral. Um vinho robusto, mas ao mesmo tempo com taninos finos e doces, muito bem balanceado com a madeira e o álcool. Final de boca prolongado, marcado por uma agradável sensação de doçura e maciez. Não é um vinho barato, contudo, pelo que ele oferece, constitui uma das melhores opções para quem gosta dessa varietal.

Importadora: Cantu

Tons Duorum 2009

A união de profissionais do calibre de João Portugal Ramos e de José Maria Soares Franco – que para quem não conhece foi o enólogo da Soagrape durante três décadas e esteve a frente da produção de vinhos ícones como o Barca Velha – resultou num projeto fantástico no Douro chamado de Duorum. Já comentamos aqui sobre o excepcional Porto Vintage 2007 e o Douro Reserva 2007, mas agora chegou a vez desse novato, o Tons 2009. Um vinho de ótima relação qualidade/preço, para ser bebido jovem. Com uma composição que leva 50% Touriga Franca, 30% Touriga Nacional e 20% Tinta Roriz; com uma leve passagem de 6 meses em barricas usadas de carvalho francês e americano, o Tons 2009 agrada pela sua fruta limpa e frescor. Nariz perfumado e direto, muito frutado; notas de frutas vermelhas sem interferência excessiva de madeira. Estrutura mediana, acidez presente e um final de boa duração. Um vinho delicioso e muito fácil de beber.

Importadora: Porto a Porto / Casa Flora

Também recomendamos:

O Quinta do Soque 2007 (R$190 – Ana Import) da DFE, produzido a partir de vinhas velhas, (já comentamos sobre ele no evento da edição de 2010). Outro produtor que merece atenção é  Oscar Quevedo, que apresentou além dos seus vinhos Porto, a linha de rótulos Oscar´s. Como o próprio Quevedo bem definiu, são vinhos com uma proposta jovem e divertida, para serem bebidos de forma descompromissada. De fato, os vinhos possuem uma ótima pegada de fruta, e são muito fáceis de serem apreciados. Oscar ainda está em busca de um parceiro aqui no Brasil para distribuir seus vinhos. Esperamos poder encontrar seus rótulos em breve, e com preços acessíveis, já que essa é a ideia do produtor.

Em relação aos vinhos do Porto, vale a pena provar o extraordinário JH Andresen White 10 Anos (Lusovini). Muito aromático e fresco, ainda mais delicado que muitos Tawny 10 Anos, esse Porto confeccionado com uvas brancas é ideal para acompanhar um queijo azul, frutas secas e sobremesas. Na linha dos Porto Tawny, o Oflley Tawny 10 Anos (R$110 – Zahil) e o Niepoort Tawny 10 Anos (R$161 – Mistral) são duas excelentes alternativas. Se o orçamento for mais alto, o Duorum Vintage 2007 (R$220 – Porto a Porto / Casa Flora) é uma escolha para não errar. Um Porto robusto, como poderia se esperar de um vintage 2007, porém está delicioso hoje, e conta com um fantástico potencial de guarda.